Entrevista com Naná Vasconcelos
"O berimbau é muito zen. Ele me fez entender que o primeiro instrumento é a voz, e o melhor é o corpo"
Por Redação
em 21 de novembro de 2006
Nossos camaradas do site musical Gafieiras.com.br fizeram bela entrevista com um dos músicos e compositores mais indispensáveis à nossa música, o mestre Naná Vasconcelos. É como Dafne Sampaio, responsável pela entrevista, conta no texto de abertura: “Ao lado do inseparável berimbau que, às vezes, lhe tomava a voz, Naná falou, esqueceu, lembrou, tocou, respondeu, sentou, ficou de pé e esquentou a noite fria ao afirmar que achava o medo uma coisa linda.”
Naná, você se lembra da primeira vez que viu um berimbau?
Não. Isso é normal lá em Recife. A capoeira, a história do Zumbi, que é relacionada à dança e à luta da capoeira. Então, ver o instrumento é normal, mas eu nunca havia tocado. Aí nós fizemos um movimento de cultura popular em Pernambuco, lá em Recife. Naquela época as artes eram muito juntas. Havia teatro musicado, o Arena conta Zumbi, as coisas do [Augusto] Boal. Havia muitas peças que misturavam teatro com música, com música folclórica. E lá em Pernambuco fizemos a nossa versão, chamada Memórias dos Cantadores. A idéia era fazer uma pesquisa dos folclores do Nordeste e montar um show. Como o folclore muda de um estado para o outro, quando o espetáculo chegava na Bahia, tinha que mostrar a capoeira. E foi aí que eu aprendi a tocar berimbau e alguns toques de capoeira, como o São Bento Grande, São Bento Pequeno, Angola e Cavalaria. Depois dessa temporada, fiquei com o instrumento em casa. O berimbau é muito espiritual e virou uma missão pra mim. Como eu era baterista, comecei a pensar o berimbau como uma bateria. Eu fazia outros ritmos que não eram do berimbau. Então, parei tudo e falei: “Vou fazer direito um instrumento desse pra mim”.
E como você escolhe o material?
Intuição. Eu vi como era o processo de fazer: você pega a biriba, enterra no bafo do fogo, aí amolece pra ela secar já envergada. Depois eu passava sebo de boi, pra secar e deixar flexível. Hoje eu não faço força nenhuma pra mudar a corda. É a mesma biriba, tá lá, eu sempre trato dela, está sempre brilhando. A corda é Steinway, dos pianos Steinway. Corda de piano com a qualidade do aço, mas comprei na Alemanha, quando gravei lá. O berimbau virou o carro-chefe do negócio, o maestro da coisa, o pai grande. O berimbau nunca foi utilizado como instrumento, porque era e é um elemento da capoeira. O centro da história é a dança. O berimbau está lá para acompanhar e nunca foi utilizado como instrumento solista. Mas essa coisa veio pra mim. Essa história é maluca, viu? Saí da capoeira e fui para os outros ritmos que não têm nada a ver com ela. Tudo que faço hoje sai do berimbau. Foi ele que me fez usar a voz. O berimbau que me fez pensar em sons, em música. Pra mim tudo é música. A cuíca não foi somente feita para o samba. Ela é um instrumento. Eu botei a cuíca num blues do B. B. King. [risos]
Mas em algum momento o berimbau tirou você do sério?
Não. Eu penso que não tem essa coisa de tirar do sério. A coisa mais engraçada que tem é ficar sério. E a mais séria que tem é ser engraçado. [risos] Eu sou um cara sério; e sou engraçado. [risos] Não, ele simplesmente mudou a minha concepção, a minha maneira de ouvir. Ele me levou ao silêncio. O berimbau é muito zen. Tudo nesse chacra, sabe?! [indica a região abdominal] É corpo e alma. Ele me fez entender que o primeiro instrumento é a voz, e o melhor é o corpo.
Naná, de todos os instrumentos que você conhece, você acha que o berimbau é o mais orgânico? Ou você pode ter esse tipo de relação com qualquer instrumento?
Você pode ter esse tipo de relação com qualquer instrumento. Até com o eletrônico a sua relação pode ser orgânica, mas somente a partir do momento em que você pesquisa um som, um timbre. Tem que haver uma procura… Tem DJs interessantes que fazem uma música bem orgânica. O DJ Dolores tem esse lado. O berimbau me dá uns puxões de orelha: “Vamos estudar, vamos estudar!” Isso é bom para nunca pensar que já sabe tudo, que terminou; tenho muito para descobrir, mas que depende do estado de espírito, do equilíbrio. Normalmente quando trabalho com criança chego mais perto desse estado, que eu gostaria de vivenciar mais, mas não é fácil, não.
Mas o berimbau te ajuda a encontrar esse equilíbrio ou você precisa estar equilibrado pra se relacionar com ele?
Não, ele me ajuda a encontrar esse equilíbrio. Mas, por outro lado, tenho que estar muito equilibrado pra encontrar o que ele tem pra me mostrar.[risos]
A íntegra da entrevista você encontra no gafieiras.com.br
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