por Camila Eiroa

TransmutAção é o terceiro trabalho de BNegão ao lado dos Seletores de Frequência. O artista falou com a Trip sobre o disco recém lançado

Depois de Enxugando o Gelo e Sintoniza Lá, BNegão ao lado dos Seletores de Frequência mostrou o que queria com seu som: falar de revolução humana. Unindo todas as sonoridades da black music - como funk, dub e rap -, o artista conseguiu colocar peso nas suas mensagens e acaba de lançar o terceiro disco com o grupo de músicos - TransmutAção

É uma mistura de influências místicas que resultam em uma alquimia, como ele mesmo define. Melodias de atabaques, referências a líderes religiosos e símbolos de diferentes culturas fazem parte do novo álbum. "A serpente devorando a própria cauda", verso da segunda faixa que faz referência ao oroboros, mostra a intensidade da integração que BNegão busca ser e refletir no mundo.

São 11 faixas que contemplam o que acredita o artista, com direito a uma versão gafieira da clássica canção de samba Fita Amarela. Ele próprio produziu o disco, com auxílio de Maga Bo. A mixagem ficou por conta de Mario Caldato, Marcus MPC (do DigitalDubs), Estevão Casé e Diego Techera. São Paulo foi a primeira cidade a receber o show de lançamento do disco e agora a turnê segue por todo o Brasil.

Abaixo, leia entrevista que o cantor deu à Trip.

Como foi o processo para chegar no TransmutAção? Na verdade a gente estava fazendo um disco de música experimental, porque a ideia era essa. Mas aí rolou o lance da Natura, que não esperávamos ser contemplados com o apoio do projeto, e mudou tudo. Optamos por fazer um terceiro disco mais clássico mesmo, na sequência do Enxugando e do Sintonize. O resultado é o que a gente chama de alquimia sonora. Fomos ensaiando, vendo o que ía surgindo e simplesmente aconteceu. 

Desde quando está sendo produzindo? Ficamos pouquíssimo tempo produzindo e no estúdio. Um mês, um mês e meio no máximo.

O que você acha que esse trabalho tem de novo em relação aos outros? Muitas coisas. O que eu mais queria botar desde o início era a percussão na cara, como protagonista junto com a banda. Sinto que conseguimos isso. Além de falar um pouco mais de questões que eu acho importante.

"Não é um disco de pesquisa, é um disco de vivência"

Comparado com os álbuns anteriores, o novo disco ainda tem a pegada da revolução, mas priorizando a evolução pessoal, mais espiritual. São essas as questões? A parada é simples: os Seletores de Frequência têm essa função. Eu comecei essa história na tentativa de um projeto solo com letras que não cabiam em nenhuma outra coisa que eu estava fazendo, como o Planet Hemp. Com letras que sempre misturavam essa coisa do espiritual com o social. O que aconteceu nesse disco foi basicamente que eu achei que fosse importante dar uma pesada para o lado espiritual da coisa.

E tem várias referências, desde Trigueirinho até Dalai Lama e Tom Zé. De onde elas vêm, fazem parte da sua vida ou foi um processo de pesquisa? É tudo que eu vivo há anos, sacou? Eu sou o anti-pesquisador. São coisas que ou estão dentro da minha vida ou não estão. Posso dizer de coração que a única pesquisa que tem no disco foi a que eu fiz da música Fita Amarela, porque eu gosto dela há muito tempo e queria saber se existia uma versão parecida com a que eu queria fazer, de gafieira com o espírito New Orleans. Não é um disco de pesquisa, é um disco de vivência.

Por que? Ah, porque tá na hora, né? [risos]

"Você acha que é diferente até ter as mesmas tendências que aquele opressor filho da puta"

Você acha que a evolução social só acontece depois da pessoal? Pra mim isso é óbvio. Qualquer coisa, na verdade. Senão vira revolução de bichos. Tem um ditado anarquista que fala que triste seria matar o canibal e herdar sua fome. E isso é o que mais acontece. Não adianta a galera chegar lá na parada e fazer a mesma coisa. A tendência clássica é essa, sacou? E justamente porque não existe a mudança interna. Você acha que é diferente até ter as mesmas tendências que aquele opressor filho da puta. Isso é um clássico e o único jeito de mudar é mudando a si mesmo, fazendo da sua base espiritual mais forte. Não tem mistério pra mim.

E quanto à questão da apropriação cultural de religiões e da cultura negra? É uma temática sempre bem presente na sua música.  Eu acho problemático esse tipo de coisa, sabe? Putz, tem que ter respeito. Apesar de eu não ter religião nenhuma, estou dentro de várias coisas na vida. Como filosofia de vida eu vou fazendo laboratórios, sou o que se chama de universalista. Ao mesmo tempo em que vou ao centro espírita tomar passe, eu tô ligado na parada hinduísta. Meu esquema é a libertação mental e espiritual. É isso. Desde moleque eu sempre fui assim, vou colocando as coisas na minha vida pra ver como funciona.

Se lembra quando foi a primeira vez que se interessou por questões espirituais? Nessa vida eu me lembro [risos]. Essas possibilidades me surgiram lá pelos 13 anos. O professor Hermógenes é algo que já está dentro da minha casa desde sempre, minha mãe gostava e depois acabei conhecendo ele e foi a maior viagem porque a gente se conheceu quando eu estava indo fazer um show numa delegacia bem sinistrinha aqui do Rio de Janeiro. Era justamente pra botar uma parada diferente naquele lugar. Foi muito incrível porque ele já era meu mestre.

"As pessoas não conseguem conviver com seus iguais e isso é o começo de uma coisa ruim"

E você acha que a música tem esse poder de transmutar? Várias coisas. Existem músicas que têm, sim, esse poder. É clássico. Um exemplo pra mim é a Sorriso aberto, de um cara chamado Guará, totalmente bicho solto. Ele dava um jeito de fazer coisas lindas. E isso, pra mim, é óbvio que transmuta. Vejo várias pessoas chorando com essa música, como eu mesmo já chorei. Uma vez fizemos uma série de shows em presídios no complexo do Bangu, em várias unidades, na cara e na coragem e me lembro claramente de quando cantei essa música. Um cara muito grande, imenso, de olhar bem sinistro, se desmanchou, chorou pra caralho. Fui falar com ele pra saber o que tinha rolado e ele contou que era amigo do Guará e tinha ficado muito agradecido por aquela parada. Não tenho mesmo dúvidas desse poder transformador da música, e o mundo tá precisando disso, sabe? Por isso eu pisei no acelerador pra falar dessa coisa metafísica no disco. Eu tenho visto, de um tempo pra cá mais do que nunca, muita gente sair do prumo, sabe? Ou por alguns momentos ou pra sempre. Por isso eu faço o que sinto no meu coração. As pessoas não conseguem conviver com seus iguais e isso é o começo de uma coisa ruim. Por isso vou continuar fazendo essa parada até o último segundo, pra mim é missão de vida.

Qual sua música preferida desse disco? Uma música que bateu muito pra mim foi a No ar, porque ela veio meio baixada assim. Um download dos céus [risos]. Eu estava de boa em uma madrugada e veio a ideia da música, liguei o gravador e foi surgindo. Junto a isso eu fui falando com a galera pra desenvolver  Quando acabou, ficou emocionante pra mim. Eu não diria que é a que eu mais gosto porque não tem isso, mas ela é a mais especial. É uma música que foi plasmada na alquimia total, que é uma energia que eu acredito muito. Ela veio literalmente do ar.

Vai lá: acompanhe as datas da turnê de lançamento na página do Facebook.
Para ouvir o disco, clique aqui.

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