ENTRE AS PERNAS
A miopia das grandes corporações, que só enxergam o que é grande ou está muito perto dos seus olhos
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Alguns sinais das transformações absolutas que estamos presenciando são deliciosos. A cegueira, ou melhor, a miopia das grandes corporações, que só conseguem enxergar o que é muito grande ou está muito perto de seus olhos, produz valas de mercado, verdadeiros ‘grand cannyons’ por onde passam, nadando de braçadas, os novos empreendedores dotados de vista treinada para olhar entre as pernas do gigante e encontrar as pérolas que ele nem sequer percebeu quando escaparam entre seus dedos.
Nesta classificação, se dando bem na paralela ao ‘main stream’, temos por exemplo as novas gravadoras de música. Enquanto suas avós ‘corporate’ descabelam-se vendo milhões de moleques drenando suas reservas de ouro via Napster e assemelhados, os responsáveis pelas empresas de música da nova economia vivem a realidade dos artistas, são frutos do mesmo ambiente, e apenas por isso, recebem a informação antes mesmo de ela merecer este rótulo.
Gravadoras como Trama, ST2, Eldorado e Abril Music, entre outras, têm prestado um serviço que merece elogios.
Há alguns anos, fazer isso, pesquisar e produzir novos artistas ou resgatar talentos esquecidos, era tarefa de abnegados, hippies, idealistas avessos ao capital, dispostos a abrir mão de tudo em função de uma banda ou grupo no qual acreditavam cegamente.
Bebê gordo
Os grupos de hoje pensam com a mesma alma, mas usam cérebros eletrônicos.
Lançam mão das estratégias mais avançadas de marketing, mas mantêm os pés nos palcos, backstage e casas de shows além, é lógico, das sessões de ensaios e estúdios. Assim, nomes como Max de Castro já nascem com discos bem produzidos, bem distribuídos, com direito a capas bem fotografadas, assessorias de imprensa trabalhando no gás, com equipes especiais para rádio, tevê, jornais e revistas, logotipos, anúncios em veículos dirigidos, brindes para formadores de opinião e tudo mais que até pouco tempo era exclusividade das chamadas ‘majors’. Fala-se por aí que o Brasil tem o 5º maior mercado fonográfico do mundo. Mesmo que fosse o 6º, já seria cachoeira de dinheiro suficiente para despertar o apetite dos perdigueiros da nova economia. São eles que fazem questão de ganhar dinheiro sem parar de se divertir e de produzir coisas boas para os outros. Além do mencionado Max de Castro (da Trama) que merece ser ouvido, vale a coleção extensa e bem cuidada de Frank Zappa pela Eldorado, Veiga e Salasar (da ST2), o resgate de Erasmo Carlos que prepara CD pela Abril Music e ainda o interessantíssimo vídeo também da ST2 com o documentário Bob Marley and the Wailers – Catch a Fire.
É a história real da explosão do reggae jamaicano, no início dos anos 70, e a importância do produtor Chris Blackwell, um branquelo que adicionou à batida tosca jamaicana o tempero que a tornou palatável a um volume maior de pessoas em pouco tempo. Algo, aliás, parecido com o que faz o novo show business paralelo que vai ganhando força no país.
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