Enquanto Tóquio não vem: a preparação dos atletas olímpicos

por Luisa Alcantara e Silva

Treino, foco, família e pensamento positivo (muito) ajudam atletas de diferentes modalidades a lidar com a ansiedade para Tóquio 2021

Era 26 de fevereiro do ano passado quando Daniel Dias e outros 18 atletas brasileiros chegaram à Itália para participar de uma etapa do circuito internacional de natação. Eles seguiriam para o norte do país onde, no dia seguinte, começaria a competição. Mas, logo que pisaram em solo italiano, a comissão foi avisada sobre o cancelamento do torneio. A razão? Um vírus que havia matado algumas pessoas na China e estava se espalhando por outros países. Daniel já havia lido algumas reportagens sobre aquele assunto, mas, naquele momento, viu que o problema era muito grave. 

A equipe retornou ao Brasil no dia seguinte e, pouco depois, a Organização Mundial da Saúde decretou a pandemia. Todo o mundo deveria ficar em casa, e Daniel seguiu a recomendação. 

LEIA TAMBÉM: Um pé na rua, outro na Olimpíada

Além de lidar com o isolamento e toda a preocupação ligada ao tal do vírus, o atleta paulista de 32 anos tinha um motivo a mais para se desesperar. Onde ele, que estava com a vaga para os Jogos Paralímpicos de Tóquio garantida desde outubro de 2019, iria treinar? O evento estava marcado para agosto, e Daniel não podia ficar parado. Foram exatos quatro dias entre o início da pandemia no Brasil e o anúncio de que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2020 seriam adiados para 2021 – as novas datas eram, respectivamente, de 23 de julho a 8 de agosto e de 24 de agosto a 5 de setembro. 

Se, inicialmente, aquela notícia trouxe uma certa tranquilidade – ele teria um ano a mais para se preparar –, também foi recebida com insegurança.  "A coisa era mais séria do que eu imaginava", pensou Daniel. Era mesmo. Os Jogos, realizados desde 1896 sob responsabilidade do Comitê Olímpico Internacional (COI), só haviam sido cancelados em 1916, 1940 e 1944, por causa das duas Grandes Guerras Mundiais. 

LEIA TAMBÉM: Escaladores olímpicos

Mas, como um bom atleta, decidiu focar na parte positiva, ou seja, no tempo a mais para treinar. No começo, teve muita dificuldade. Em casa, Daniel ficou 40 dias sem poder pular em uma piscina. "Foi muito estranho, me senti um peixe fora d'água", lembra. Vendo que o cenário não iria melhorar tão cedo, entrou com um pedido para nadar na piscina da academia em que treina. Conseguiu o acesso, já que o estabelecimento estava fechado para o público e seriam só ele e o técnico ali.

O retorno às águas foi importante para a evolução de Daniel, mas o que mais o sensibilizou foi a questão emocional. Para lidar com o isolamento, contou com a ajuda da família. "Minha rotina como atleta é sempre corrida e, nesse período em casa, pude curtir mais meus filhos e minha mulher", conta. Azaph, de 6 anos, Daniel, 5, e Hadassa, 1, inclusive, serviram de peso para o treinamento muscular do nadador. 

O adiamento dos Jogos viria a adiantar outros planos do recordista Daniel. Ele, que tem 24 medalhas paralímpicas, decidiu se aposentar das raias depois de Tóquio. "Já contribuí muito para o esporte e sei que posso continuar ajudando do lado de fora da piscina", diz ele, que planeja trabalhar como gestor. A idade foi outro ponto que pesou na balança da decisão. "Os próximos Jogos serão em Paris, em 2024. Estarei com 38 anos. Agora é hora de dizer chega."

Quem está com 47 anos e ainda não parou é o bicampeão olímpico e 15 vezes campeão mundial de iatismo Robert Scheidt. Em um esporte com exigências diferentes das da natação, o também paulista vai para a sua sétima Olimpíada e, pela primeira vez, teve que lidar com o adiamento. Assim como Daniel, também concordou com a mudança. "Do jeito que as coisas estavam, com a pandemia avançando e ceifando vidas, o adiamento foi necessário", diz ele. 

Tantos anos de experiência têm ajudado Scheidt a evitar "situações como a extrema ansiedade". Ele confessa que o sentimento está ali, "em algum nível", mas que consegue lidar bem com ele, mantendo uma rotina de treinos. "Seguir o plano de trabalho e executá-lo da melhor maneira possível é o caminho para manter a mente focada e equilibrada." 

No controle

É o que também faz o judoca David Moura, que está a um passo dos Jogos. Ele segue o mantra de só se preocupar com o que pode controlar. "Eu, como atleta, não tenho controle se vão ou não ter Olimpíadas. Tenho controle sobre o meu treinamento, sobre me manter pronto para o que acontecer." O ensinamento é bom para ele se manter focado, pois o atleta não sabe nem se o campeonato que decidirá sua vaga para Tóquio vai ocorrer. 

Considerando essa situação dos atletas, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) disponibilizou em seu site o documento "Recomendações para os atletas do Time Brasil sobre cuidados com o coronavírus". Uma das sugestões é exatamente a seguida à risca por David: "Focar naquilo que pode ser controlado. Aquilo que não pode ser controlado é perda de tempo e de energia". Entre as outras dicas, estão: "Buscar estabelecer uma nova rotina. Essa situação é nova para o mundo inteiro" e "Estar centrado no aqui e agora. A concentração no presente lhe ajudará a selecionar os estímulos adequados para tomar as decisões do melhor programa de preparação adaptado para este momento". 

São recomendações valiosas para quem, como David, tem que lutar também contra o cancelamento de várias provas. "Você fica mais focado quando tem uma competição marcada e, pela primeira vez, ficamos meses sem competir", diz ele, que é atleta de alto rendimento do Instituto Reação e representante da ONG em Cuiabá, sua cidade natal. No ano passado, David ficou quase nove meses sem enfrentar um adversário, mas, como já aprendeu, focou no que tinha controle. Fez alguns treinos fora da planilha, o que seria impensável com campeonatos à vista. Também pôde curtir mais o filhinho, João, de três anos. "Nesse sentido, foi bom não ter nenhum campeonato marcado."

LEIA TAMBÉM: As minas que lutam (e vencem) no tatame

Enquanto isso, ele treina. Muito. Conta com o privilégio de ter toda a estrutura para os exercícios, como o tatame, em casa. Sofreu logo que a pandemia foi decretada e não pôde encontrar a equipe, mas conseguiu se adaptar até que os treinos em conjunto, seguindo os protocolos, pudessem ser realizados. "Ninguém treina sozinho", diz. A ansiedade para o principal campeonato esportivo mundial tem um elemento a mais: aos 33 anos, ele afirma que essa é sua última chance de conquistar o tão sonhado ouro. "Estou no auge da minha performance, tem que ser agora."

Fui

Bicampeã olímpica, a mineira Fabiana Claudino poderia atuar como meio de rede em Tóquio, mas preferiu encerrar a carreira de jogadora de vôlei antes. Por um bom motivo: ser mãe. O plano inicial era de que o tão sonhado filho fosse gerado depois dos Jogos, mas, quando a suspensão foi anunciada, ela, que estava com 35 anos à época, pensou bastante, conversou com o marido e a família e decidiu que era hora de dizer adeus às quadras. "Seria a minha quinta Olimpíada e, quando jogaram um ano para frente, foi um balde de água fria", lembra. Mas, se por um lado os Jogos estavam indefinidos, algo estava muito claro. Era hora de engravidar.

Ajudou-a na decisão o fato de acreditar que uma renovação pode ser benéfica para o vôlei brasileiro. Embora veja a importância de jogadoras como Fofão, que conquistou a medalha de ouro em Pequim aos 38 anos, e não ache que sua própria idade seja um fator limitador – nos Jogos de Paris, em 2024, Fabi terá 40 anos –, ela já anunciou que não vai mais participar de Olimpíadas. Enquanto espera a chegada de seu bebê, Asaf, ela torce para os atletas brasileiros que já estão garantidos ou que estão em busca de uma vaga em Tóquio.

LEIA TAMBÉM: "É muito difícil ser atleta no Brasil", diz Carol Solberg

Caso da boxeadora baiana Beatriz Ferreira, atual campeã mundial na categoria até 60 quilos, que aguarda a confirmação da vaga – se mais campeonatos forem cancelados, seu nome já está garantido. A pandemia a pegou de guarda baixa, mas o pior foram os cinco meses sem treinos com toda a equipe. Agora, sente-se mais aliviada. Durante o isolamento, teve a sorte de contar com o apoio do pai, que é seu treinador, mas também precisou buscar ajuda com uma psicóloga em sessões semanais. "O físico a gente treina, se desenvolve, mas o lado mental é muito complicado. Ficamos abalados mesmo com tudo o que está acontecendo."

Contribuiu para esse desequilíbrio a falta de competições. Em um ano normal, ela teria subido no ringue mais de 35 vezes. Em 2020, foram só seis lutas. "A cabeça precisa estar muito boa para manter o ritmo, e acho que estou conseguindo isso", diz ela. Se os Jogos serão mantidos em julho deste ano ou novamente adiados, ela prefere não pensar ou ler a respeito, pois não quer se desesperar sabendo que "tudo acontece por uma razão".

Olhar para o lado bom parece uma lição que todos os atletas aprendem em algum momento da vida. Se não é um ensinamento, pelo menos é uma das recomendações do Comitê Olímpico do Brasil para o momento de pandemia: "Manter-se positivo diante da situação, um dos pilares da resiliência". 

Sugestão mais do que aceita para a gaúcha criada no Havaí Tatiana Weston-Webb, para quem o adiamento acabou servindo como tempo extra. "Tento sempre ser positiva, então, pensei: ganhei mais um ano de treino", diz ela sobre o momento em que anunciaram a mudança dos Jogos para 2021. Parte da elite do surfe, Tatiana vai representar o país na estreia do esporte em Olimpíadas e, se é para ver o lado bom, seu principal espaço de treino é o mar, ao ar livre e sem aglomeração nenhuma. Tem aproveitado as boas ondas do inverno havaiano e, longe das águas, treina à distância com o time do COB.

LEIA TAMBÉM: De onde vieram os atletas da elite do surf mundial?

Como ainda faltam alguns meses para Tóquio, ela prefere não pensar muito nos Jogos e usar a energia para focar em campeonatos que espera acontecer até lá. Algo negativo, mas que a surfista não pode controlar, é o fato de que a torcida deverá ser diferente em ano de pandemia. Em novembro do ano passado, Toshiro Muto, então presidente-executivo do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio, afirmou que os torcedores poderiam ser orientados a não gritar, cantar ou se manifestar de forma efusiva. Mais recentemente, a organização divulgou um código de conduta e disse que haverá "restrições que requerem flexibilidade e compreensão".

Aos 24 anos, Tatiana sempre sonhou ver, como pequenos pontinhos ao longe, vários brasileiros gritando seu nome e vibrando por ela na areia enquanto ela briga pelo ouro olímpico. "Mas, tudo bem, sei que terei milhões de pessoas me apoiando no Brasil." Vai ter, sim, Tatiana. 

Créditos

Imagem principal: rawpixel.com

fechar