De onde vieram os surfistas brasileiros da elite mundial?

por Heitor Flumian

Antes do isolamento, a Trip investigou as casas em que nasceram e a origem dos atletas que representam o Brasil na WSL

A lenda diz que o havaiano Duke Kahanamoku (1890 - 1968), conhecido como o pai do surf moderno, já teria sugerido a inclusão do esporte na Olimpíada na edição que rolou em Estocolmo, na Suécia, em 1912, de onde saiu com duas medalhas na natação – não sem antes propagar ao mundo que parte do seu treino se resumia a pegar ondas. No momento em que foi anunciado que a modalidade finalmente faria sua estreia olímpica em Tóquio – jogos que foram adiados para 2021 pela pandemia de Covid-19 –, Duke teria outro bom motivo para celebrar: a natureza democrática da praia como espaço, ao longo dos anos, se estendeu ao surf profissional. Basta conhecer as raízes de boa parte dos atletas brasileiros na elite mundial, incluindo o atual campeão do mundo, Ítalo Ferreira, cuja primeira prancha foi a tampa da caixa de isopor usada pelo pai para armazenar peixes em Baía Formosa, no Rio Grande do Norte. 

“Acho que esse início duro, seja surfando com a tampa de isopor ou com um pedaço de madeira, como muitos fazem, faz parte do processo e vai agregando em vontade para o atleta”, diz o ex-surfista e ícone de uma geração Fábio Gouveia. Natural de Bananeiras, no interior da Paraíba, Fábio joga luz sobre outro desafio enfrentado por ele, por Ítalo e outros nomes da elite. “O fato de Baía Formosa ser distante também é uma questão. O que acontece no Nordeste é um pouco mais difícil de se chegar ao sul”, opina.  

Para Carlos Burle, 52 anos, bicampeão mundial de ondas gigantes e um dos surfistas mais respeitados do país, a mudança do perfil dos atletas é algo que chama a atenção. “O surf ficou mais inclusivo. Antigamente, era a pele branca, o cabelo loiro, com parafina. Hoje, o estereótipo é o da grande maioria da população brasileira, há uma miscigenação. Isso é muito legal”, diz. Mesmo ciente de que são poucos os que chegam ao topo, embalados por patrocinadores e contratos polpudos – e que faltam investimentos nas categorias de base –, Burle vê com bons olhos como o esporte passou a ser encarado como opção de carreira e relativiza a questão econômica no caminho até a profissionalização. “É lógico que quem tem condições financeiras enfrenta menos obstáculos, mas não necessariamente vai ser campeão mundial. Hoje existem cada vez mais escolinhas espalhadas pelas comunidades do Brasil e se a pessoa tiver muito talento mesmo o esporte vai abraçá-la. O Mineirinho é um belo exemplo”, conta.

Outro personagem que ajudou a escrever a história do surf nacional, Ricardo Bocão, 65, integrante da primeira geração de surfistas profissionais brasileiros nos anos 70, resgata a época dos pranchões, na década de 60, para fazer uma análise histórica do esporte. Naquele período, recorda, só quem tinha grana ou um trabalho do tipo piloto de avião ou comissário de bordo conseguia trazer equipamentos importados, entre eles uma prancha de surf. “O Brasil começou a fazer barulho no surf mundial com resultados significativos no final dos anos 80 e a partir daí passou a apresentar certa diversidade social de seus principais atletas”, conta, citando Fábio Gouveia, Peterson Rosa, Teco Padaratz, Victor Ribas e Jojó de Olivença como expoentes de origem humilde. Já Brigitte Mayer, 51, a primeira surfista brasileira a se profissionalizar – debutou em uma etapa do Circuito Mundial em 1990 –, ressalta que apesar da evolução do esporte, algumas questões ainda seguem iguais. “O fato de ser mulher ainda faz com que as coisas sejam mais difíceis para nós. Precisamos matar um leão por dia para nos provarmos no mar”, diz a ex-surfista, que também se tornou a primeira mulher a assumir o comando da Associação Brasileira de Surf Profissional (Abrasp). “O lado bom é que a faca na boca também é bem maior.”

A seguir, grandes nomes do surf atual e talentos que tentam se consolidar na elite, ou alcançá-la, compartilham lembranças das casas e ambientes em que cresceram. 

Adriano de Souza (Mineirinho), 32 anos, campeão mundial em 2015, natural de Guarujá (SP)

“A primeira lembrança que vem à minha cabeça quando penso na casa é o meu quarto, que dividia com o meu irmão; eu dormia do lado direito e ele no esquerdo. Não sei por que, mas adorava esse quarto. Eu recortava fotos de revistas de surf e colava na cabeceira da cama as que gostava: tinha do Fábio Silva, do Binho Nunes, do Fábio Gouveia. A casa ficava no bairro Santo Antônio, no Guarujá, a uns 50 minutos caminhando da praia, atrás de um bar de onde a gente tirava a nossa sobrevivência. Era uma casa bem simples, mas gostosa de se viver; eu adorava todos os seus cantos. Morei nela até meus 13 anos. Aos 14, ganhei meu primeiro campeonato profissional, no Rio de Janeiro, e na época juntei o dinheiro desse prêmio com uma grana que meu irmão tinha guardado de reserva do exército e compramos a casa em que vivemos até hoje, perto da praia, no Guarujá. Foi quando saímos da favela. Essa casa ainda existe, mas foi remodelada. Não existe mais a parte do bar, e ela foi divida entre duas famílias. Voltei lá uma vez para gravar um programa e fiquei agradecido por ver que cuidaram do lugar e por terem deixado uma parte do visual antigo intacta.” 

Silvana Lima, 35 anos, uma das duas brasileiras na elite do surf, natural de Paracuru (CE)

“Quando penso na minha casa de infância vêm muitas lembranças. Uma delas é de algo que acontecia fora dela: eu ficava olhando os carros numa rua ali perto da praia, mesmo que não fosse um lugar perigoso, para tentar ganhar uns trocados. Minha casa não era uma casa, ‘casa’; bom, na verdade, era porque tinha um teto, né? Mas era mais uma cabana de praia, muito comum no Nordeste, e ficava exatamente na beira da praia Ronco do Mar, em Paracuru. Chamava Mira mar. Tinha uns 30 metros quadrados, a gente dormia em redes, e vivíamos por meio dela. Era ali que minha mãe vendia cerveja, PF. Isso quando tinha cliente. Quando não tinha, comíamos a comida que era para vender e ficávamos no débito. Atrás tinha um sítio com vários tipos de frutas e também ajudou muito a gente. Acho que a quantidade de frutas que comi me deu forças para ficar bem alimentada. Às vezes, também ajudava a empurrar um barco para fora do mar e ganhava um peixe, ou enganava a barriga antes de ir para a escola tomando café com farinha. Mas, eu gostava de estar perto do mar, de acordar com aquela vista, de ser a primeira a entrar na água para surfar, do contato com a natureza. A rede pendurada do lado de fora era o meu lugar preferido; até hoje prefiro dormir na rede do que na cama. O lado ruim era que não tínhamos muitos vizinhos e era perigoso sair de lá quando escurecia, ainda mais sendo mulher. Tinha pesadelos em que um homem surgia do nada e me maltratava. No mais, só sentia falta de conforto e de uma televisão. Morei lá até os 17 anos, quando ganhei duas etapas de surf numa competição no Rio de Janeiro e me deram um carro como prêmio. Aí, consegui tirar minha família da beira da praia e colocar numa casa. Hoje, aquela cabana não existe mais. Fizeram um calçadão e alguns quiosques no lugar.” 

Peterson Crisanto, 27 anos, que estreou na elite do surf mundial em 2019, natural de Matinhos (PR)

“Nossa casa era bem humilde. Nos meus flashbacks, o chão era de areia. Não tinha nem muro direito; eram três sobradinhos em que viviam a minha família inteira. Dois eram de madeira e um era de concreto. A minha era de madeira e com o tempo meu pai, que é pescador, concretou. Tinha uma sala com uma cozinha emendada, um banheiro e um quarto em que dormiam, em dois beliches, meus pais, eu e duas irmãs. Como eu mal cabia, acabava dormindo muito na sala, que era o lugar que mais curtia. Era onde assistia desenhos e programas de surf. É o meu espaço favorito até hoje [risos]. Mas sentia falta de uma cama para dormir. Sabe aquele sonho de criança de ter o seu quarto, sua cama, sua televisão? Acho que minhas irmãs sentiam também. A casa ficava atrás de um mercado de peixes, perto do mar, a uns 50 metros do Pico de Matinhos, onde comecei a surfar. Essa proximidade me influenciou a praticar o esporte; sempre olhava para o mar ao voltar da escola ou esperando meu pai voltar da pesca de canoa. Ainda moro nela e fico feliz de poder ter ajudado minha família a reformá-la. Hoje, cada um tem seu quarto. Quando comparo a casa como era e como está, me dá um sentimento de felicidade, de evolução, de ter conquistado as coisas. Para aonde quer que eu viaje, o cheiro de mar e sobretudo o de peixe me faz lembrar dela. Algumas pessoas não gostam, acham o cheiro forte, mas eu estou acostumado.”

Jadson André, 29 anos, que voltou à elite do surf em 2019, natural de Natal (RN)

“A minha casa de infância, na verdade, era onde eu morava até janeiro. Ela fica na Vila de Ponta Negra, um bairro de Natal situado em uma comunidade mais carente. No começo a casa era bem simples, humilde. Graças a Deus, as coisas foram ficando interessantes financeiramente e fui mudando um pouco ela, aumentando. Antes, era só um quarto e um banheiro; hoje, até alugo ela nas plataformas de locação durante a alta temporada. A vizinhança é a mesma de sempre: toda minha família por parte de pai vive em um terreno que é do meu avô e ele dividiu entre os filhos. Entre eles está meu tio Ben, que me ensinou a surfar aos oito anos, quando começou a me emprestar sua prancha. Foi na praia de Ponta Negra, a uns 500 metros daqui. Eu gosto dessa casa porque é a minha raiz e quando estou nela me faz lembrar muito como o esporte mudou minha vida. O que eu menos gosto é que a rua é muito estreita. Ganhei um carro de luxo de um patrocinador e é muito difícil dirigir ele aqui, porque é um carrão todo rebaixado [risos]. A casa para a qual acabei de me mudar tem uns seis quartos, quatro banheiros, e, o principal, um quintal onde posso criar meu pastor-suíço, que é o novo mascote da família. Sempre quis ter um cachorro grande, mas antes não podia por falta de espaço.’’

Yanca Costa, 20 anos, que luta para chegar à elite do surf mundial, natural de Fortaleza (CE)

“Nasci em Fortaleza e morei até os dez anos na casa do meu avô, com minha mãe e meus irmãos. Meu pai, que trabalhava como vendedor de loja, vivia em Icaraí, a 40 minutos de ônibus, e nos finais de semana eu ia lá para poder surfar. Quando ele conseguiu arrumar uma casa fixa por lá, nos mudamos. Ela era humilde, mas tinha um grande quintal. Nela o que mais me marcou, algo que tenho comigo até hoje, era um pôster do Andy Irons pegando um tubo muito animal. Meu pai tinha colocado ele no quarto e toda vez que eu acordava dava uma olhada nele e me passava uma energia muito massa. Ele que me incentivou a começar a surfar cedo, aos cinco anos, emprestando a sua prancha. Teve várias vezes que deixou de pagar contas, ou que tivemos que comer só arroz, batata e farinha, para eu poder participar dos campeonatos. Aos 16, mudei para o Rio de Janeiro, onde tenho melhores condições e não passo mais perrengue. O que pesa bastante, até hoje, é não ter patrocínio. O circuito é caro e as etapas acontecem em lugares muito distantes. Voltei para a casa de Icaraí uma vez só e foi bizarro, me deu muita saudade, bateu um negocinho no coração, mas tristeza não é palavra. O cheiro de grama molhada molhada de chuva ainda me faz pensar nela.”

Créditos

Imagem principal: Silvana Lima por Juliana Martins (@jumartinss)

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