por Gabriel Siqueira Lopes

Conversamos com as mulheres que derrubaram quase todos os estereótipos do jiu-jítsu. Não foi, e ainda não é, nem um pouco fácil, mas desistir nunca foi opção

A primeira academia dedicada ao jiu-jítsu do Brasil foi inaugurada em 1925. Mas foi só em 1984, na terceira geração da luta, que as mulheres chegaram aos tatames. Foi nesse ano que Yvone Duarte, carioca de berço e roraimense de criação, começou a treinar junto ao irmão em uma academia na zona sul do Rio de Janeiro.

Para ela, sempre foi claro o veto que existia contra as mulheres nos campeonatos. Veto que derrubou quando, depois de muita insistência, ajudou a organizar o primeiro torneio feminino, em 1985. Hoje, ela é a mulher mais graduada do jiu-jítsu mundial, faixa preta de sexto grau.

Yvone abriu as portas do esporte para figuras como Kyra Gracie, considerada uma das maiores atletas de todos os tempos da modalidade. Parte da família real do jiu-jítsu, passou a infância brincando de luta. Aos 11 começou a competir, aos 15 decidiu ser profissional e, aos 33 anos, além de ser multicampeã, integra o Hall da Fama da Federação Internacional de Jiu-Jítsu (IBJJF) e é mãe da Ayra, de três anos, e da Kyara, de um. Até hoje ela lembra da resistência que a própria família teve quando ela decidiu seguir a carreira, mas comemora ao afirmar que “abriu os olhos deles sobre as mulheres no esporte”.

Pentacampeã mundial da modalidade, Karen Antunes optou por deixar o Brasil por conta da falta de incentivo.  É muito difícil viver do jiu-jítsu. É preciso ralar, batalhar, treinar e ter muita, mas muita sorte e, como em outras áreas, fica ainda mais difícil se você for mulher.

Yvone, a pioneira, sempre precisou trabalhar em outras áreas além da luta, “os homens vivem disso e vivem bem, mas não é assim para mulheres. O mercado é muito machista”, relata. Kyra conta que se dedica diariamente a igualdade dentro do esporte, mas sente que os valores dos prêmios das mulheres em competições ainda se limitam a cerca de 10% do que os homens recebem.

Apesar da treta, ser atleta profissional é o objetivo de Mikaele Damaceno, de 17 anos. Ela deixou sua casa em Taboão da Serra e passou a viver com a família do professor, em Santo André, na grande São Paulo, para conseguir viabilizar os treinamentos, viagens e competições. Já são 33 medalhas em 24 campeonatos disputados.  

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“Se os pais soubessem o bem que esse esporte faz para defesa pessoal iriam matricular suas filhas hoje em uma academia. Eu nunca precisei usar o jiu-jítsu para me defender em nenhuma situação na rua, mas eu tenho certeza que, se eu precisar, eu vou saber usar”, completa.

“O jiu-jítsu não é uma arte violenta”, afirma Mikaela. “Eu mudei muito por causa dele, o esporte me deixou em paz comigo mesma”, completa. Para Yvone, a essência da modalidade é a igualdade. “Ele claramente mostra a isso a partir dos seus fundamentos filosóficos”. Que as minas do futuro do jiu-jítsu brasileiro não precisem mais lutar tanto para ver na prática os preceitos do esporte.

Créditos

Imagem principal: Gabriel Siqueira Lopes / Divulgação

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