Herdeiro de uma linhagem histórica de lutadores, Kron Gracie só decidiu seguir carreira no jiu-jítsu após a morte trágica do irmão. Se jogou no tatame, foi bicampeão mundial e acaba de estrear no UFC

São 3 horas da tarde do dia 28 de dezembro em Venice Beach e Kron Gracie terminou sua primeira sessão de treino. Em poucas horas, ele voltaria a suar naquela tarde fria do inverno da Califórnia, onde mora desde os 9 meses de idade. Neto de Hélio, um dos criadores do chamado Gracie jiu-jítsu, e filho de Rickson, aclamado como o melhor lutador da história do esporte, Kron está sério. Em sete semanas ele faria sua estreia no UFC, o maior torneio de MMA do planeta, com um objetivo – ou um goal, como diz, misturando português com inglês – nada modesto. “Estou em busca de ser o melhor possível em todas as artes marciais”, conta à Trip.

Nascido no Rio de Janeiro há 30 anos e criado nos Estados Unidos (o pai se mudou para o país com a família e os irmãos para difundir o esporte pelo qual os Gracie são hoje mundialmente famosos), Kron não consegue se lembrar da primeira vez que esteve em um tatame. “Eu era muito pequeno”, diz. “Na primeira lembrança que tenho, já era faixa amarela. Para mim, era uma coisa normal estar na academia treinando e brincando com meu pai.”

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Por causa do sobrenome que ostenta, é de se supor que Kron não tenha tido outra opção a não ser virar um lutador. “Aos 
8 anos, comecei a competir, só que não era muito apaixonado pelo jiu-jítsu”, conta, sobre a época em que, na verdade, queria ser skatista. “Mas, quando eu tinha 12, meu irmão morreu. E tenho lembranças com ele que me fizeram apreciar o fato de eu ser um Gracie e de poder representar a família.”

Rockson, filho mais velho de Rickson (ele tem outras duas filhas), era quem na época estava sendo moldado para seguir os passos do pai. Forte, de estilo agressivo, era professor de jiu-jítsu, esporte pelo qual competia. Tudo indicava que ele seria o sucessor natural. Mas, aos 19, Rockson resolveu trocar a Califórnia por Nova York para apostar na carreira de modelo e, menos de quatro meses depois, em 2000, foi encontrado morto em um hotel de Manhattan após misturar cocaína, opiáceos e medicamentos. Enterrado como indigente, só foi identificado semanas mais tarde por causa de uma tatuagem no braço: The best father of the world: Rickson Gracie.

Pouco antes de sair de casa, Rockson disse para o irmão mais novo que ele deveria fazer o que bem quisesse da vida, o importante era dedicar-se 100% àquilo. Mas que, sendo um Gracie, filho de Rickson, ele tinha acesso à melhor escola de jiu-jítsu do mundo e que não seria esperto de sua parte se não aproveitasse a oportunidade. “Quando meu irmão deixou a Terra, senti orgulho de poder representar não só ele, mas essa família, de continuar a tradição”, diz Kron pausadamente. “Então, de qualquer jeito, houve uma pressão para eu fazer isso. Não tinha muito para onde correr.”

Diferentemente do que muita gente pensa, os Gracie não inventaram o jiu-jítsu. Eles adaptaram e modernizaram a antiga arte marcial, praticada pelos samurais no Japão feudal e criada ainda antes – há registros que datam do século 3 de lutas parecidas em vários países orientais. Um japonês, Mitsuyo Esai Maeda, mais conhecido como Conde Koma, que chegou em uma das ondas migratórias ao Brasil, foi quem ensinou a luta para o jovem Carlos Gracie, irmão de Hélio, que tratou de passar adiante a paixão para a família.

O avô de Kron, aliás, foi quem mais se beneficiou e aperfeiçoou a técnica, especialmente a de chaves e alavancas, para compensar seu porte pequeno e franzino. Os Gracie passaram a fazer fama em torneios de vale-tudo, em que enfrentavam lutadores de qualquer outra arte marcial e, invariavelmente, venciam.

O DNA DO UFC

Quando a segunda geração da família chegou à Califórnia, em 1989, o sobrenome já era bem famoso no Brasil e as academias atraíam de artistas a políticos. Mas os Gracie queriam mais. Nos Estados Unidos, os desafios que Rorion, tio de Kron, promovia em sua garagem para conquistar adeptos já faziam sucesso. Tanto que, em 1993, ele criou, com um aluno, o torneio Ultimate Fighting Championship – o UFC. A intenção era uma só: provar que o jiu-jítsu era a arte marcial mais efetiva.

Nos primeiros eventos, a performance de outro Gracie, Royce (meio-irmão de Rickson), deixou o mundo estupefato. Ele venceu três das quatro edições, enfrentando homens que tinham quase duas vezes seu peso. A estratégia foi eficaz, o Gracie jiu-jítsu (ou Brazilian jiu-jitsu) ganhou os holofotes e as aulas da família passaram a ser disputadíssimas. As academias proliferaram no país.

Kron comanda uma delas desde os 17 anos, “herdada” do pai quando este resolveu voltar ao Brasil, em 2006. Aos 19, ganhou sua faixa preta. Quatro anos depois, abriu uma academia própria, que leva seu nome. O slogan “Ice Cream Kron” é tanto uma graça com a corruptela de como pronunciava seu nome quando era criança (ele falava “cone” – como a casquinha de sorvete é chamada em inglês –, em vez de Kron) quanto uma referência à frieza que o atleta mantém mesmo em situações de extrema pressão. Pesa sobre os ombros de Kron, é claro, ser filho de um dos maiores nomes do esporte de combate – é como jogar futebol e ter Pelé como pai.

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Rickson Gracie é um fenômeno. Faixa vermelha de jiu-jítsu, a mais alta graduação possível, não só ajudou a difundir a luta pelo planeta como fez combates históricos de vale-tudo, nome pelo qual a modalidade era chamada antes de se profissionalizar e ser rebatizada de MMA (artes marciais mistas). Como muitos desses eventos aconteciam em academias ou mesmo na rua, quase não há registro deles, mas Rickson garante ter vencido mais de 450. “Essa pressão sempre existiu, mas muita gente também sente isso em outras áreas”, ameniza Kron. Após uma longa pausa, ele continua: “Quis superar isso e ser mais que ‘o filho do Rickson’. Não dou atenção à expectativa de todo mundo. Tenho o meu jeito de ser”.

Sua relação com o pai enfrentou turbulências depois que Rickson resolveu voltar ao Brasil. Kron sentiu-se abandonado, inclusive nos treinos. Chegou a dizer em outras ocasiões que ressentiu-se com o pai, que, mesmo prometendo, não aparecia antes das competições. À Trip, o atleta não se mostrou à vontade em relação ao assunto. Menos por causa do ressentimento, que já foi curado, mais por parecer querer sair da sombra do lendário lutador. Rickson, ao ser convidado a falar sobre o filho para este perfil, respondeu: “No momento, não tenho interesse em participar do seu trabalho com o Kron. Já é hora de ele deixar de ser meu filho e ser Kron Gracie. Isso é importante para ele”.

Quando decidiu encarar o jiu-jítsu para valer, Kron Gracie dedicou-se, como aconselhou o irmão, 100% ao esporte. Ainda faixa marrom (abaixo da preta), estabeleceu um recorde de vitórias consecutivas: 51. Foi campeão mundial duas vezes, nas faixas roxa e marrom. “Ele vencia de forma espetacular nessas categorias, finalizava todo mundo”, diz o jornalista Eduardo Ferreira, especializado em lutas, ex-editor da revista Tatame e que acompanha a carreira do atleta. “Quando chegou à faixa preta, Kron teve mais dificuldade e demorou a engatar, mas sempre mostrando seu talento, indo para cima e buscando a finalização. Foi vice-campeão mundial, campeão europeu e pan-americano. Teve uma carreira brilhante. Acho até que, se tivesse insistido mais, teria sido campeão mundial na faixa preta, porque ele é um talento absurdo no jiu-jítsu”.

Vida sem hobby

Kron anunciou que se dedicaria ao MMA em 2013, após ser campeão do Abu Dhabi Combat Club (ADCC), principal competição de luta agarrada. “Ele tinha uma vida estabilizada na Califórnia, com a academia, treinava MMA com os irmãos Nick e Nate Diaz, atletas do UFC. E o estilo de Kron no tatame, agressivo, indicava que esse dia de migrar para o MMA chegaria”, diz Eduardo. Kron fechou contrato com o Rizin Fighting Federation, campeonato de artes marciais mistas do Japão, onde seu pai é quase um herói. Venceu as quatro lutas que disputou, todas por finalização, três delas no primeiro round. E chamou a atenção do UFC.

“O UFC estava carente de um Gracie, um representante do jiu-jítsu de alto nível, e a chegada de Kron traz isso”, diz Rodrigo Nogueira, o Minotauro, ídolo aposentado do MMA e embaixador da organização no Brasil. “Kron não é só um garoto que é faixa preta de jiu-jítsu. Ele tem um nível elevadíssimo. É uma aposta do próprio Sean Shelby, matchmaker [responsável por decidir quem vai se enfrentar em uma luta] da categoria dele, a peso-pena [até 65,8 quilos]. Kron pode ainda não ter uma grande expressão no MMA, mas tem uma grande expressão esportiva.”

Kron estreou no UFC em 17 de fevereiro deste ano, contra o experiente americano Alex Caceres. Finalizou o adversário com um mata leão, ao melhor estilo Gracie, ainda no primeiro round. E arrancou elogios do presidente da organização Dana White. “Não importa quem o atleta é, de que família veio, onde lutou ou quantas pessoas já assistiram às suas lutas. Ao lutar pela primeira vez no UFC, todo mundo fica nervoso. Alguns não conseguem ter uma performance tão boa quanto em outras ocasiões. Aquele garoto realmente performou, ele foi incrível, venceu um lutador de verdade. Fiquei muito impressionado”, afirmou Dana depois do evento, sobre Kron. “Consegui ficar bem tranquilo na hora da luta e, mais ainda quando percebi que consegui encaixar o estrangulamento e ele ia dormir ou bater [desistir]”, contou o atleta à Trip, dias depois da estreia.

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Apesar do início promissor, Kron tem um caminho difícil. “Ele precisa melhorar ainda a parte da trocação, da luta em pé. Quase toda família Gracie tem essa dificuldade, porque eles são treinados no tatame, no chão. Ele vai enfrentar adversários mais bem ranqueados. Mas, se conseguir se virar na luta em pé, atacar bem, defender para levar para sua zona de conforto, que é o chão, ele vai ter muito sucesso”, acredita Eduardo.

O atleta sabe o que vem pela frente – e está preparado. “Acho que nada na vida é tão bom se não nos arriscarmos. Para mim, ser colocado à prova em uma luta é um risco, mas não um risco sem esforço. Venho trabalhando com isso a minha vida toda e, na verdade, é só um teste. Eu prefiro arriscar e poder sentir onde estou do que não me testar”, conta. “Treino da hora em que abro o olho até a hora em que o fecho”, brinca Kron, pela primeira vez um pouco mais descontraído. “Até quando estou dormindo eu treino, pensando, 
sonhando.” Para melhorar o condicionamento, pratica triatlo – mas parou com o skate. “Enquanto estiver lutando, não ando mais, senão eu posso me foder bem legal.” Adepto da ioga (a mãe, Kim Gracie, é instrutora) e de técnicas de respiração que ajudam na concentração e no alívio da ansiedade, ele leva uma vida saudável e deixou de comer carne vermelha e frango há três anos. “Recentemente, decidi que ia comer de novo carne de veal [vitela], mas só de animais que estão wild [selvagem]”.

Quando pergunto se tem tido tempo para se divertir, Kron volta ao tom sério: “Não tem muito essa história de hobby na vida de um lutador. Já saí muito, mas o que me fazia feliz antes não necessariamente me faz hoje. Já bebi e fui pra balada depois de campeonato, como uma espécie de desconto. Mas sentia que isso tirava um pouco da minha alma. Não gosto de só beber, me divertir e ficar só nessa energia do nada, sabe? Quem quer ficar só nisso, na verdade, está buscando se distrair da vida, sair da realidade. Vou fazer o que tenho que fazer e aprender o que a vida tem para me ensinar”.

Créditos

Imagem principal: Mark Leibowitz

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