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Enlouquecer na Prisão

Por Luiz Alberto Mendes

em 15 de janeiro de 2010

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Fabrica de Loucos

 

Quantas formas temos de enlouquecer? Quantos motivos temos para enlouquecer?

Assisti muita gente ir enlouquecendo aos poucos ou imediatamente na prisão. Sujeito chegava assustado, com medo do que lhe pudesse acontecer. Eram tempos primitivos; ser estuprado estava entre as possibilidades, caso não fosse conhecido. Depois, havia os torturadores. Alias, nesse tempo todo policial era torturador, com raras exceções. Pau de arara e maquina de choque eram instituições nacionais. A primeira vez que fui torturado, ainda não havia completado 14 anos. De repente o sujeito enlouquecia. A mente não agüentava mais a pressão e ele se desligava. Vários meninos presos comigo passaram por essa experiência. Alguns conseguiram voltar. Nunca mais ficaram sãos de todo, mas conviviam bem. Outros se tornaram periódicos. O mais famoso foi o “Bandido da Luz Vermelha”. Passava tempo bem, conversava e tudo, depois chapava e não conhecia mais ninguém. E tem aqueles que nunca mais vi. Sei lá o que aconteceu com eles; chaparam na prisão e sumiram.

Formávamos uma quadrilha de assaltantes. Havíamos nos conhecido no que hoje é chamado de FEBEM ou Fundação Casa. Eu era o mais velho com 19 anos, os outros três acabavam de completar 18 anos. Fomos baleados e presos em tiroteio com a polícia. Nos condenaram a mais de centena de anos de prisão e nos enterraram vivos em Penitenciárias. Um de nós se enforcou em uma cela-forte. O que saiu primeiro, depois de vinte e tantos anos de prisão, enlouqueceu, virou mendigo e sumiu. Nem a família soube notícias. O ultimo, passou vários anos na Casa de Custódia e Tratamento, enlouquecido. Saiu ao cumprir os trinta anos exigidos pela lei. De vez em quando desaparece e a família coloca anúncio. Vão achá-lo todo estropiado, quase morto.

Fui o único a sair com alguma lucidez. Eles cumpriram pena jogando bola, envolvidos nas trapaças da cadeia e minimizando suas vidas ao formigueiro prisional. Ao fim e ao cabo, perderam-se deles mesmos, “chaparam”. Cumpri 31 anos e 10 meses. No começo claudicante e desordenado. Mas quando abri os olhos, nunca mais os fechei.

Digo sempre que os livros me salvaram. Claro, as pessoas que me trouxeram os livros e me convenceram a lê-los é que de fato me salvaram desse destino trágico de meus companheiros. Mas foram eles que alimentaram meu imaginário de vida e expandiram meus fronteiras para além das muralhas da prisão. Foram eles que me ensinaram a valorizar princípios fundamentais que eu não acreditava mais. Foram eles que me deram esperanças no mundo e principalmente nas pessoas, que eu não tinha. Foi com os livros que aprendi a escrever e deles tirei o desejo supremo de me tornar escritor. Eles me trouxeram a vontade de ser nobre e elegante em minhas atitudes.

Em mim havia dois medos fundamentais que poderiam ter me enlouquecido e consegui suplantá-los. O primeiro era de morrer na prisão sem ver o mundo. O outro foi o próprio medo de enlouquecer que eu sabia me enlouquecia um pouco. Vi muitos enlouquecerem à minha volta e isso mexia comigo. Às vezes me perguntava se já não estava louco e nem percebia, como vi acontecer com vários parceiros. Prisão inviabiliza seres humanos, é preciso assumir isso. É fábrica de loucos.

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Luiz Mendes

15/01/2010.  

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