por Rogério Assis

Lançando livro sobre a isolada tribo indígena Zo’é, o fotógrafo Rogério de Assis faz relato sobre esse encontro

Numa manhã chuvosa de março de 1989, esperávamos o tempo melhorar para gravar um vídeo institucional que exibiria uma entrevista com o Cel. Cantídio Guimarães, presidente da Funai a época, produzido pela empresa DCampos, atendendo ao pedido da própria entidade. O cenário era o Museu Emílio Goeldi, local onde também colheríamos outras imagens para o documentário.

Estávamos com quase tudo pronto para iniciar a gravação quando chega apressado, o Zé Luis, principal sócio e diretor da empresa. O motivo de tanta pressa foi um telefonema recebido da Funai de Brasília, comunicando o encontro de uma nova etnia indígena.

Na verdade, ela fora contactada poucos anos antes pela Missão Novas Tribos que, devido a uma devastadora epidemia de gripe, buscava socorro junto a Funai para evitar a completa aniquilação desse povo. Eram então 147 indivíduos sofrendo, além da debilitação de saúde, um intenso processo de evangelização por parte dos missionários.

No aeroporto de Belém um bimotor aguardava para nos levar até Santarém, onde tomaríamos um helicóptero em direção a aldeia. Não sobrava tempo para nada, nem para buscar mais alguns rolos de filme. Então partimos, eu e meus quatro rolos de Tri-X, o Zé Luis, Zé Raimundo, o operador de áudio e o Cel. Cantidio Guimarães.

Seria o primeiro contato oficial da Funai com a etnia que ficou conhecida na época como os Poturu que, na realidade, é o nome da madeira usada no eber’pot, adorno de identidade que os Zo’é carregam pendurados no lábio inferior.

Partindo de Santarém voamos, mais ou menos uma hora e meia, até a área indicada, próxima aos rios Cuminapanema, Urucuriana e Erepecuru. Sobrevoamos cerca de 20 minutos até encontrar a clareira onde o helicóptero deveria pousar e onde permanecemos cerca de quatro horas.

Alcançado o solo, hélice desligada, fomos cercados pelos índios que, maravilhados com aquele “pássaro de ferro”, vinham alegres em nossa direção para nos saudar, nos tocar e, pela primeira vez, tiveram seus rostos registrados para, posteriormente, serem divulgados mundo afora.

20 anos depois

Vinte anos depois, volto agora, a Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema, a Terra Índigena Zo’é. A chegada é de avião, já que uma pista de 700m foi aberta bem em frente ao Posto da Funai. Os índios ainda se impressionam com o “pássaro de ferro” que se acostumaram a ver ao logo dos anos, nos pousos e decolagens dos aviões, da Funaie da Funasa que vêm ao território prestar assistência e ajudar os Zo’é a manter seu isolamento. “É sempre a mesma festa”, diz João Lobato, administrador da frente.

Assim que os motores são desligados a aeronave é cercada, nossos assentos são tomados pelos índios assim que saímos do avião. Pura diversão. Não há briga entre os, cerca de, 40 Zo’é para ocupar os seis assentos do avião. Os que não conseguiram vaga nos cercam e nos tocam, carinhosamente, perguntando, insistentemente: nome, nome, nome? Uma das poucas palavras em português que alguns aprenderam nesses anos de pouco contato.

Apontam para câmera, relógio, boné, mochilas e continuam a repetir: nome, nome, nome… querem saber tudo para logo, em seguida, repetir e cair na gargalhada.

 

"Apontam para câmera, relógio, boné, mochilas e continuam a repetir: nome, nome, nome… querem saber tudo para logo, em seguida, repetir e cair na gargalhada"

 

Na manhã seguinte a cena se repete, agora com a chegada do avião da Policia Federal, que traz a comitiva do Ministro da Justiça, Tarso Genro, para conhecer a Frente Cuminapanema, como exemplo do trabalho que a Funai vem desenvolvendo através da Coordenação Geral de Índios Isolados, CGII, com seis etnias que o projeto mantém preservados do contato com a cultura do homem branco. O Ministro Tarso Genro, o Presidente da Funai, Márcio Meira, o Diretor Geral da Polícia Federal, Luis Fernando Corrêa, o Secretário Adjunto de Direitos Humanos, Rogério Sotili e os outros acompanhantes da comitiva, são abordados pelos índios que não consideram a importância das autoridades mas os recebem com o mesmo carinho, respeito e bom humor, como a qualquer um que desça de um avião.

Hoje os 246 Zo’é (o último nascimento foi registrado dia 18/07/2009), gozam de boa saúde, são vacinados e constantemente assistidos no bem equipado centro de saúde e consultório odontológico que funcionam no Posto da Funai.

Mas a história não foi sempre assim. A Funai diz saber da existência da etnia desde os anos 70, quando da desativação do projeto da Perimetral Norte. Porém, foram os missionários da Missão Novas Tribos que, em meados dos anos de 80, começaram a estabelecer os primeiros contatos com fins de evangelização. No final da década, uma epidemia de gripe atingiu os índios e, 20 óbitos depois, os missionários buscaram auxílio junto a Funai com o objetivo de deter o que possivelmente seria a extinção total da etnia.

Em 1991, os missionários foram legalmente retirados da área e a Funai concentrou esforços para reverter o grave quadro de saúde encontrado. Começavam as campanhas de multivacinação, especialmente, contra malária, tornada endêmica pela concentração populacional no entorno da região de contato.

No final dos anos 90, coincidindo com o reconhecimento jurídico da Terra Índigena Zo’é, que ocupa uma área de 644.000 hectares entre os rios, Cuminapanema, Urucuriana e Erepecuru, no Estado do Pará, começava uma revisão na política adotada pelo estado brasileiro referente as ações que norteavam os procedimentos junto aos chamados “índios isolados”. Foi criado, em 1998, o Sistema de Proteção aos Índios Isolados, em que os parâmetros de atração e contato foram modificados, e as antigas Frentes de Atração, foram transformadas, no ano 2000, na atuais Frentes de Proteção Etnoambiemtais.

Autonomia

A reestruturação da autonomia econômica através da recuperação das bases sócio-culturais e hábitos alimentares, bem como a valorização da autoestima, fizeram o povo Zo’é, não só superar as doenças, como se desenvolver e aumentar sua população. Essa política veio substituir as práticas de assistencialismo e dependência que criavam a falsa idéia de proteção dada aos índios.

Os investimentos em infra-estrutura e tecnologia nos postos das Frentes de Proteção Etnoambientais, proporcionou aos índios um melhor atendimento, sem interferir em seus costumes tradicionais. A manutenção e o treinamento do pessoal que trabalha nas Frentes, incluindo o aprendizado da língua nativa e um estrito controle nas relações entre índios e brancos, ajuda a preservar as práticas milenares de produção auto-sustentável que caracteriza a cultura Zo’é.

A inevitável introdução de novos elementos no cotidiano das aldeias vem sendo feita de maneira lenta e controlada, possibilitando melhorias fundamentais nas práticas de subsistência e segurança na selva. Facas, facões, enxadas, lanternas, rádio comunicador, isqueiro, linha de pesca e anzol são os principais elementos introduzidos na cultura Zo’é, assim como, o espelho, que ajuda as vaidosas mulheres a se embelezarem com a pintura da mistura de urucum com óleo de castanha e seus cocares de pena de urubú-rei.

A vaidade é um traço característico dos sedutores Zo’é que preservam relações poligâmicas e poliândricas, em uma intrincada rede de relações inter-familiares, sem afetar os compromissos e responsabilidades assumidas. Hoje, as 12 aldeias da Terra Índigena Zo’é, periodicamente mudam de lugar dentro da reserva, respeitando o ciclo de produtividade de cada uma delas, preservando o meio-ambiente e conservando a característica semi-nômade desse povo.

A base da alimentação é: mandioca, castanha, tubérculos como o cará e a batata doce, a caça de animais silvestres como a paca, anta, porco do mato, macacos e pássaros em geral. Tudo preparado e consumido, coletivamente, pelas famílias de cada aldeia.

O eber’pot, pendente de madeira cilíndrico, introduzido no lábio inferior através de uma pequena incisão, ainda na infância e logo após a troca da primeira dentição, é o principal adorno de identidade Zo’é. Os caçadores, os idosos, os pais e as mães de muitos filhos, gozam de um certo prestígio no grupo social, mesmo assim, não existem lideranças na figura de um cacique ou pagé.

As rivalidades são temporárias e sempre resolvidas verbalmente, não ha disputas que resultem em lutas corporais. Bem humorados e brincalhões, estão sempre procurando diversão, as risadas são constantes, mesmo que o motivo seja, por exemplo, o tropeço ou a queda de alguém. O tempo é medido pela posição do sol e a idade, pelo acúmulo de experiências. A idade de andar, de falar, de fazer fogo, de fazer farinha, de caçar e, assim, por diante. O trabalho e o descanso variam de acordo com a necessidade de cada um.

Trabalha-se muito numa aldeia Zo’é: plantando, colhendo, caçando, cozinhando, tecendo, fazendo rede, utensílios, flechas, buscando lenha, palha, construindo armadilhas e tocais de caça na floresta e cuidando das crianças.

Os rituais estão geralmente ligados as diferentes fases da existência. Alguns exemplos são: após o primeiro mês de vida - um banho familiar coletivo e uma pintura de urucum, servem para proteger, dar saúde e vida longa ao recém nascido. Na primeira infância, depois da troca da dentição - a colocação do eber’pot para dar identidade a criança. A primeira menstruação também é celebrada com um banho coletivo, seguido da colocação de enfeites e adornos, simbolizando a preparação para um eventual primeiro casamento. Outros rituais são relacionados as colheitas sazonais quando é preparado o serpy, bebida levemente fermentada sem poderes de alteração de consciência.

Solidários e hospitaleiros, os Zo’é vêm sofrendo assédio de vários tipos de invasores que habitam as cercanias da Frente de Proteção Cuminapanema. Invariavelmente religioso, o objetivo, é catequizar e evangelizar os Zo’é. Para isso, os missionários vêm usando o contato com outras etnias da região que já sofreram esse processo, como os Way-way e os Tiryó.

Sabe-se que o contato e a consequente inclusão social dos Zo’é é uma questão de tempo, no entanto, o trabalho de reforço da auto-estima e do fortalecimento sócio-econômico-cultural desenvolvido pela Coordenação Geral de Índios Isolados (CGII) tem por objetivo minimizar os danos que certamente serão causados por essa inclusão.

Vai lá: Lançamento do livro Zo'é, de Rogério Assis
Quando: 6/11, quarta-feira, 19 às 21h30
Onde: Galeria Vermelho. Rua Minas Gerais, 350, Consolação, centro, São Paulo, SP. Tel.: 0/xx/11/3138-1520

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