por Caio Ferreti
Trip #169

Clodoaldo é motorista, mas seu melhor desempenho é como Jesus na Paixão de Cristo

Quando começou a freqüentar a igreja há oito anos, Clodoaldo Elias da Costa só pensava em ficar mais próximo a uma pessoa de cabelos longos que ele acreditava lhe fazer bem. Não era Jesus. Na verdade o que ele queria mesmo era conquistar uma mulher da paróquia, e nada como ter encontros semanais garantidos para conseguir isso – mesmo que fossem na missa. Por ironia, pouco tempo depois o relacionamento com a moça acabou, mas a igreja nunca mais saiu de sua vida. Dessa vez, sim, por motivos religiosos.

Tanto que de tempos em tempos Clodoaldo encarna Jesus. Mais um Inri Cristo, o sujeito que se diz uma reencarnação do filho de Deus? Não. Há seis anos, é na peça Paixão de Cristo que esse paulistano de 34 anos dita os ensinamentos da Bíblia. Diferentemente do que se vê por aí, não é essa relação com a igreja que garante sua renda. Clodoaldo é motorista profi ssional, não ator. “Eu era católico do IBGE, só fazia número. Ia à igreja uma vez na vida outra na morte”, confessa.

E, se hoje as baladas são ao estilo Cristoteca, antes a coisa fervia um pouco mais. “Era balada mesmo. Mulherada... Beber até ela acabar comigo ou eu acabar com ela. Mas eu sempre perdia.” Que pecado. Clodoaldo cansou de tudo isso. Passou a ter uma vida mais regrada, virou atleta, correu duas São Silvestres inteiras. Só parou com o atletismo porque a vida de motorista autônomo lhe tomava muito tempo. Sabe como é, os trabalhos aparecem de repente. Táxi? Nem pensar. “Tem muito corintiano na rua”, justifica ele. “É brincadeira, viu, não vá dizer isso”, completa.

De fato não ficaria bem para Jesus falar assim dos irmãos corintianos. Clodoaldo sabe defender suas opiniões. Solta frases de impacto a todo momento. Sobre o ateísmo, dispara: “Os consultórios psiquiátricos estão cheios porque as igrejas estão vazias”. Fica feliz quando alguma criança o reconhece nas ruas de Guarulhos, dizendo: “Olha mãe, olha o Jesus da praça”. É como se estivesse cumprindo uma missão. E deixa o recado. “Acho que vale a pena ser diferente. Chegou a hora de o jovem dizer ‘vou ser diferente da maioria’. Porque você sabe, né, uma árvore caindo faz mais barulho do que 30 nascendo.”

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