por Marcos Sérgio Silva

Dono do Bar do Elídio, melhor que o Google quando o assunto era futebol, faleceu hoje à tarde em SP

Perdemos Elídio, melhor que o Google quando o assunto era futebol, já que além de saber tudo, ainda servia um dos melhores chopes da cidade em seu Bar do Elídio

POR MARCOS SERGIO SILVA*

Foi um amigo, o Fernando Busian, quem me levou pela primeira vez ao Bar do Elídio. Lembro de ter ficado a maior parte do tempo sem prestar atenção no que ele falava. Estava fascinado pelos pôsteres na parede, grande parte deles de clubes da cidade de São Paulo que nem existem mais – como o Ypiranga e o Comercial. O Elidio conhecia todos eles. Com uma certa vergonha, me aproximei e comecei a perguntar desses times. Onde o Comercial mandava os seus jogos? Na Javari, respondeu Elídio. E o Ypiranga? No campo da rua dos Sorocabanos.

No pequeno corredor instalado na rua Izabel Dias, na Mooca, Elídio juntava a memória futebolística aos quadros de balão e canecas de festas de chope. Com o tempo, esses quadros sumiram. No fundo do bar, havia uma foto gigante de um dos filhos de Elídio vestido com a camisa da Portuguesa abraçado a Pelé, ainda jogador, no gramado do Pacaembu.

Era muita coisa para um espaço só – no restaurante, bem ao lado, ele mantinha apenas os recortes dos jornais que visitavam e elogiavam o bar. Mas ainda havia o chope. E que chope. O mais bem tirado de São Paulo. Era servido pelo Verdadeiro, um dos garçons pelos quais a caldereta vale ainda mais o preço que a gente paga.

Naquele primeiro dia, em 2003, eu vestia a camisa do Nacional Atlético Clube, hoje na quarta divisão do Campeonato Paulista. Elídio ficou de olho e perguntou se eu não queria doá-la para o bar. No mesmo dia, fiz a equação: o que vale mais, tê-la em um guarda-roupa, mofando, ou contemplá-la na parede de um bar que me fascinava no mesmo dia em que o conheci?

Uma semana depois, levei a camisa e a entreguei ao Elídio. Ela está no andar de cima do bar, que ampliou o seu espaço (são dois andares agora) e abriu uma filial, no Mercadão de São Paulo. Como recompensa, ganhei um apelido: Nacional. O Fernando entregou, na mesma época, um livro com as obras de Francisco Rebolo, pintor modernista, jogador e criador do símbolo do Corinthians. E passou a ser chamado de Rebolo.

Uma das cenas mais bacanas que vi foi na semana do Grande Prêmio de Fórmula 1, em 2007. Estava no Amigo Leal, outra choperia clássica da cidade. Quando vejo, o Elídio veio até a mesa onde estava. Depois de saber como andava o “Nacional”, eu devolvo a pergunta, questionando o por quê de visitar a concorrência. “O chope dele acabou. Daí emprestei uma parte”, disse.

O Elídio era de fato uma enciclopédia do futebol. Sabia de todas as escalações, desde os anos 40. Não era mentira, não. Sabia mesmo. O maior teste foi quando uma colega de redação aqui na Placar, a Helena, disse que o avô, Eduardinho, jogou no Corinthians naquela época. Quando encontrei com o Elídio, tentei lembrar o nome do jogador, e ele não saía. Citei que havia jogado por Corinthians, Nacional e Comercial. Na hora, o Elídio lascou: “O Eduardinho?”

Foi a última vez que o encontrei. Quando soube de sua morte, aos 76 anos, na tarde desta quarta-feira, sabia que essa memória do futebol paulistano também morria. Ninguém sabia mais do que o Elídio e jamais saberá. 

 

(*) Marcos Sérgio Silva é editor da revista Placar