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por Totó

Semana do dia da mentira agitada com Slater fora da Quiksilver e Caio Vaz campeão

Semana do dia da mentira agitada. Começou com a bomba sobre o desligamento do surfista Kelly Slater da Quiksilver, marca que o patrocinava desde o começo da carreira. Natural da Flórida, com 42 anos e detentor de 11 títulos mundiais, o maior surfista de todos os tempos ainda tem lenha pra queimar.

Seu último contrato, assinado há cinco anos (no mesmo primeiro de Abril), expirou e não foi renovado. Logo, a entrada na bateria de competição na segunda etapa do circuito mundial em Margaret River, na Austrália, sem o logo vermelho da multinacional estampado no bico da prancha parou as máquinas no mundo do surfe.

Mil conjecturas foram rapidamente apresentadas e variadas teses foram exaustivamente discutidas nas redes sociais. Porém, seu discurso de despedida não foi diferente do discurso padrão e corporativo, quando anuncia a "saída motivado por novos projetos e maiores desafios".

Final de carreira, lançamento de uma marca própria em parceria com o novo grupo empresarial, uma nova linha de produtos, finalmente a execução dos projetos de fundos articiais e piscinas com ondas intermináveis, investimento na carreira de comunicador, e até mesmo uma ação de mareting cuidadosamente pensada para explorar o dia da mentira foram algumas das possibilidades colocadas na mesa. 

Pessoalmente, acredito que se trate de algo bem mais simples. Um cara como Kelly pra aguentar o tranco do circuito mundial, disputando títulos aos 42 anos (enquanto outros mais jovens e cheios de energia disputam a permanência entre os top 32) manifesta em terra firme o mesmo talento e genialidade que exibe dentro d’agua. Logo, ficar preso em um contrato padrão de patrocínio, enquanto fica vendo a vida começar a passar mais rápido depois dos 40 anos e a quantidade de interesses e possibilidades em jogo, deve ter se tornado incômodo para um cara multi-tarefas como ele. 

Outra verdade, e boa, bem no dia da mentira, foi a vitória do carioca Caio Vaz no SUP Surfe durante a segunda etapa do circuito mundial de Stand-up Paddle que está rolando na Praia do Francês, em Alagoas. Já  havia dito aqui e reforço que Caio será o campeão mundial de SUP Surfe esse ano.  Ele e provavelmente Nicolle Pacelli, que competiu contundida e mesmo assim levou o vice campeonato mantendo-se com sobra na liderança do ranking.

É bem verdade também que Stand-Up Paddle tem deixado muito a desejar no que tange ao movimento de profissionalização definitiva do esporte. Com dezenas de milhares de pranchas vendidas no último verão e novos praticantes surgindo em grande escala, já passou da hora do conglomerado composto por marcas, confederações e mídia especializada acordar e parar de olhar apenas pro próprio umbigo. Fiz uma pesquisa informal e sem muito esforço cheguei a rápida conclusão de que basta os dedos de uma mão para contar quantidade de atletas que realmente vivem exclusivamente pro esporte.  Isso considerando as duas modalidades juntas, Race e Wave, masculino e feminino.

E existe uma grande diferença entre viver pro esporte e viver do esporte. 

Viver para o esporte significa contar com os subsídios necessários para acordar, comer e dormir focado exclusivamente no esporte. Pensar prioritariamente nos treinos dentro e fora da água, na evolução técnica, em baixar o cronômetro, nos planos de competição, no calendário de viagens, na avaliação dos adversários,  na nutrição e suplementação, no repouso e recuperação. Enfim, ter como principal foco (além das obrigações com os patrocinadores) superar os limites, evoluir e estar 100% preparado para as principais provas e desafios.

Viver do esporte significa considerar todos ítens acima e ainda ter que acomodar na agenda aulas, clínicas,  personal trainers e trabalhos paralelos pra conseguir pagar as contas e se viabilizar no aspecto competitivo.

Existe aí uma grande diferença responsável por alguns segundos - ou minutos - a mais no final de cada prova, que irão determinar a vitória ou uma colocação qualquer no primeiro pelotão.

Para um país como o Brasil com a extensão territorial e a quantidade e variedade de águas que possui, que recebe eventos internacionais e produz campeões mundiais num esporte que manifesta vocação e ambição olímpica, é muito pouco.

Bem ou mal, é tudo verdade.

A única mentira, e boa, que ouvi, foi dos caras do blackmediaskate.com (agora com endereço certo) dizendo que tinham sido convidados pra participar do programa da Fátima Bernardes, na Globo. Gastei um tempo me divertindo imaginando como a mãe de trigêmeos reagiria aos subversos. 

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