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Duas Margens do Guaíba

TRIP aterrissa em Porto Alegre para revelar a santa esquizofrenia de Luis Fernando Verissimo e Jupiter Apple

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Noite estrelada, teatro cheio. Na platéia, uma desajeitada elite da sociedade gaúcha espera ansiosa pelos primeiros acordes do mais popular dos seus… escritores. No outro lado da cidade, em uma arena bem diferente do glorioso Teatro São Pedro, mas não menos lotada, um estranho escritor rasga parágrafos empunhando uma guitarra estridente. Estamos em Porto Alegre, a cidade mais trimmmassa do Brasil ? dizem eles. Nós, por que não, concordamos.
Luis Fernando Verissimo e Jupiter Apple não se conhecem. Os dois, no entanto, escrevem de dia e tocam à noite. Ambos são artistas gaúchos e ganham o pão com sua sensibilidade. A diferença é que durante os concertos Apple está trabalhando, enquanto Verissimo apenas se diverte. Comecei a tocar jazz ainda garoto, bem antes da literatura, sola o best-seller nacional dos livros. E confessa: Se pudesse escolher do que gostaria de viver, entre música, literatura e jornalismo, escolheria a música. Mas não tenho capacidade para isso.
Já Flávio Bastos, que foi Jupter Maçã antes do definitivo Apple, sempre tocou guitarra ? e para isso tem capacidade de sobra. Foi tudo igual ao Paul McCartney: ele em Liverpool, eu em Porto Alegre, compara, na boa, só que ele ficou famoso e eu não. Na prática, pelas vielas da cena underground da capital, Júpiter Apple é mais conhecido que Verissimo. Ok, todo o mundo já ouviu falar do escritor, mas nem todos o leram. Alguns, porém, escolhem escutá-lo: Muita gente vem me ouvir tocar por curiosidade, não pela música em si. Mas como os outros músicos são excelentes, mesmo o curioso vai acabar ouvindo um bom jazz, ri-se o tímido autor de As Mentiras que os Homens Contam e O Analista de Bagé, entre muitos, mas muitos outros títulos.


Língua de fora


A bem da verdade é que Jazz 6, o sexteto de Luis, lê muito bem as baladas de Miles Davis, Charlie Parker e Thelonious Monk. Apesar dos óculos modelo despachante e da silhueta nada sexy do saxofonista ? o que destoa um pouco do instrumento de curvas douradas ?, seus solos têm o efeito de uma boa frase. Nessa seara ele arrisca, e imediatamente se autocensura: Um solo de jazz é um pouco como uma crônica; você expõe o tema, faz variações, depois volta ao tema. Talvez seja uma comparação meio forçada….
Já Apple não tem pudor algum em se comparar repetidamente com o beatle McCartney. A esquizofrenia chega a sua namorada e parceira, que Jupiter apresenta como Linda. O talentoso compositor gaúcho prepara o quarto álbum, desta vez com letras inteiramente em português, ao contrário do anterior, o excelente e bilíngüe Hisscivilization. Mas para isso, tem defesa: Antes de mais nada, não tenho preconceito contra língua nenhuma. Mas a língua inglesa, apesar de ter caráter imperialista, que de fato existe, é também uma língua em que você encontra fáceis saídas poéticas. Mais que o português, talvez, afirma o dono de versos como Quero a tua chinelagem/ Quero a metade do seu microponto/ Amei o seu estilo e o seu cabelo/ Curto e grudado na testa/ Até parece que você não toma banho.
Fica difícil para o saxofonista dos livros concordar. Sua obra é inteira debruçada sobre a língua portuguesa ? e boas saídas poéticas nunca lhe faltaram. Verissimo conta que não acompanha a cena do rock gaúcho, apesar de vez ou outra checar os acordes de Tom Bloch, banda de seu filho. Minha preferência musical é outra, meus ídolos estão mortos, lamenta o autor, referindo-se aos monstros negros do jazz. Apple, por sua vez, também não tem o costume de ouvir a literatura mainstream. Sua preferência roda em círculos mais obscuros, como Oscar Wilde ? nada a ver com as Comédias da Vida Privada.
O fato é que Porto Alegre segue exportando literatura quente para o resto do Brasil. Seja em acordes bem escritos, através de um rock de primeira (do clássico Replicantes aos menos conhecidos Nei Lisboa e Frank Jorge); seja em páginas nacionalmente sonoras, do saudoso Mário Quintana ao jovem Mojo Pellizzari. Se Porto Alegre é a Seattle ou a Dublin brasileira, não importa. Lá, às margens do Guaíba, Verissimos & Maçãs continuam encontrando terreno fértil para florescerem. Tudo bem longe do eixo, mas perto do coração. (Giuliano Cedroni)


Discografia


JUpiter Apple
Hisscivilization (2002)
Plastic Soda (1999)
A Sétima Efervescência (como Júpiter Maçã) (1997)


Jazz 6
Speak Low (2001)
Agora é a Hora (1997)


 fotos Christian Gaul

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