por Jean Wyllys
Trip #222

Aqui, ele reflete sobre a briga de viver e revela sua arma mais poderosa: o amor

Ele lutou contra a pobreza, o preconceito explícito e o velado, a homofobia e, hoje, como deputado federal, é o maior oponente dos felicianos da política brasileira. Dono de uma notável capacidade de manter a elegância, a coerência e a verve mesmo diante de adversários da pior espécie e sob pressão extrema, Jean Wyllys reflete sobre a briga de viver e revela, em texto exclusivo para a Trip, sua arma mais poderosa: o amor

Nascer – vir a este mundo – é ser convidado para uma guerra perene. E o termo dessa guerra é sempre a morte, não importa qual seja seu tamanho (há guerras tão curtas quanto a morte de um bebê prematuro!). Mas, até que a guerra se conclua mais cedo ou mais tarde, ela se desdobra em conflitos, lutas ou batalhas. É de batalhas que se vive a vida, diz meu conterrâneo Raul Seixas na bela balada “Tente outra vez”. Viver em sociedade é, portanto, estar permanentemente em conflito, só ou acompanhado, por ou contra alguém ou algo (pessoas, instituições, bens materiais ou imateriais, valores, ideias, a vida e a morte em si mesmas).

E, mesmo para aquele ou aquela que se imagina ou se comporta como uma ilha, alheia ao continente de pessoas vivendo em sociedade, a vida continua sendo um suceder de batalhas que se desdobram dentro de si mesmo; afinal, desde Freud (e, antes dele, graças às filosofias orientais milenares e à interpretação de Santo Agostinho para as Sagradas Escrituras), sabemos que temos adversários ou inimigos interiores e que nosso eu, subjetividade ou ego é sempre o resultado de uma guerra interna entre o desejo inconsciente e amoral e a vontade consciente e moral. Logo, nenhum ser humano que vive está fora de batalha.

Sim, há pessoas como eu que não têm apreço algum pela violência física e jamais se envolveram numa troca de socos e pontapés com algum adversário ou oponente, por qualquer motivo que fosse. Mas ter aversão consciente a essa manifestação dura e talvez letal do conflito não quer dizer que não nos engajemos em outras formas de conflito ou que a violência recalcada – portanto, inconsciente – não irrompa um dia ou não se manifeste em doenças psicossomáticas (violências da psique contra o próprio corpo). E evitar a manifestação dura do conflito não quer dizer que estejamos poupando nosso oponente do sofrimento, da dor ou da morte: palavras podem ser armas letais!

“O amor ao outro - a ética por excelência - é o que pode manter qualquer conflito no âmbito das palavras; é o que pode mediá-lo de modo que não resulte na paz dos cemitérios. É a ética que pode nos levar a respeitar os direitos humanos dos inimigos e infames mesmo quando estão cumprindo penas por delitos”

Ao contrário do que diz o verso de Carlos Drummond de Andrade, lutar com palavras não é uma luta vã. Nas batalhas políticas e legislativas que venho travando desde que me elegi deputado federal, o meu arsenal é composto basicamente de palavras – das palavras ditas no Parlamento às palavras escritas nos projetos de lei. As palavras transformam o mundo e as pessoas. Se, por um lado, elas machucam e humilham, por outro, elas salvam, curam e devolvem a dignidade (a substituição da palavra “aidético”, uma arma mortífera, pela expressão respeitosa e solidária “pessoa com HIV” é só um exemplo banal dessa ambivalência das palavras nos conflitos em que nos envolvemos mal rompe a manhã).

Por isso, são sempre preferíveis as palavras como armas às armas de fogo ou armas brancas, ainda que Nietzsche nos lembre, com razão, que o excesso de palavras enfraquece o impulso de vida. Só lutei sem palavras quando ainda não falava; quando ainda não havia me apropriado delas. Com 1 ano e pouco de existência, lutei com choro fraco pela minha vida, que a desnutrição e a desidratação, muito comuns em ambientes de extrema pobreza, queriam levar. Claro que eu não teria vencido essa batalha não fossem minha mãe e meu pai, que pediram ajuda a outros em condições de ajudar – o que me faz lembrar de que, sozinhos, jamais venceremos certas batalhas.

Mas desde que me apropriei da palavra, ela tem sido a minha arma nos conflitos em que me envolvi: da luta para escapar da pobreza por meio da educação pública e do trabalho honesto até a luta para me afirmar como figura de prestígio na mídia, passando pelo enfrentamento da homofobia para afirmar, com orgulho, minha orientação sexual. Jamais dei um soco ou um pontapé em alguém, embora certa vez, aos 12 anos, eu tenha levado um soco de um desconhecido na rua pelo simples fato de ele ter me percebido como um homossexual. Alguma coisa em minha psique me impede de agredir alguém fisicamente. É como se, na hora H da agressão física, a dor do outro, seu sofrimento futuro, me impedisse.

“All you need is love”
Muita gente me questiona como consigo ser sereno nas batalhas que travo; como consigo ficar apenas nas palavras contundentes, mas sempre respeitosas, sem partir para as vias de fato contra os que me insultam... Não tenho uma resposta precisa a esse questionamento. Posso garantir que minha atitude não é produto de ioga nem de psicanálise, pois jamais recorri a essas terapias. Mas ela talvez seja fruto das marcas do cristianismo em meu caráter, da imitação de Jesus Cristo. Com Ele, aprendi a ser um doce bárbaro: oferecer a outra face diante da violência física do oponente e atacá-lo com a violência das palavras, das metáforas, das parábolas; com Ele, aprendi a ter consciência do conflito e a aceitar o fato de que ele é inevitável, o que leva qualquer pessoa de bom senso a estar sempre preparada; com Jesus, aprendi a conjugar inteligência e conhecimento com intuição e amor.

Sou do signo de Peixes, que é também o signo do cristianismo, mas meu ascendente é Aquário, o dono da nova era. Estou, portanto, na fronteira entre o amor e a razão. O amor ao outro – a ética por excelência – é o que pode manter qualquer conflito no âmbito das palavras, é o que pode mediá-lo de modo que não resulte na paz dos cemitérios. Por isso mesmo, os hippies repetiam “faça amor, não faça guerra”. O amor – o outro nome para a ética – torna saudável o conflito, sem o qual não há vida. É ele que pode impedir que joguemos sujo com nossos oponentes, que sejamos desleais e desonestos com eles. É a ética que pode nos levar a respeitar os direitos humanos dos inimigos e infames mesmo quando estão cumprindo penas por delitos. É essa ética, assimilada em meus anos de movimento pastoral, que explica minha postura serena nos conflitos. Só o amor pode fazer, do inevitável clube da luta que é a vida, um lugar também de felicidade. E a felicidade, já diziam Lennon e McCartney, é uma arma quente.

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