Divisão da tristeza
Cinebiografia e documentário sobre o Joy Division e seu líder Ian Curtis lembram dos bons tempos em que ser triste não era coisa de emo
Por Redação
em 28 de maio de 2008
POR RONALDO BRESSANE
São filmes gêmeos que captam uma época em que ser triste era legal: Control (foto), de Anton Corbijn, e Joy Division, de Grant Gee. O primeiro diretor é um dos grandes fotógrafos do rock (U2, Tom Waits, o próprio JD) e o segundo, responsável por um belo doc sobre o Radiohead (Meeting people is easy). Corbijn realiza algo quase impossível: uma sóbria cinebiografia de um astro do rock. Afinal, Ian Curtis era mesmo um certinho.
Embora no palco parecesse um punk possuído por um raivoso soldado nazista, o cara bacana que fica deprimido por trair a esposa mala com uma gata belga era um artista apolíneo. Basta ver a perfeita simetria de suas letras, escritas num inglês digno de John Donne. (Um pouqui nho) mais bem-humorado, JD é costurado em depoimentos de papas do círculo manchesteriano: o New Order, o designer Peter Saville, o produtor Tony Wilson, a amante Annik.
O grande mérito dos filmes é olhar com afeto um grande artista e um homem imaturo; um sujeito obcecado pelo ideal de pureza que se condena por ser eticamente imperfeito, sensível porém doente (não só de epilepsia como também de certa covardia moral), sanguíneo mas intelectual, autoritário mas generoso. “Ian, you’re so depressing!”, reclama a risonha Annik. “I’ve got the spirit, but lose the feeling”, cantaria o suicida Ian. Leve o JD a sério, mas não vá ao cinema como quem vai ao cemitério – muito longe dos anos 80, ser triste hoje é coisa de emo.
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