Direto da Amazônia
Dormindo em redes, cercado por índios e galinhas, o repórter da TRIP narra a epopéia do EMA 2001
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
—– Original Message —–
From: endrigo chiri
To: trip@revistatrip.com.br
Sent: Wednesday, November 28, 2001 12:53 PM
Subject: Nóis na floresta.
Meus queridos,
Ontem camelei igual um jumento no meio da floresta. Nunca andei tanto nessa vida. Foram 15 quilômetros no meio da Amazônia, calorzinho básico de 40 graus, encarando umas pirambeiras de dar medo. O objetivo da empreitada, para a imprensa em geral, era acompanhar o rapel dos competidores (não sei se é esse o termo correto para designar esse bando de doido da cabeça que participa de uma corrida dessas) numa cachoeira de 80 metros. Folha, Revista da Folha, Valor Econômico, Lance, sites de aventura, Revista Nes, rádio Eldorado, rádio Bandeirantes, cinegrafistas aos montes e mais a equipe de fotógrafos do evento estavam afoitos em registrar a ação rapeleira. Eu, doido para molhar a cabeleira (que está dando certa quentura) nas águas da Amazônia. Foi muito bom. Andei mas fui no lugar mais bonito da vida e que provavelmente não volte. Depois mostro as fotos.
Rapeleiro não tem nenhum. Se vocês quiserem vê-los, entrem no site do EMA (www.ema.com.br) que lá tem tudo em tempo real. Fiz a trilha toda de gorro porque os nativos falaram que aqui tem uma abelhinha que se enrosca no cabelo e fica picando o coro cabeludo até ela resolver sair ou você conseguir tirar. Achei melhor não vacilar porque a bicha ia entrar aqui, ia picar meu cabeção feito louca e na hora dela resolver sair, simplesmente não encontraria a saída e eu não conseguiria encontrá-la. Resumindo: ia ter uma abelhinha só minha, espetando os meus neurônios pelo resto da minha estadia na floresta.
Tô dormindo na rede, cercado de índios e galinhas, no meio do poeirão, tomando banho de rio, comendo muito e me divertindo com os nativos. Os locais sabem que tem alguma coisa especial e completamente nova acontecendo, estão esperando por esses momentos há meses, mas não sabem o que se passa realmente. Dizem que acham tudo bonito e importante. Aí, quando você conta o que essas pessoas de roupas coloridas e adesivadas estão fazendo (300 metros de natação, atravessar o Rio Amazonas de tracaia, uma embarcação local, 30 km de trekking, 80 km de bicicleta, mais um monte de trekking na floresta, 60 km de rafting descendo o rio, 60km de bicicleta de novo, mais trekking e mais embarcação), tudo isso em 6 dias, sem comer nem dormir, a reação dos locais é quase nula. Imagino que isso tudo não faça o menor sentido para eles. É muita informação. Para mim já é difícil de entender.
Depois do vôo pânico total, São Paulo – Santarém, com direito a escalas em Ribeirão Preto (dá-lhe Maurílio), Recife, Fortaleza, São Luiz e Belém, aula de aterrissagem para o co-piloto (um solavanco pior que o outro) e três doses de uísque para aguentar o tranco, subi o rio Amazônas um dia e meio para chegar no nosso QG da floresta a bordo daqueles navios de passageiros. O Amazonas é absurdamente gigante. Tem hora que você não consegue ver a outra margem. Vi um monte de boto rosa e dormir no navio é muito engraçado. Você arma a rede, cercado por outras redes, só que o navio está em movimento e enquanto você dorme, a rede vai embalando. De repente, você tromba com o seu vizinho de rede e toma um puta susto. Faltou sincronismo. É igual dormir na balança. Bom pessoal, por hoje é só. Depois conto mais. Um beijo. Se cuidem. Inté.
Endrigo
PS – até agora não tomei nem uma picada de mosquito. Nada. Ubatuba é bem pior. O único acidente foi uma joelhada num galho de árvore cerrado. O joelhão está bombando mas logo passa.
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