Trip
Desespero
em 1 de outubro de 2014
Acordei com uma dor monstruosa, insuportável. Estava inundado em suor e a barriga queimava em profundo. Um sofrimento miserável, enlouquecedor. Já vivi as dores de todas as torturas. Já fui queimado, eletrocutado, afogado, quebrado de cano de ferro, baleado, esfaqueado e não foram poucas vezes. Tenho ainda duas balas no corpo e minha cabeça parece o mapa do inferno de tanto que foi rachada. Nada se comparava com aquela dor que me acordou de madrugada. Por sorte, estava na casa de minha sobrinha e ela fez tudo o que pode por mim.
Havíamos participado de um churrasco. Eu havia levado alguns shows em DVD da minha coleção (tenho muitos; compro barato em sebos), bebemos cervejas e assamos carnes. Quase nem bebi, fiquei mais fazendo a programação musical, curtindo e comentando os shows com os amigos. Comi alguns pedaços de linguiça que senti, podia me fazer mal. Tenho um problema digestivo, herança da PM e dos guardas de presídio. Durante o cumprimento de minha pena (31 anos e 10 meses), fui espancado muitas vezes e sempre com chutes e socos no abdome. Isso criou bolsões no intestino. Preciso comer muita fruta, legumes, verdura e tomar um concentrado de fibras diariamente. Quando me alimento com algo diferente, a dor no dia seguinte é fatal. Mas uma dor que vou suportando, nem remédio para dor tomo; aguento até aliviar.
Passei uma madrugada de cão. Dor, dor, dor… Minha sobrinha Carla querendo me levar ao pronto socorro e eu achando que ia aguentar e logo passaria. E suportei por cerca de 10 horas. Carla me fez chá de boldo, tomei advil, depois buscopan e a dor não cedia um milímetro. Ao contrário; recrudescia. Então entreguei os pontos. Já estava chorando de dor sem nem perceber, as lágrimas escorriam sem que eu pudesse controlar. O padrasto de minha sobrinha, gentilmente, se predispôs a nos levar de carro. Fomos direto para o Pronto Socorro da Santa Casa no Jaçanã, que era o mais perto. Entramos lá dentro e, pasmem: não havia médico no Pronto Socorro. Como um PS sem médico, culpa de quem? Então achei que ia morrer; algo em mim amoleceu.
Fomos para o Pronto Socorro de Santana. Longe demais, cada buraco que o carro passava era como um soco na barriga. No meio do caminho deu vontade de usar o banheiro. Paramos em um posto de gasolina. Quando fui descer do carro, senti falta das pernas. Bati os pés no chão e voltou. Carla saiu comigo, me amparando, minhas pernas estavam moles. Fui ao banheiro e nada, era só outro aspecto da dor. Ao voltar, a perna esquerda falhou e se não é a sobrinha, teria ido ao chão. As lágrimas escorriam em meu rosto e doía, doía, doía… Chegamos ao PS, e Carla já foi me levando para a emergência. Colocaram-me em uma cadeira de rodas e lá fui eu para ser atendido. O médico foi bastante minucioso. Achou que poderia ser uma pancreatite. Receitou, fui para a enfermagem e lá fiquei tomando remédio no soro. A dor foi se afastando bem aos poucos, lentamente; quando acabou o soro eu já estava vivo novamente. Ainda estava dolorido, sensível, mas o horror havia passado. Coletaram sangue e urina para exame, a minha pressão estava alta, mas sem ser exagerada. Voltamos e eu falava mais que o homem da cobra; sentia necessidade absurda de comentar.
Dormi gostoso, como se não houvesse dormido a vida toda. Fiquei em repouso e jejum por ordem médica. Acordei cedo bem, sem dores, mas preocupado. Voltamos ao PS de Santana, peguei os exames de sangue e urina, tirei a pressão novamente e fui tomar o chá de banco até ser atendido pelo médico. Demorou porque havia muita gente para ser atendida, mas consegui, depois de mais de uma hora de espera. Foi pior esperar porque estava com receio. O médico era outro, foi gentil e até brincou comigo; leu os exames e disse que eu estava bem. Minha pressão já estava normal, sangue e urina sem problemas. Sai andando rápido, contente porque imaginei que o médico fosse me dar alguma notícia ruim (a gente sempre imagina o pior). Estou forte e saudável, ainda bem.
**
Luiz Mendes
29/09/2014.
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