| São Paulo, 31 de dezembro de 2002. Passava do meio-dia e já me agradava a idéia de passar o ano-novo na cidade. Tudo tão calmo, barato e perto. Quase liguei para o Bressane atrás de uma festa família. Mas no meio do meu prato de sucrilhos liga o Luís. ? Tô puto, vamos pro litoral. A gente se arranja. ? foi o que disse, basicamente. ? Tá bom. Passa aí. Foi tudo. Uma hora depois descíamos a serra, rumo norte pelo litoral paulista, mas sem destino. Acharíamos alguém no caminho, uma festa pagã, uma estadia barata. Em último caso, seis horas depois estaríamos no interior do Rio, procurando algum refúgio hippie para descansar na madrugada. Mas a fé no imprevisto esvaziava mais rápido que o tanque. E de cinco em cinco minutos tínhamos um prognóstico pior para aquele fim de noite, e ano. Luís reclama sem parar do ano que acaba. Estava mesmo puto. Não conseguia relaxar há tempos, nem se divertir. Tudo era caro, difícil. A possibilidade de um encosto de feitiço chegava a abalar seu ateísmo de não-praticante. 2003 havia de ser melhor, senão, nem sabia. E eu tentava acalmá-lo com preguiça de pensar: ? Calma, ano que vem o Lula assume. Três da tarde, no som do jipe, Odair José. Estávamos quase em Maresias, e toca o celular. Era o Fernando, irmão do Luís, com boas novas ? nosso destino para a meia-noite ? uma rave em uma ilha. É só ir a São Sebastião e esperar no centro náutico a lancha Bagaça nos pegar. Há bebida e comida a bordo. Há poucos segundos éramos dois perdulários de gasolina, tempo e paciência. Agora a festa prometia todo o glamour e vida mansa que a data solicita. Tranqüilos, aumentamos o volume entoando o verso sábio, rasteiro e profético de Odair: Felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes. | ||
| ||
| Copo bem cheio de ponche na mão, encostados no convés vendo a terra firme longe, éramos dois vitoriosos sorrindo do vento frio que raspava nossa cara. E no fim do copo alguém grita da cabine: ? Cêis tão ligados, né? Tem ácido no ponche! Não. Ninguém tava ligado, mas duas horas depois estávamos sim. Rindo e ligados como há tempos. Na popa da embarcação, já passada a meia-noite, a vista era linda. A água se abria em leque, furiosa. O turquesa do plâncton era profundo e o oceano parecia bem maior que o céu inteiro. E chegamos na frente da praia da tal rave. Não era rave coisa alguma, só uma mansão estroboscópica, soando alto hits dance de meados dos anos 90. As moças assanhadas queriam ir à praia, para a festa dos playboys que tinham barcos. Mas ancorar era impossível com o vento sul que fazia corrente. Conformada e resoluta, a lancha boiava na frente da mansão, digamos, bombada. Uma pequena, vestibulanda, resume: ‘O convés é a balada’. Gritos de u-hu e aumenta muito o som do barco. Na ‘pista’ de 5 metros quadrados ‘techneira bombando’. Garotas dançando como go-go dancers erotizando o Zé (vulgo, juro, playboy), um garoto, digamos, bombado. Da festa da ilha se ouvia o hit dance máximo de 95, ‘Turn Around’. Na pista da festa, playboys à caminho dos 30 giravam como na dança do passarinho, olhinhos fechados com o tubo de lança na boca, murmurando o refrão: ‘Tuuurn Around’. E as meninas de calça bailarina, com a bainha nas canelas, fingiam bebedeira nas primeiras doses, e classe depois da quinta. Não podia ver, mas sabia que estavam todos lá. A aristocracia jovial, os primogênitos e os caçulinhas dos papais, na mesma balada, desde 95. Era tão monótono, tão demodê, tão brega ser rico por ali. Deitado na popa, perto da água, eu delirava estar em Brasília vendo o réveillon do povão de chinelo no pé. Mas a lancha e o champanhe estavam ótimos. Mesmo com a trilha de comercial de desodorante, ao lado do glamour mais inóspito, 4 horas depois do ponche, me bastava a taça gelada, a bela obra de Deus (o céu açucarado, o mar derretido) e a cabeça, digamos, bombada. Estava calmo, mas não Luís. Roía as unhas e batia o pé na fibra. Tudo o que queria era colocar os pés no chão de verdade. O balanço calmo e arbitrário da Bagaça e a possibilidade de garotas na areia puxava toda sua vontade. Se fosse dia, estou certo, nadaria até a praia da mansão. E enquanto eu debruçava para a água, vendo o turquesa que a lanterna fazia nas ondas leves, Luís exige saltar do barco. O jovem capitão, sóbrio, prontamente atendeu e foi à praia encalhar por poucos segundos. Quando dei por mim, o Luís estava arqueado para pular e a lancha a poucos metros da areia. ? Tô puto, vamos descer, a gente se vira ? foi o que disse, basicamente. ? Tá bem. – respondi sem pensar. Só peguei minha bolsa com máquina fotográfica (14 poses). Atravessei a fina e escorregadia lateral do barco até a proa. Me segurando nos corrimões, temendo uma dedada de Deus, vi que não tinha volta, não tinha chinelos, dinheiro, flash para a câmera, caneta ou sanidade para aquilo. E ainda pensando nas pendências de nossos bolsos caí de pé na água, molhando a perna e toda a bermuda. O barco partiu e com ele a luz. E vi que nos faltava algo básico em noites náufragas ? a Lua. Em nossos pés, siris e criaturas de beira d´água passavam invisíveis. A praia acabava em pedras que só se enxergavam a palmos de distância. Voltamos pisando em mais siris, fingindo que eram o próprio chão, e seguimos na direção do mato, para a única lâmpada visível. E lá estava ele, gozador e inexplicável como sempre, o dedo de Deus. Na beirada do mato fechado, uma capelinha capenguíssima, anã de tão baixa e de estranhas proporções, denunciava ? não havia trilha para a praia dos playboys. Me deu vontade de cair de joelhos, de mãos postas, e blasfemar defronte à capela distorcida. Era a dedada enfim: estávamos longe da festa, em uma praia vizinha. Só nos restava encarar as pedras rentes ao mar. | ||
| ||
| Não era mais o ácido, mas o destino que nos fazia rir tateando as pedras, espetando as solas dos pés e colocando na mão (e não no dedo) de Deus nossa integridade física. E engatinhando no breu da costa, temendo a paraplegia, brilhava em nossas mentes o ímpeto paulista número um, uma pulsão tanto genética quanto circunstancial, a busca cega pela roubada ideal. Em questão de minutos, melhor, instantes, deixamos à deriva toda a mordomia, as belezas naturais, a segurança e as bagagens. Éramos náufragos do glamour patético, que viam agora na balada dos playboys uma chance de resgate. E depois de pedras e grama, um barranco. Com sorrisos sinceros e aparência de Crusoés, a praia enfim. Nos pés, leves escoriações. Sede, ainda tranqüila. E lâmpadas, por todo o lado. Casais loiros, de campanha da Tommy Hillfiger, por toda a parte. E, como previ, taças e tubos de lança-perfume nas mãos. Não tínhamos cinco horas de ponche, a mente caótica melava as idéias e a paisagem colaborava: em cima de um enorme cubo de concreto encalhado na fronteira do mar, um playboy de proporções químicas. Segurando nas alças enferrujadas do bloco de amarrar barcos, insisto, em cima do concreto, tentava levantar a peça. Esticava o pescoço e fazia cara de Rambo baleado. Era de um ridículo bíblico, e paramos para ver. Com dedões erguidos davámos apoio moral ao rapaz, que ao ver nossa platéia desceu do cubo de 1.000 kilos. Estava drogado, deveras. Suas pupilas não se decidiam e falava mordendo o lábio. ? Você puxa o ferro e ele nem se mexe. Uhhhhhhh. Dá pra sentir o peso. Foda, foda, foda. Uhhhhhhh ? fazia de novo a cara de Rambo baleado. ? É difícil mesmo ? comentei ? ainda mais se você está em cima do bloco. Mas tenta lá, força! Força! ? e fiz a cara de Rambo, capenguíssima. ? Força, rapaz. Levanta o bloco. Tá aí pra isso ? completa de voleio o Luís. Entrar na festa, impossível. O segurança dialogava feito uma zebra. ? Só com a pulseirinha. ? Amigo, eu pulei de um barco, não tenho para onde ir. Preciso de água, dar um telefonema. ? Só com a pulseirinha. ? Tem alguém da organização da festa? ? Só com a pulseirinha. ? Com quem eu posso falar? Silêncio. ? Com quem? ? Só com a pulseirinha. Depois de súplicas, longas e confusas explicações, ironias, xingamentos e ameaças, ficou claro. O cérebro de mão única do security (estava no crachá) me via como um boy cuzão. Mas um boy sem pulseirinha, logo estava acima de mim. E falava que eu poderia andar até o cais, oito quilômetros dali, e esperar a embarcação aparecer. Em segundos veio a informação que eu precisava para desistir. Era o dedo do meio de Deus, esticado na minha cara: o leão de chácara da ilha era evangélico. Sede, muita sede agora. E ninguém nos dava um gole de nada. As barracas na areia davam refrigerantes e água. Menos para nós. ? Só com a pulseirinha ? resumia pela centésima vez na noite o barman de boné do PL. E eu explicava tudo de novo. Só queria uma água. ? Aí fica ruim pra mim. O seu Cortes é dono disso tudo e fica de olho. Seu Cortes. Que tipo de magnata estúpido seria ele de passar sua noite de ostentação fiscalizando a distribuição de água mineral em suas barraquinhas às 5 da manhã? Talvez o mesmo tipo de magnata estúpido que gasta uma fortuna estúpida em uma festa com músicas estúpidas, para gente do mesmo nível que ele nem conhece. O barman tinha razão em temer o Cortes. ? Você não conhece o filho dele? O Maurício? Juro, chamava Maurício. Era para ele a festinha singela. ? E o seu Cortes? É de que partido? O barman riu: ? Já falei demais. Como não sei o primeiro nome do seu Cortes, nem se tem cargo público, posso supor categoricamente que se trata de um corrupto. | ||
| ||
| Quase amanhecia e a obra de Deus não me interessava mais. Sentado na areia, pensando no que a maresia fazia com minha velha Pentax, só queria minha cama. Foi só clarear um pouco o céu e subimos pela trilha calçada por trás da casa. Mais uma hora de espera e rejeição e finalmente topamos com dois seres humanos propriamente ditos. Fabiana e Beatriz. Precisavam de carona para sair de lá e, mesmo bonitas e bem vestidas, eram desprezadas pelos boys que passavam por nós. Nos deram Coca-Cola, uma caneta (agora dava uma pauta) e nos conseguiram, com um amigo, uma carona. Me sentia quase salvo, mas ainda longe do carro, de casa e de um par de chinelos. Até chegarmos a São Sebastião, navegamos, andamos de carro, ônibus e lascamos mais ainda os pés descalços. O Sol subia e fervia os miolos cansados. Eu só temia pisar em cacos de garrafa de Sidra e o Luís só falava em dormir. E chegamos no carro. Bancos deitados, vidros abertos, mas era impossível cochilar. O melado de suor e maresia de uma madrugada inteira nos untava, e o sol de dez da manhã cuidava de cozinhar. E veio a pergunta que ninguém queria fazer: e o barco? Pensa, pensa e pronto! Vamos tentar pelo rádio. No centro náutico tudo deu certo: compramos bolacha, um bolo, uma garrafa d´água e suco de manga. E, pelo rádio, nossos anfritiões respondem. ? Bagaça na escuta. Estavam até agora, 7 horas depois, na frente da praia onde nos deixaram, esperando a manhã chegar para voltarmos ao barco. Seria tudo tão simples, mas não olhamos para o mar de manhã. A lancha achou graça, mas não estava disposta a servir de táxi. Eles queriam andar de wakeboard e pegar uma praia por lá. A gente precisava esperar. | ||
| ||
| A exaustão embriagava e só o que procurávamos era sombra, pois já tínhamos a água fresca. E numa rua vazia, perto do mar, um parque de diversões desligado. Todo simples, capenguíssima, irresistível. Luís pisa, descalço, em um cocô claro. ? Pelo menos está fresca. – consolou-se. ? Pelo menos não é humana ? completei. No fundo, a montanha-russa nos sorria, com seus amplos carrinhos, sombra farta e a brisa do mar. Era tão bonito. E foi lá nosso repouso. Acho que não chegamos a dormir, mas sonhei com a posse de Lula. Era lá que eu queria estar. Deveria chover, ventar forte. Qualquer pé-rapado dividiria um copo d´água, até uma marmita. Era a hora de ser pobre. E, no carrinho da frente da pobre montanha-russa, eu via os trilhos com ferrugem e os parafusos corroídos. Era aquela a graça e a aventura da brincadeira, a real incerteza de que vai acabar tudo bem. E 2003 começou pra valer. Só faltava o carrinho andar. | ||
|
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Não deixe a noite morrer
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu




