Da ponte para algum lugar
A pesquisa Sonho Brasileiro da Política aponta novos rumos de mudança do Brasil
Membros do Cosp Tinta Crew em ação / Créditos: Divulgação
Por Felipe Maia Trip #235
em 19 de agosto de 2014
A pesquisa Sonho Brasileiro da Política aponta novos rumos de mudança do Brasil — e ela é liderada por jovens do lado de lá dos centros
“Articulação é unir forças no campo da inteligência e no campo da ação.” O conceito não é de um filósofo encastelado na academia. Quem disse isso foi Thiago Vinicius, ativista social que vive na periferia de São Paulo. Ele é um dos cerca de 1.400 jovens entrevistados pela agência Box1824 para a pesquisa Sonho Brasileiro da Política. O estudo percorreu o Brasil em 2014 e sua maior descoberta aponta que, à margem dos grandes centros, existe uma juventude com poder para mudar suas comunidades sem a ajuda de intermediários.
São casos como o do próprio Thiago, membro da Agência Popular Solano Trindade, que organiza oficinas e eventos espalhando hashtags como #saraucultural pela rede; da MC K-Bela, alter ego da carioca Yasmin Thayná, que usa o cabelo como manifesto de luta da mulher negra; ou do Cosp Tinta Crew, coletivo paraense que reúne grafiteiros, poetas, fotógrafos e educadores na periferia de Belém. “Esse jovem é protagonista da sua própria história, ele não precisa de mediador”, diz Beatriz Pedreira, uma das coordenadoras da pesquisa.

Ela vê esse movimento como um reflexo da presença das ONGs nas regiões relegadas pela política tradicional. Segundo Beatriz, desde o começo dos anos 1990 o terceiro setor atua com força no Brasil. Hoje, há uma geração que, formada por essas organizações, tenta resolver questões plausíveis em vez de voltar esforços para temas como as diferenças entre esquerda e direita. “Esse jovem abre a porta da casa dele e o problema é muito mais real”, diz Beatriz.
Carla Mayumi, que também realizou a pesquisa, vai além. “A causa dessa juventude é a sobrevivência”, afirma. Para ela, coletivos como o T’amo Vivo, Maré Vive e Juventude Viva levantam em seus nomes uma bandeira contra o preconceito da sociedade e a violência do estado — muito embora haja contato com órgãos do governo. “Esse cara dialoga com o estado porque ele sabe que a ação dele tem de virar política pública”, conta Beatriz.
Ela e Carla observam que a articulação na periferia atrai até quem não está nela. São jovens da classe média em busca de mudanças reais, muitas vezes promovidas sem grandes estruturas ou investimentos. “Existem poucos recursos e muita coisa pra fazer”, diz Carla. Também foi assim com seu estudo: o grupo tentou um financiamento coletivo, mas não conseguiu a meta esperada. De qualquer maneira, a pesquisa será finalizada e estará disponível em setembro.

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