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continuação e finalização do conto Risco de Morte

Por Luiz Alberto Mendes

em 15 de junho de 2010

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Risco  de  Morte  II

 

Eu estava loucamente apaixonado. De pensar nela doía meu estômago de ansiedade. Às vezes escrevendo para ela, a emoção era tão intensa que contraía e doía o abdome todo. Meus sentimentos se avolumavam a cada vez que conseguia colocar meus olhos nela. Mas ela, criada no leite o no mel, psicóloga com cursos de especialização no exterior, falando quatro idiomas, não fora criada para tamanho sacrifício, por mais se esforçasse. A visita era só por 40 minutos e com uma mesa enorme separando a visita do preso. Um beijo roubado continha o risco de 30 dias na cela forte. Ela até que foi muito além do esperado.

Após estudar Direito sozinho, nosso amigo Franco tornou-se capaz de se defender. E prestava assistência jurídica a todos nós. Era nosso gênio. Aprendia tudo com uma facilidade e rapidez espantosa. Aprendera a grego e latim na prisão só para assimilar outras línguas derivadas. Ele nos explicava, por exemplo, as teorias de Marx, andando para lá e pra cá, conversando no pátio. Foi ele quem me introduziu e facilitou o entendimento de conhecimentos extremamente úteis a meus textos.

De repente, surgiu a chance de Franco ser libertado. Convergimos esforços nesse sentido e ele conseguiu sair. O problema que o “Gigantinho” (ele tinha 1,60 metros -e meio-, fazia questão) era do interior do Estado e não conhecia São Paulo. Minha companheira foi ciceroneá-lo. Minha mãe gostava muito dele, era o mais novo de nós, e o acolheu em sua amizade. Ele a visitava quase toda semana.

Passado algum tempo, a companheira disse que não me amava mais e queria separar-se de mim. Com a alma na boca aceitei e desejei que fosse feliz. Foi então que descobri que a amava. Por mais a quisesse, precisava abrir caminho para que vivesse sua vida. Arrebentou tudo por dentro, passei um tempo desesperado, assistindo o sofrimento britar. Henrique apoiou, como sempre, ouvindo meus desabafos. Custou conseguir o reequilíbrio. Aos poucos me coloquei novamente no fluxo da vida, a navegar.

Conheci outra pessoa. Insisti várias vezes para que ela procurasse o Franco. Precisava estar em contato com ele, era um amigo muito querido. De repente a nova namorada saturou-se de meus pedidos. Explicou porque não procurava meu amigo. Ele estava com a minha ex-namorada. Ela me abandonara na prisão para ficar com ele.

Foi um choque de mil volts. Jamais podia esperar aquela traição. Não do amigo Franco. E ela continuou, para arregaçar: ela esta grávida dele. E pior: ele fora no trabalho de minha mãe como fazia sempre e ela pediu que ele não a procurasse mais. Sabia da relação dele com minha ex-namorada. Ele respondeu, defendendo-se, que ela não podia fazer isso com ele. Já me salvara a vida. E contou de quando ele e o Henrique desarmaram o sujeito que me mataria no pátio. Foi quando conheci essa história.

Ninguém queria me contar porque sabiam que eu sofreria muito com aquela traição. E, de fato, foi uma dor violenta, particularmente pela desconsideração. Ele sabia que eu adorava aquela mulher e o quanto me custaria ser afastado dela. Mas o modo como jogou na cara o fato de haver me salvo a vida, acabou com toda a consideração ainda possível.  

Quis matá-los! Odiei-os profundamente a um primeiro momento. Por sorte estava preso e nada podia fazer. Com o passar dos anos tornei-me capaz de compreender. Além da relação já estar defasada, eu a perderia de qualquer maneira. Havia juntado a fome com a vontade de comer. Ela estava a dois anos comigo e eu sem nada poder. Ele saindo de quase 10 anos de prisão em forçada abstinência sexual. Só podia dar nisso mesmo. Eles tiveram uma filha e ele foi morto ao discutir com um comparsa, logo em seguida, que também havia cumprido prisão conosco.

                                        ***

Luiz Mendes

15/06/2010.   

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