Comentários sobre histórias reais
Estava perto quando Diego foi preso. Uma história boba que lhe custou 2 anos e meio preso
em 8 de janeiro de 2010
Injusto
Tenho um bom relacionamento com a rapaziada aqui do bairro. Talvez porque me preocupo por eles e, dentro do meu possível, procuro contribuir. Não há como aconselhar. Mal consigo levar minha vida, conheço tão pouco e tudo é tão precário e transitório… Mas eles gostam de conversar comigo, dizem que eu os ouço. Tento e sugiro alternativas. A escolha é sempre com eles, são tão voluntariosos…
Estava próximo quando Diego foi preso. Uma história boba que lhe custou dois anos e meio preso. De alguma forma, eu o acompanhei. Ele me telefonava (celular é uma realidade na prisão) e conversávamos. Saiu recente, agora com 21 anos de idade.
Desde o primeiro dia já acordou cedo e saiu para distribuir currículos nas empresas. Andava o dia todo; voltava cansado e frustrado. Até que conseguiu trabalho em um Atacadão aqui próximo. Todo dia eu o encontrava com o uniforme da empresa, o maior sorrisão na cara e todo ativo. Estava realmente acreditando que podia dar certo.
Não demorou. A empresa descobriu seu problema na justiça e ele foi sumariamente despedido. É política da empresa. Não aceitam empregados com passagem na polícia. Têm filas de jovens quase implorando para trabalhar todos os dias, porque não escolher? Foi difícil convencê-lo de que havia milhares de outra empresas. No próximo emprego, em cinco dias ele foi novamente mandado embora pelos mesmos motivos. No terceiro já chegou contando e nem foi admitido.
Ainda esta por aqui, saindo pela manhã, já desanimado e sem acreditar muito. O que aconselhar? Não tenho o que dizer. Perdi a vontade de falar. Escuto seus lamentos, agora em silêncio, sem saber quando devo chorar.
Segunda-feira eu e Daniele (minha comadre) fomos levar o Fabinho, outro jovem amigo, até a rodoviária. Estava voltando para a cadeia, depois de passar o Natal e o Ano Novo com a família. Esta cumprindo cerca de 2 anos de prisão. Foi torturante o tempo que passamos aguardando o ônibus partir e ele com o rosto no vidro, quase chorando. Quando o busão partiu, foi um alívio, a tensão estava insuportável. Foi sofrido para nós, principalmente porque ficávamos imaginando quanto era duro para ele. É quase um garoto, tem 20 anos e aparenta uns 15. Nós o conhecemos desde moleque, empinando pipa aqui na rua.
Ele esta para sair, mas e ai? Conseguirá um emprego? Ele esta esperto; fez curso de pedreiro lá dentro e como já conhecia um pouco, vai sair com algo para oferecer. Mas tenho receio. A sociedade não tem projetos para absorver essa mão de obra prejudicada por antecedentes criminais. E puxa, esses garotos saem tão dispostos a vencer, que dá dó em vê-los falar de seus sonhos. O impacto da rejeição e do preconceito será devastador.
Essa é a história de milhares de jovens das periferias das cidades grandes que, ao passar à maioridade, fazem escolhas erradas. Que chances reais têm esses jovens? Estão condenados à perdição como eu estive?
Por outro lado, não é possível condenar o empresário pela rejeição. Estar bem informado faz parte de suas atribuições. Ele sabe que a prisão é depósito de seres humanos e que não há a menor preocupação das autoridades em reeducar ninguém. Que na prisão prevalece a cultura do crime; não há outras opções culturais. É preciso manter as prisões sem rebeliões, fugas e o preso sem dar problemas. É somente isso que a sociedade cobra. Senão vejamos: de mais de 160 mil presos do sistema prisional de São Paulo, apenas cerca de 7% estuda. Os outros 93% não precisam de escola? Apenas 40% dos presos em São Paulo trabalham. E boa parte em trabalhos que não formam ninguém. Costurar bolas de couro a mão, por exemplo. E os outros 60%; cerca de 96 mil homens, não fazem nada?
Diante tal conhecimento, como o empresário vai admitir em sua empresa, pessoas recém saídas da prisão? E eu, o que vou fazer com esses meninos que, sem saída, de repente, podem se encher de todo esse massacre e novamente fazer escolhas erradas?
***
Luiz Mendes
08/01/2010.
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