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Comentários acerca da Discordância

Por Luiz Alberto Mendes

em 19 de janeiro de 2010

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Discordância

Gosto mais quando discordam. Quando concordam ou enaltecem, parece, todo o espaço é tomado e não há mais o que dizer. A mensagem foi emitida e captada. Só não existe certeza de que tenha sido digerida. E na mente fica aquela idéia de que concordando, não se aprende. Saímos como entramos, e nada foi acrescentado. Prefiro que vejam as questões por ângulos que não enxerguei. Que me mostrem que em alguma parte, ou até no todo, é possível fazer melhor.

É preciso eliminar a necessidade absurda de segurança que a cultura social vem nos dotando. Não posso estar seguro do que falo, escrevo ou de minha manifestação no mundo. Ainda tateio e pouco entendo, limitado que sou interior e exteriormente. Nos iludimos a criar seguranças impossíveis, guiados pelo medo. Segurança fecha questão, não deixa aberturas para o novo, o inédito. E fechar é antônimo de inaugurar. O novo assusta e é sempre complicado de amortecer o impacto e assimilar.  

Às vezes aparecem pessoas com idéias brilhantes, às vezes discordantes, outras complementares, mas diferentes. Para mim é a glória. Se possível, tiro para dançar. Conversar é ainda um dos maiores prazeres existenciais. Quando a pessoa nega e recusa, temos ai possibilidade de desenvolvimento. Acredito que mais importante que aceitar, é discordar. É até um método interessantíssimo de estudo. Estamos tão condicionados a aceitarmos tudo como vem, dado, mastigado e pronto para engolir, que discordar nos torna chatos. Acostumei ser chato e acabei gostando. Chego a estragar prazeres e às vezes, sadicamente.

Quando afirmam que é feio, imoral roubar; eu digo que é ótimo ser honesto e respeitar a todos. E as pessoas ficam me olhando sem entender direito. Para que serve a imoralidade do roubo? O que se vai fazer com isso? Um bolo, uma torta? É um fato, uma realidade da existência, indiscutível em si. Agora eu posso falar do quanto é bom se sentir ético e respeitado, depois de décadas oprimido e impedido de ser. Posso falar da leveza da sinceridade e de como é bom ser útil e produtivo.   

Conheço os dois lados em seus extremos. Posso comparar, tenho elementos para associar e busco a sensatez para ser lógico e objetivo em minhas avaliações. Mas isso depende do outro, da discordância, do questionamento que me faz correr atrás de respostas e superações. Discutir idéias é discutir a vida. Tudo o que a gente faz não dá para restaurar porque tudo é modificado a partir do seu nascimento. Nunca dá para voltar atrás porque atrás nunca mais existiu. Parece contraditório, mas o que aconteceu nunca existiu já que nada é estático ou permanente.

Tudo virou produto de consumo; para aquilo que nos ensinam a querer e não para o que necessitamos. E consumiu já era. A vida virou fluência.  E nos relacionamos pelo que pensamos e consumimos a cerca do outro e não pelo que ele é de verdade. E assim nosso contexto permanece alienante, focado na dor, na tristeza e inabilidade que temos de lidar com a vida e com os outros. Não discutimos tudo isso suficientemente para que faça parte de nossa vida.

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Luiz Mendes

18/01/2010.

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