por Alê Youssef

Quando vejo o pensamento conservador crescer e influenciar decisões, lembro com esperança a força do Cacique de Ramos e do Carnaval

Todo ano compartilho de uma tradição com alguns amigos e amigas do peito: desfilar pelo bloco Cacique de Ramos no centro do Rio de Janeiro. Faço parte da ala Guerreiros da tradicional agremiação carioca. O Cacique é uma espécie de berço do samba contemporâneo. Em sua sede, no bairro de Ramos, ao lado do Complexo do Alemão, fica o famoso fundo de quintal que deu origem ao cultuado grupo e a emblemática Tamarineira, onde, sob sua sombra, foram compostos versos que estão no imaginário da nação.

Uma das tradições mais bonitas do espaço são as rodas de samba que acontecem aos domingos, agora já com uma estrutura mais ampla que a original, mas ainda ao lado da simbólica árvore. Nesse ambiente são mesclados, em um fino repertório, os clássicos do gênero e o partido-alto – aquele estilo marcado pela improvisação, variação do repente, com verve e malandragem que dão inveja a qualquer MC do rap.

Numa clara demonstração de desrespeito aos blocos de Carnaval de rua mais tradicionais do Rio, o desfile do Cacique, que desde as obras da avenida Rio Branco ficou nômade e à mercê das decisões de última hora do poder público, é uma das experiências culturais mais intensas e bonitas que conheço. Os hinos, compostos ao longo dos anos de folia e resistência, marcam como mantras a performance dos foliões, que, vestidos como índios, fazem rituais em volta de fogueiras improvisadas com papel queimado e fogos de artifício. Apesar das constantes dificuldades que a diretoria tem para botar o bloco na rua, todo ano experimentamos uma catarse coletiva.

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“Olha, meu amor, esqueça a dor da vida, deixa o dissabor, caciqueado na avenida, esse ano eu não vou marcar bobeira, vou caciquear, só vou parar na quarta-feira.” Impossível não aproveitar a força desse que talvez seja o mais marcante dos hinos do Cacique para mergulhar numa espécie de transe em que a alegria do Carnaval é usada como principal arma contra o caos que vivemos no Brasil. É da mistura de gente diferente, de todas as raças e classes, inclusive com posições antagônicas sobre a vida, fantasiadas e esquecendo a dor da existência, que nasce a mágica que compõe a identidade do nosso país.

É a mágica do Carnaval, da união em torno de algo verdadeiramente brasileiro, que ultrapassa modismos e posições radicalizadas, que acontecem ao longo do ano impulsionadas por ondas momentâneas nesses tempos difíceis e polarizados.

A FORÇA DO CACIQUE

Quando vejo o pensamento conservador crescer e influenciar decisões, como a do banco Santander, que cancelou a exposição Queermuseu, ou a sentença esdrúxula de um juiz autorizando o tratamento gay, assim como as manifestações de ódio que viraram recorrentes na internet, contra tudo que possa representar a diversidade que compõe a alma do Brasil, lembro com esperança da força do Cacique de Ramos e do Carnaval. Me agarro à convicção de que, em fevereiro, estaremos juntos novamente, pois não existe onda fascista capaz de deter nossa maior manifestação cultural e popular.

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Os Guerreiros do Cacique são exemplos dos outros tantos guerreiros do Carnaval espalhados por milhares de blocos de rua do nosso Brasil, que teimam em viver – cada um do seu jeito – sua própria catarse anual, seu próprio encontro com as noções mais fortes e verdadeiras de brasilidade. Não precisamos ir muito longe para achar a solução para nossos problemas derivados da imbecilidade e da radicalização. O espírito tropicalista e carnavalesco está em nosso DNA, quer queiram ou não os movimentos de ocasião. É no Carnaval que nos encontramos, e o Carnaval é o que nos une.

Espero que o Cacique de Ramos, o Cordão da Bola Preta, o Ilê Ayê, os Filhos de Gandi, o Olodum, Os Esfarrapados, a Banda Redonda e todos os outros blocos tradicionais nos inspirem.

Créditos

Imagem principal: Cacique de Ramos, carnaval, década de 1970/Carlos Vergara

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