por Caio Ferretti
Trip #191

Ricardo Stuckert: o fotógrafo oficial que registra a vida política e pessoal do presidente

Ricardo Stuckert possivelmente está com Lula neste exato momento. Pode ser no gabinete presidencial, no Palácio da Alvorada ou em visita a qualquer país. Conheça o fotógrafo oficial que registra a vida política e pessoal do presidente desde o primeiro dia de governo

O telefone toca na casa de Ricardo Stuckert, em Brasília, num domingo de manhã. “Alô! Stuckinha?” A voz rouca e o apelido no diminutivo entregam quem está do outro lado da linha. “Presidente?” “Sim, Stuckinha. Por acaso você está fazendo alguma coisa agora?” Mesmo que estivesse ocupado, Stuckert faria questão de estar disponível para o excelentíssimo chamado. “Não, presidente. Pode falar. O que o senhor precisa?” “Vem aqui em casa. Estou pescando e quero que você faça umas fotos.” O presidente, no caso, é Luiz Inácio Lula da Silva. E há oito anos cenas como essa são constantes. Desde o primeiro dia do PT no poder Stuckert é a sombra de Lula. Só desgruda do homem para dormir. Stuckinha, como foi apelidado pelo próprio político, é o fotógrafo oficial da presidência da república. Esteve colado em Lula em praticamente todas suas viagens ao exterior, conheceu líderes que vão do norte-americano Barack Obama ao iraniano Mahmoud Ahmadinejad e diariamente testemunha e registra diversos momentos pessoais do nosso presidente.

Stuckert presenciou, por exemplo, a primeira visita de um governante brasileiro a diversos países africanos. Ouviu Obama dizer que Lula era “o cara”. Estava lá quando Nelson Mandela abriu sua casa para receber um mandatário, rara exceção nos últimos anos. Foi um dos primeiros a saber do acordo nuclear entre Irã e Turquia. E segue a lista. Por ter esse acesso tão privilegiado a tudo que acontece no poder, Stuckert mantém em sigilo o que escuta nas reuniões a portas fechadas que presencia. “Minha profissão é registrar as imagens. Se eu ouvir algo e repassar perderei a liberdade de estar nos lugares mais privilegiados.”

Stuckert Ouviu Obama dizer que Lula era “o cara”. Estava lá quando Nelson Mandela abriu sua casa e foi um dos primeiros a saber do acordo nuclear entre Irã e Turquia

Mas não é só em eventos políticos que o fotógrafo está. “Todos os jogos do Brasil na Copa acompanhei com o presidente lá no Palácio da Alvorada. Mas não via nada, o jogo estava nas minhas costas, ficava o tempo todo virado para ele para registrar a comemoração de um gol, ele bravo com algum lance...” Assim é sempre. Stuckert dificilmente larga a máquina fotográfica quando Lula está por perto. Nem mesmo quando a ordem é presidencial. “Às vezes ele me convida pra jogar bola com os amigos dele lá no Alvorada. Mas pra eu me divertir, não trabalhar. Aí ele fala: ‘Você vem sem a câmera, ouviu?’. Mas você acha que eu vou pra um jogo de futebol do presidente sem levar uma máquina? Na minha cabeça isso é inconcebível. E durante o jogo ele ainda me provoca, fica falando pra eu ir tirar a bola dele. Mas eu? Disputar uma bola com o presidente? Não sou nem doido!”

Foto com a cadelinha
A relação de Stuckert com Lula começou nas eleições presidenciais de 2002, quando o ex-metalúrgico ainda pelejava para alcançar o poder. Na época Ricardo era fotógrafo da revista IstoÉ em Brasília. Pouco antes do primeiro turno ele sugeriu aos chefes registrar uma semana de cada um dos quatro principais candidatos daquela eleição. A ideia era fotografar tudo o que acontecesse em sete dias da vida de Anthony Garotinho, Ciro Gomes, José Serra e Lula, exatamente nessa ordem. “Consegui fazer fotos inéditas e diferenciadas com os três primeiros candidatos, e quando chegou a vez do Lula a revista me pressionou que queria algo diferente com ele também.” Por isso, Stuckert passou a semana tentando convencer Lula a abrir seu apartamento de São Bernardo do Campo para algumas fotos, mas a resposta era sempre negativa. “Fiquei batalhando e ele dizendo: ‘Não pode, na minha casa ninguém entra’. Até a dona Marisa me pediu pra respeitar a restrição.”

Mas Stuckert não desistiu. E conseguiu a brecha numa sexta-feira, último dia em que estaria ao lado do então candidato. “Cheguei à casa dele às 5h30 da manhã. Ele já estava acordado, me mandou subir. Fiz fotos dele tomando café da manhã, coisas assim, mas queria algo mais. De repente aparece a cachorrinha dele, Michelle. Ele pega o bicho, levanta nos braços e dá um beijo. Foi a foto que abriu a matéria.” E também abriu portas para o fotógrafo. Lula gostou do resultado. Pediu de presente a foto com a cadela – e alguns dias depois da publicação da matéria pediu mais. “Eu o encontrei no último debate antes do primeiro turno. Ele bateu nas minhas costas e disse: ‘O Kotscho já falou com você?’. Era o Ricardo Kotscho, assessor de imprensa dele. ‘Acho que ele tem um negócio pra te falar. É um convite’. Na hora caiu a ficha.” Lula queria Stuckert como seu fotógrafo oficial caso fosse eleito. Um convite que aceitou sem pensar duas vezes. “Quando eu teria outra oportunidade de fotografar um operário no poder?”

A chance era única, mas não seria a primeira vez que Stuckert frequentaria a residência oficial de um presidente do Brasil. Seu pai, Roberto, também foi fotógrafo oficial de um governante. No caso, foi do último militar, o general João Figueiredo, presidente de 1979 a 1985. “Lembro que meu pai ia fotografar o Figueiredo, me levava junto e eu ficava andando a cavalo na Granja do Torto. Isso com uns 12 anos.” O pai serviu de influência, e a relação entre poder e foto engrenou cedo na vida de Stuckert. Aos 18, já trabalhando como fotógrafo para o jornal O Globo, ele acompanhou José Sarney, então presidente, a viagens pela América do Sul. Pouco tempo depois foi com Collor à Espanha. E não parou mais.

“Lembro que meu pai ia fotografar o Figueiredo, me levava junto e eu ficava andando a cavalo na Granja do Torto. Isso com uns 12 anos”

Tapa no cabelo
A euforia de Stuckert em ser fotógrafo de Lula sofreu um baque quando chegou ao Planalto para trabalhar. E não foi pelo salário quase três vezes menor do que ganhava antes. “Não tinha computador no setor de fotografia da presidência, não usavam máquina digital, era tudo filme. Nem sequer havia site de imagens. E nós estamos falando de 2003. O mundo todo tinha equipamento digital, só a presidência da república que não. Foram seis meses de luta pra conseguir implantar essas coisas.” Hoje são baixadas entre 70 mil e 80 mil imagens todos os meses do site de fotos do Planalto, que Stuckert abastece sozinho.

Sinal de que nosso presidente é vaidoso e gosta de ser fotografado? Não exatamente. Aí volta a história lá do começo do texto, da pescaria. “Comecei a clicar e ele falou: ‘Porra, Stuckinha. É pra fotografar o peixe, não eu’. Entende? Ele não tem essa vaidade”, conta. “Às vezes eu é que tenho que dizer pra ele: ‘Presidente, passa um pente no cabelo’. Aí ele brinca: ‘Ah, olha o seu cabelo, vai você passar pente’. E eu digo: ‘Mas eu não sou presidente, o senhor é!’.” Ainda assim, Lula gosta de ver as fotos que Stuckert faz durante as viagens. É de praxe ele pedir um slide show com as melhores imagens para ver no avião presidencial enquanto volta para o Brasil após visitar algum outro país. “O presidente não dorme no avião. É uma pessoa superativa, quer conversar, ver as fotos, comentar as imagens...”

Durante os oito anos do governo Lula, apenas Stuckert e o chefe de segurança permanaceram no staff que acompanha o presidente em suas viagens. Mas essa rotina está com os dias contados. Assim que Lula deixar o Palácio da Alvorada, Stuckert também vai fazer as malas e sair de Brasília. E possivelmente vai abandonar a cobertura política, para um destino que prefere ainda não divulgar, a partir de 2011. Mas existem chances de que um Stuckert permaneça em Brasília como fotógrafo presidencial mesmo após a troca de poder. “Meu irmão já está fotografando a Dilma. Meu pai fotografou um presidente militar, eu fotografo um operário e meu irmão talvez registre a primeira mulher na presidência. Três ciclos bem diferentes deste país.”

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