Cinema novo
Confira as recomendações de sites, filmes e conheça a história de Philippe Barcinski, diretor que levou cinco prêmios em Gramado
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Fazer filmes experimentais e acessíveis ao mesmo tempo. O carioca Philippe Barcinski – premiado nos festivais de Gramado, Brasília e Pernambuco e exibido em Berlim – escolheu esse desafio. Conheça sua história
Por Phydia de Athayde
CENA 01 – RIO DE JANEIRO/PUC- INTERNA/DIA
Prova de matemática. Um rapaz de 19 anos, sentado em frente de uma folha em branco, com uma única missão: provar por que entre 0 e 1 não há nenhum número inteiro. Passa o tempo. Uma página de cálculos. Passa o tempo. Duas páginas de cálculos. Passa o tempo. Três páginas de cálculos. Fim da prova. O que se provou, nesse dia, é que o destino do rapaz não era a Física.
Na cola de Hitchcock e Cacá Rosset, engenheiros por formação, Philippe Barcinski buscou a faculdade de Exatas para equilibrar razão e emoção: Depois, me desencantei com a Física porque ela não explicava o mundo, só buscava modelos matemáticos para classificá-lo. Cinéfilo desde pequeno – até hoje são três idas ao cinema e mais três vídeos alugados por semana -, aos 14 anos Philippe estreou como estagiário de direção no filme Leila Diniz, de Luiz Carlos Lacerda. Dois anos depois, foi assistente de direção de A Princesa Xuxa e os Trapalhões. Não largaria mais a precoce paixão. O incentivo, em muito, partiu de seu pai, que veio da Polônia após a Segunda Guerra para ser empresário do ramo industrial e sempre orientou o filho a seguir a carreira que bem entendesse.
A família mudou-se para a capital paulista e Philippe entrou, com 20 anos, na Faculdade de Cinema da ECA/USP. Em ação paralela, trabalhou como assistente de direção de Cao Hamburguer no Castelo Rá-tim-bum, exibido pela Rede Cultura. Na faculdade, dividiu-se entre a liberdade de criar sem compromisso e a experiência do mercado de trabalho. Escreveu e dirigiu os curtas A Escada (1996), trabalho do terceiro ano da faculdade, e A Grade (1997), inspirado em um conto do argentino Jorge Luis Borges.
CENA 02 – RECIFE/FESTIVAL DE CURTAS – INTERNA/NOITE
Ano 2001. Festival de Curtas do Recife. Platéia lotada: 2 000 pessoas. Na tela, o curta Palíndromo (2001). Projetado de trás para frente, faz o espectador assistir primeiro ao final desesperado da história, para então voltar ao começo. Em 11 minutos, o dia de cão do personagem retrocede até o ponto em que ele comemora o fato de ser muito feliz na vida. A história chega ao começo. A projeção chega ao fim. Silêncio. Aplausos. Muitos aplausos. Philippe está entre o público. Arrepia-se. É eleito o melhor diretor do Festival.
Não é a primeira vez que um curta seu é premiado. A Escada foi o melhor de Gramado em 1998; O Postal Branco (1998), melhor roteiro em Miami; e Palíndromo participou do Festival Internacional de Berlim. Minha viagem é fazer algo experimental, mas que possa passar na televisão, explica o criador.
Publicidade é parte da vida do cineasta brasileiro, tanto que profissionais como Walter Salles, Andrucha Waddington e Beto Brant, entre outros, fazem ou fizeram cinema publicitário para só depois rodarem películas de longa duração. Com Philippe não está sendo diferente, ele trabalha duro em televisão e publicidade. Em 1999, dirigiu três episódios da série Futuro, na MTV, e, no ano seguinte, foi diretor de filmes publicitários na produtora O2 Filmes – que também co-produziria seu Palíndromo. Levou 15 comerciais ao ar e fez do ramo sua segunda escola. Aprendi a ter menos medo do set, a comandar grandes equipes e priorizar decisões, enumera, racional, mas sem esquecer das sensações íntimas. Existe uma solidão em ser diretor. Tenho que passar segurança mesmo quando estou com problemas.
Philippe [com ar decidido]: Não dá para ser cineasta no Brasil, mas dá para fazer filmes. Sempre fui outra coisa que não cineasta. Digo para mim mesmo que tenho outra profissão, que sou assistente de direção ou diretor de TV.
CENA 03 – SÃO PAULO/VILA MADALENA – INTERNA/NOITE
Fachada de uma casa de vila. Janela aberta. No quarto, um casal deitado na cama. O homem tem Kafka, Cortázar e um livro de matemática na cabeceira. À mão, um calhamaço de papel. Ele lê trechos de seu novo roteiro para ela. Debatem e, juntos, afinam cada passagem da história. No dia seguinte, estarão no set de filmagem de Janela Aberta [seu novo curta, em fase de finalização].
Philippe [emocionado]: A Fabi [artista plástica carioca Fabiana Werneck, de 28 anos] me fez menos solitário. Ela trouxe um pouco de humor aos meus filmes. Continuo com personagens masculinos e com a inquietação, mas agora há leveza. Levo uma vida dupla, cinema por trabalho e cinema por paixão, que só funciona porque ela é minha parceira.
Atualmente, Philippe filma a série Expresso Brasil, em que intelectuais apresentarão seus Estados natais, para a Rede Cultura. Em ação paralela, como sempre, desenvolve outro projeto: seu primeiro longa. O filme, ainda sem título, mostrará o relacionamento humano como possível solução para os conflitos dos personagens. Até o longa se tornar realidade, serão necessários três anos. Para o diretor Carlos Reichenbach, o cinema tem obrigação de ser relevante e Philippe está no caminho certo: Ele desenvolve a linguagem cinematográfica, diz Carlão: Não é mais um querendo contar historinhas. Com seu primeiro longa, Barcinski acredita ser mais fácil atingir seu objetivo com a arte: Não me vejo fazendo um grande sucesso comercial como Walter Salles, e deixa claro que o que lhe importa é que seus filmes se tornem um fato cultural na vida das pessoas. Quero que elas se lembrem deles.
Videoteca básica
Os dez melhores filmes para a vida, segundo o cineasta:
– 2001 Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick
– Alice, de Jan Svankmajer
– As Quatro Estações, de Pelechien
– Bang Bang, de Andrea Tonacci
– Decálogo, de Zrzystof Kieslowski
– Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha
– ET, de Steven Spielberg
– Repulsa ao Sexo, de Roman Polanski
– Três Homens em Conflito, de Sergio Leone
– Verdades e Mentiras, de Orson Welles
Os melhores sites para quem gosta de cinema, segundo o cineasta:
INFORMAÇÕES SOBRE FILMES (banco de dados)
www.imdb.com
EQUIPAMENTOS
www.apple.com (computadores para edição)
www.vsttech.com (HD para edição)
CÂMERAS
www.bhphotovideo.com
FESTIVAIS INTERNACIONAIS
www.filmfestivals.com
FESTIVAIS NACIONAIS
www.kinoforum.org
EDITAIS FEDERAIS – CONCURSOS DE ROTEIROS
www.minc.gov.br
REVISTAS
www.revistadecinema.com.br
www.contracampo.he.com.br
CURTAS NA INTERNET
www.atomfilms.com
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