por Arthur Veríssimo
Trip #221

’’Humor é coisa séria, é liberdade. Basta ver os países ditatoriais, ali não existe humor’’

Ao longo da minha vida, gurus, escritores, divas, livres-pensadores e figuras atípicas em geral impregnaram o meu modo de ser, pensar e anarquizar. São os meus heróis. No universo do humor, desde a infância acompanhava gargalhando e imitando com o meu pai tudo aquilo que mestres como Jerry Lewis, Chico Anysio, Os Três Patetas, Charles Chaplin, Monty Python, Jô Soares, Golias, Catifunda e Os Trapalhões faziam.

Sempre fui adepto do humor, da gozação, da paródia e do esculacho em geral. No mais recôndito esconderijo da minha psique, um personagem esteve presente nas minhas brincadeiras e palhaçadas diárias. Uma criatura transcendental, imortalizada pelo seu criador, o ator e humorista Jorge Loredo, que conquistou milhões de fãs por todo o Brasil, com seus bordões invadindo lares e botequins. Com vocês, Zé Bonitinho!

Em pleno coração de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, a porta da esperança se abriu e Jorge Loredo desceu do carro cumprimentando todos com extrema elegância e confirmando: “O chato não é ser bonito, o chato é ser gostoso”. Atônito, me ajoelhei diante daquela pessoa que marcara profundamente a minha vida. Estava frente a frente com o mentor do personagem Zé Bonitinho.

Meu inquietamento é notório. Desejo aprender tudo – técnicas, trejeitos, gags, bordões e idiossincrasias – deste artista fascinante. Afinal, quem não quer ser o “perigote das mulheres”? Avant-garde desde períodos ancestrais, Loredo desafia a caretice em um manancial inesgotável de sabedoria, tragédia e humor. Aos 89 anos, destila como ninguém detalhes minuciosos de seu passado glorioso.

Vou direto ao ponto, quero saber da mulherada nos tempos áureos. Jorge fazia jus aos bordões de Bonitinho? “Que nada, Arthur, sempre fui tímido com as beldades”, responde o humorista. E acrescenta: “A maioria dos artistas e comediantes é introvertida por natureza. Meu mestre Oscarito parecia um professor de latim. Não gostava de ser engraçado pessoalmente. Os grandes humoristas e comediantes que conheci passaram por sofrimentos e tragédias. A maioria sofre ou sofreu bastante bullying e preconceito”.

Zé perigote

Nossa conversa atravessa a trajetória de vida deste magistral comediante. Jorge resgata seu encontro com o mestre da mímica Marcel Marceau. Conta que estudava teatro nos anos 50 e 60, quando o francês veio com sua companhia ao Brasil. “Em sua apresentação-aula, Marcel me chamou para ser cobaia de seus movimentos no púlpito. Fiquei realizado. Ao final, fui convidado para ver seu espetáculo no Teatro Municipal. Até hoje não me esqueço. Ele fez, sozinho, o homem e o vento. Você jurava que estava ventando e ele se defendia do vento. Arte pura”, conta o comediante.

Veneração e entusiasmo dão o tom do meu estado de espírito. Recordando as muitas vezes que imitei os trejeitos e olhares deste Casanova tupiniquim, fui entrando no clima. Pergunto a ele sobre a origem de seus personagens. Afinal, de onde veio Zé Bonitinho? “Meu caro, o humorista de talento possui as mesmas qualidades de um grande fotógrafo. Ele vai observando e construindo seu personagem. O Zé Bonitinho nasceu de muita observação”, conta ele. Segundo o mestre, ele morava no bairro da Tijuca e passava os dias numa praça com uma turma de amigos, conversando e observando as garotas passarem. “Um deles se chamava Zé Perigote. Ele foi minha fonte de inspiração. Copiei tudo dele. Ele olhava uma mulher e dizia: ‘Aquela ali, huummmm’ ou ‘Aquela outra já peguei’. Se gabava de que havia estado com todas. Incrédulos, um dia o colocamos no paredão. Apontamos uma beldade de difícil acesso e comprometida. Ele disse: ‘Espera’. Um dia ela foi ao cinema sozinha. Ele sentou atrás dela. A mulher saiu e o sujeito nada. Depois veio com um sorriso dizendo: ‘Mais uma’. Descobrimos que o cara era uma grande farsa, não pegava ninguém.”

O tempo escoa e vou direto ao ponto. Não posso perder a oportunidade de aprender com o Zé Bonitinho como ter "a mulherada correndo atrás, mesmo sem ser bujão de gás”. Pergunto ao mestre: “Jorge, você poderia me ensinar a arte de cortejar do Zé Bonitinho?". A lenda viva responde: “O negócio é o seguinte: você dá um olhar de desprezo e finge que não presta atenção. Fica sentado naquela pose clássica de pernas cruzadas do Albert Einstein. Você despreza, até que um dia vai se aproximando e tem o acasalamento. É a dança do lobo e da loba”.

Câmera, close!

Enquanto recita, percebo que Jorge incorpora o personagem e sigo seus movimentos como um fanático. Pequenas nuances vão se revelando, como a passada do dedinho na ponta da língua combinada com a perfeita levantada de sobrancelha. Repito milimetricamente o conjunto da obra. Segundo o mestre, o clímax que garante o enlace com a beldade está na lambida. Ensaio com ênfase e dedicação e finalizo com o clássico bordão: "If I had a thousand women, au auuu auuuuu". O guru das cantadas sorri, aprovando meus movimentos.

Sou ligeiro e pergunto sobre stand-up comedy e os comediantes atuais. Loredo diz: “Aceito todos os movimentos. Humor é coisa séria, é liberdade. Basta ver os países ditatoriais, ali não existe humor. Brincando se passa uma mensagem. Os mestres Carlitos e Buster Keaton, por exemplo, transmitiam ideias com muita sabedoria”.

Autêntico aristocrata que é, sem dispensar nenhuma mesura ou salamaleque, nosso convidado se despede e não perde a oportunidade de dar uma sutil cantada em nossa produtora. Fiquei na minha, decodificando seus trejeitos. Seria aquele Jorge Loredo ou a entidade sedutora de Zé Bonitinho? Câmera, close!

Agradecimento: Brechó Minha avó tinha

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