por Luiz Guedes
Trip #226

Com motor de Variant, faróis de Passat e lanterna de Corcel, o esportivo Ventura foi fruto da criativa indústria nacional

O design arrojado da carroceria modelada em fibra de vidro foi criado em cima de um Volkswagen SP2. O chassi e o motor eram os mesmos da perua Variant. Os faróis vieram do Passat, as lanternas, do Ford Corcel, e as maçanetas de portas foram cedidas por um Alfa Romeo. Ainda assim, o conjunto batizado de Ventura fazia sucesso, despertava cobiça e atraía olhares curiosos nas ruas. Tudo como se fosse uma grande e exclusiva novidade. Como no mundo mágico da televisão e do cinema, imagem era o que realmente importava na criativa indústria de veículos fora de série. Receita que povoou sonhos e dominou o cenário automobilístico brasileiro de 1976 a 1990, quando as importações eram proibidas no país.

Afinal, por mais recheado que fosse o bolso do sujeito, as opções de compras naquele período estavam limitadas aos defasados modelos paridos pelas fábricas brasileiro. Terreno fértil que possibilitou o nascimento de marcas independentes como Puma, Lorena, Bianco, Miura e o próprio Ventura, produzido pela empresa paulista L’Automobile entre 1978 e 1988.

Feito em escala reduzida, o Ventura não teve mais do que 120 unidades, fabricadas seguindo o mantra que também ditava a concorrência: com métodos artesanais, misturava elementos manjados de diversos modelos de linha e os vestia numa nova roupagem, dando vida a um produto de aparência única. Ou, melhor ainda, com uma aparência que remetesse aos cultuados e inatingíveis esportivos italianos. Afinal, a ostentação material sempre esteve enraizada na cultura da elite tupiniquim, sendo o automóvel o símbolo máximo de exibicionismo.

Esportivo de araque

“Hoje alvo de colecionadores, carros como o Ventura custavam uma fábula na época. E os ricos que os compravam adoravam desfilar nas ruas como se estivessem a bordo de um legítimo importado”, narra o cantor italiano Tony Angeli, 71 anos, proprietário de um raro exemplar 1982 adquirido em meados de 1997, “quando os esportivos fora de série caíram em desgraça e foram desvalorizados pela invasão dos importados, após a abertura de mercado no governo Collor”, destaca o cantor.

Mas se por baixo da carcaça os fora de série eram tidos como esportivos de araque, empurrados pela mesma e nada empolgante mecânica do Fusca, por outro lado, o visual e a criatividade de suas carrocerias despertaram desejos além de nossas fronteiras. O Puma, por exemplo, chegou a ser exportado para mais de 50 países. O Bianco roubou a cena no Salão de Nova York de 1978, e o Ventura teve mais da metade de sua produção comercializada nos Estados Unidos. “Até por isso ele ainda hoje chama a atenção nas ruas. Ninguém o conhece e todos afirmam categoricamente se tratar de um importado”, finaliza Tony Angeli.

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