por Steven Allain
Trip #238

A arquiteta vive com o namorado em Bali, mas a história de amor entre eles começou antes

Na primeira vez que nos vimos, Camila nem me deu bola. Um amigo em comum nos apresentou numa balada, e ela mal notou minha presença. Os olhos radiantes, a boca grande, os longos cabelos cor de mel e as orelhinhas perfeitas (sim, orelhas são fundamentais para mim). Isso tudo me chamou a atenção. Mas a esnobada foi o que me atraiu.

Não me entenda mal. Sempre detestei joguinhos – e, portanto, garotas esnobes. Só que ali não era jogo. Ela realmente não deu a mínima para mim ou para qualquer outro marmanjo. Ela não tentava impressionar ninguém. Só queria dançar e ser deixada em paz. Isso a tornou muito mais interessante. Admiro mulheres que sabem mandar um “foda-se”.

Não desisti e esbocei um xaveco. Levei um toco. Com um misto de indignação e admiração, parti para o contra-ataque: peguei o telefone de uma amiga dela. Mas nunca liguei. Era só para aliviar meu ego ferido. Como disse, sou avesso a joguinhos.

Se a primeira vez que a vi foi um fi asco, a segunda foi ainda mais desanimadora. Na hora rolou o clássico:

– Oi, tudo bem?
– Tudo, e você?
– Tudo ótimo, bom te ver.
– Também.

Até aí, tudo normal. Não fosse o fato de que ela até hoje nem se lembra desse dia.

Passaram-se dois anos até que nos cruzamos de novo, numa padoca na Vila Madalena. Demorei a reconhecê-la – os cabelos agora estavam no ombro. Só que o olhar, o sorriso (e as orelhas) permaneciam os mesmos. Trocamos uma ideia e combinamos de nos ligar. Não botei muita fé – até alguns dias depois, quando recebi uma mensagem: “Vamos nos ver?”. 

No dia do encontro, eu estava no maior bode. Mandei um SMS explicando que me sentia cansado demais para sair. Ela não aceitou. “É do lado da sua casa, se anima e vem, pô!” 

Vesti qualquer coisa, calcei minhas inseparáveis Crocs e fui até o boteco, que ficava a duas quadras da minha casa. 

Quando a vi, linda e despretensiosa – num estilo boho-hippiecomprei- no-brechó-e-ficou-chique –, me arrependi de aparecer de Crocs. Mas já era tarde demais e ela gentilmente fingiu que não ligou.

O papo fluiu melhor que a cerveja. Voltei para casa surpreso. E preocupado. Surpreso, pois percebi que, além de linda, Camila era inteligente e divertida. Interessante. Preocupado, pois eu partia para uma viagem de um mês em poucos dias – e tinha pouco tempo para tentar conquistar aquela mulher interessante. Timing é tudo. E nosso momento era aquele. 

“Quer passar o fim de semana comigo na praia?”, mandei. “Sim”, apareceu na tela do meu telefone, alguns longos minutos depois. 

E foi aí que tive certeza de que ela era uma mulher diferente. Pois mostrou que, além de não ligar para opiniões alheias, é decidida. Tem atitude. Sabe o que quer. Nada de frescurinhas, joguinhos ou falsos pudores. A gente mal se conhecia, mas ela seguiu sua intuição e topou passar uns dias comigo. 

Isso foi há três anos. Desde então, estamos juntos.

Amor. Tesão. Paixão. Nosso relacionamento – como tantos outros – tem tudo isso, de sobra. Eu poderia preencher parágrafos com outras descrições meigas e mela-cueca. Mas a característica mais importante da nossa sintonia é simples – e, pela minha experiência, é em sua essência a mais rara: parceria. Parceria de verdade. Corajosa. Incontestável. Natural. 

Minha mulher não pesa, ela soma. Ela não atrasa, incentiva. 

Quando falei que queria trocar a Babilônia por Bali, ela nem pestanejou. É por causa dessa parceria que hoje vivemos aqui, na Ilha dos Deuses – e não em Sampa, reformando apê, encarando trânsito, planejando fins de semana na praia, montando enxoval ou seja lá o que faz um casal na faixa dos 30 que segue o roteiro à risca.

Sua atitude – seja para mandar um “foda-se”, saber o que quer ou se jogar no mundo por amor – é sua característica mais atraente.

Não sei o que o amanhã trará. Nem para onde nos levará. Só sei que, em vez de sonhar com um estilo de vida, hoje ele se tornou real. E me sinto feliz e pleno, com minha parceira ao lado.

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