CADA UM NA SUA MONTANHA
Superar desafios que põem em risco a vida do praticante é o motivo de alguns esportes atraírem cada vez mais praticantes
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Recentemente, o surfista norte-americano Mike Parsons, após embolsar R$ 60 mil por ter surfado a maior onda da temporada, declarou que não fazia aquilo por dinheiro e que muitos surfistas pagariam para estar no mar que lhe rendeu o prêmio, e concluiu: ‘Mil pessoas subiram o Everest, mas ninguém surfou uma onda de 30 metros. Isso sim é especial’.
É verdade. Até o fim do ano passado, o cume do Everest (8.850m) havia sido atingido 1.314 vezes por aproximadamente 980 pessoas diferentes. Para isso, no entanto, existe uma longa história.
Localizado oficialmente (para o mundo ocidental) em 1841 por Sir George Everest, foi inicialmente batizado Peak XV. A primeira expedição para a conquista do cume aconteceu em 1921, mas só em 1953, depois de 13 mortes, a dupla formada pelo neozelandês Sir Edmund Hillary e o nepalês Tenzing Norgay, utilizando oxigênio suplementar, chegou ao topo do mundo. Eles nunca revelariam quem chegou primeiro.
Foram necessários mais 25 anos e 27 mortes até que a dupla Reinhold Messner e Peter Habeler chegasse ao cume sem oxigênio. Para muitos montanhistas, escalar uma montanha com oxigênio é trazê-la para o seu nível em vez de elevar-se ao dela.
A primeira e única dupla brasileira a atingir o cume, com oxigênio, era composta por Waldemar Niclevicz e Mozart Catão, em 1995. Era a terceira tentativa brasileira e a segunda de Niclevicz, que, ao contrário dos pioneiros, se colocou, em entrevistas, como o ‘primeiro brasileiro’ a atingir o cume. Mozart morreu pouco tempo depois tentando escalar a parede sul do Aconcágua.
Até hoje, o Everest já fez 171 vítimas fatais, algo em torno de 17% dos que se aventuraram, uma média assustadora, mas superada por montanhas vizinhas como o Manaslu (26%), K2 (30%), Nanga Parbat (33%) e o Annapurna (51%). Esses são os índices médios, mas para os puristas – que não usam oxigênio – os números são ainda mais escabrosos.
A partir da comparação feita por Parsons, os fatos do Everest propiciam algumas reflexões. Foram necessárias décadas de desenvolvimento técnico para a montanha ser conquistada, enquanto o surfe de ondas grandes ainda está na adolescência, e a tal onda de 30 metros, por ser descoberta.
Quanto aos recursos, a questão do oxigênio para os montanhistas é comparável ao uso do jet ski para o reboque de surfistas nas ondas grandes. Até que ponto o uso dos aparatos tecnológicos valida uma conquista autêntica?
E essa pergunta leva à questão ética. É possível, especialmente com o auxílio do jet ski, surfar uma onda de 10 metros no rabo, o que já não seria nada fácil, mas muito mais tranqüilo do que encará-la na parte mais crítica. Na montanha, o termo ‘roubar’ é comum para aqueles que lançam mão de recursos que facilitam a escalada. Como nesses casos o registro por imagens é muito mais difícil, a ética é questão de honra entre os praticantes.
Por fim, a questão do risco envolvido. Superar desafios que deliberadamente põem em risco a vida do praticante é sem dúvida a grande diferença desses esportes e o motivo de atrair cada vez mais praticantes.
Conclusão? O praticante de BASE Jump, que em certas situações tem frações de segundos para comandar seu pára-quedas sob risco de virar patê, continua achando o esporte que ele pratica, sim, especial.
NOTAS
SUPER SURF
Começou na quarta-feira na praia do Cupe, Porto de Galinhas, PE, a quarta etapa do circuito brasileiro profissional. A prova inicia a segunda metade do circuito, liderado pelo alagoano Tânio Barreto, e vai até domingo.
WQS
Em Huntington, EUA, Marcelo Nunes (vice-campeão) e Rodrigo Dornelles (4º) foram os destaques brasileiros entre os 300 competidores. O californiano Rob Machado ficou com o título. Na Inglaterra, Edgar Bischof (3º) e James Santos (4º) foram superados pelo australiano Adrian Buchan.
CORRIDA DE AVENTURA
Formada originalmente só por mulheres, a equipe AXN Atenah ganhou o reforço de Sérgio ‘Zolino’ de Sá e venceu a quinta etapa do circuito brasileiro, disputada em Campos do Jordão. A equipe é a única brasileira inscrita para o Eco-Challenge.
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