BRIGA DE CACHORRO
Uma proposta de trabalho me tira da bagunça e do calor dos braços de Momo, me atirando no frio de 2 graus dos canais de Amsterdã
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Uma proposta de trabalho me tira da bagunça e do calor dos braços de Momo, me atirando no frio de 2 graus dos canais de Amsterdã. São sete anos desde minha última passagem pela cidade. Na memória costumo ser incapaz de manter em arquivo detalhes como jantares ou passeios especiais. Este, aliás, é um ponto que merece uns minutos de reflexão. Por mais que os japoneses desenvolvam câmeras digitais microscópicas e os finlandeses não parem de fazer celulares do tamanho de aspirinas, continuamos contando mesmo é com nossas memórias. Felizmente elas são muito mais capazes e infinitamente mais poderosas que as eletrônicas, especialmente quando se trata de arquivar sentimentos, e principalmente de selecioná-los. Aí está algo que me fascina. Ao menos no meu caso, não ha como dominar o disco rígido da memória, gravando aquilo que escolhemos, e aplicando nas ocorrências aparentemente dispensáveis, a fria lâmina embutida no botão ‘delete’. Assim, em vez de registrar em technicolor o jantar glamouroso com a mulher inesquecível, meu winchester particular insiste em manda-lo para algum lugar inacessável, e manter em arquivo uma cena aparentemente irrelevante de dois cachorros brigando, um preto sujo de lama na barriga e outro daqueles branquinhos como o do anuncio do Ig.
Tenho que deixar esquentar o velho 386 para resgatar o porquê de minha última visita a cidade em 94. Além de preparar a ida de meu colega Fernando, que partiria de trem a serviço da Trip para a Bósnia, com o objetivo de escarafunchar, nos escombros da guerra, vestígios de juventude tentando manter a esperança, tínhamos também a missão de registrar o que na época não tínhamos condição de saber, mas que depois revelou-se uma espécie de avô das ‘raves’.
Tratava-se de um encontro realizado uma vez a cada par de anos, no qual comunidades alternativas das mais distintas qualidades se reuniam para interagir e trocar experiências e informações, numa grande fazenda. Tendas gigantescas funcionavam como grandes dormitórios, boates, restaurantes, salões de massagem, centros esotéricos, laboratórios para experimentos sexuais, etc. Claro que a musica permeava cada centímetro daquele matagal colorido. Temos em arquivo centenas de fotos, imagens que ate hoje causam espanto e interesse em quem as vê, não fosse apenas pela liberdade em estado bruto que exalam, pelas belíssimas louras seminuas aproveitando o breve prazer do verão europeu, uma média de seis Susanas Werners (melhoradas) de seios de fora a cada 500 metros.
Lambidas e cheiradas
Não adianta, mesmo revendo as fotos ou passando novamente pelo local, tudo que meu filme interno insiste em mostrar é o ballet desengonçado entre os dois cachorrinhos engalfinhados no Vondelpark, entre cheiradas libidinosas e rosnados suspeitos. Talvez seja por isso que Amsterdã é, na minha observação, a mais perfeita aglomeração urbana do planeta. Mesmo com milhões de pessoas, sedes de algumas das maiores companhias do mundo ( A Heineken e a C&A, só pra começar), os museus mais incríveis e surpreendentes (no Stedelijk por exemplo está a interessantíssima obra artística que o ator Dennis Hopper desenvolveu nas ultimas décadas), todo o folclore da liberalidade em torno de drogas leves, sexo e outras bobagens, a civilização atingiu estagio elevado o suficiente para que as bicicletas sejam o meio de transporte de massa, e cães brincando no parque possam não só ocupar as memórias dos viajantes mas a primeira pagina dos jornais.
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