O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro dispara: “A escravidão venceu no Brasil”

Brasil é um país escravocrata, continua sendo. O imaginário profundo é escravocrata. Você vê o caso do menino amarrado no poste [no bairro do Flamengo, por uma milícia de classe média que o suspeitava assaltante] e que respondeu de uma maneira absolutamente trágica quando foi pego: “mas, meu senhor, eu não estava fazendo nada”. Só essa expressão, “meu senhor”... O trágico foi essa expressão. Continuamos num mundo de senhores. Porque o outro era branco. [...] Ou seja, trata-se de um país conservador, reacionário, em que os pobres colaboram com a sua opressão. Não todos, mas existe isso. A escravidão venceu no Brasil, nunca foi abolida. Sou muito pessimista em relação ao Brasil, digo francamente. Em relação ao passado e ao futuro. Em relação ao passado no sentido de que é um país que jamais se libertou do ethos, do imaginário profundo da escravidão, em que o sonho de todo escravo é ser senhor de escravos, o sonho de todo oprimido é ser o opressor.

trecho foi retirado de uma entrevista que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro concedeu ao jornal português Público em 16 de março deste ano.

Eduardo Viveiros de Castro, 63 anos, antropólogo e professor do Museu Nacional, no Rio de Janeiro – sonha com uma revolta popular no Brasil

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