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Boca suja

O copo mais sujo do mundo

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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O vidro é amarelado. Dentro, dois centímetros de terra, sementes e pó de guaraná. Na borda, uma camada de sebo, onde deve residir uma comunidade idílica de germes. Esse copo ? que serve de cachaça os visitantes de Guaraqueçaba, litoral do Paraná ? concorre para o livro dos recordes como o mais sujo do mundo. Isso mesmo: o recipiente tomou seu último banho em julho de 1981, época em que Figueiredo, Faísca & Fumaça e o Atari reinavam sobre a Terra. Passou o tempo, caíram a União Soviética, os Menudos e as Torres Gêmeas, mas a sujeira do Copo Sujo manteve-se incólume.


?Esse é o copo da fraternidade?, diz o dono, conhecido em Guaraqueçaba como Chico Mula, do bar ali da praça. Trata-se de um índio criado por xavantes e guaranis do interior de São Paulo, 64 anos, barriga saliente de cirrose, doença que o fez parar de beber há três meses. Um dia, quando foi dar uma volta pelo que chama de sertão (divisa do interior do Paraná com São Paulo), Chico encontrou um pé de café crescendo debaixo de uma casa. Resolveu salvar a planta, levando-a para Guaraqueçaba. No caminho, mergulhou-se em reflexões. ?Fiquei impressionado com a força da terra. Nada é mais forte que ela, e é para ela que a gente vai voltar. Então resolvi fazer uma cachaça curtida no pó da terra.? E qual é o pó da terra, Chico? ?O guaraná?, revela. O resultado, acredite, é a fina cachaça de alambique vendida em seu bar. Mas antes de apreciar o néctar desse surrado cálice, você precisa assinar o livro de presença ? as assinaturas de todos que já botaram a boca no copo sujo estão lá.


Para chegar até Guaraqueçaba e beber do copo sujo, você precisa viajar três horas de barco desde Paranaguá, ou enfrentar quatro de estrada de terra, cruzando um dos principais santuários de Mata Atlântica do país. Vá até a praça principal da cidade e olhe para o mar. À sua esquerda, estará o bar de Chico Mula. Subindo os 21 degraus que levam ao estabelecimento, você poderá ver toda a baía de Guaraqueçaba, e pedir para beber do copo. Quanto custa? ?É de graça, amigo. Como eu disse, esse é o copo da fraternidade?, finaliza seu Mula.
(Leandro Narloch)

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