por Sidão Tenucci
Trip #172

Enquanto a maioria de seus amigos fincava raízes, Antonio Brito corria o mundo atrás de ondas perfeitas e liberdade

Estava me achando o máximo por ter conseguido viajar por 40 dias, 25 deles surfando as esquerdas de Ala Moana Bowls, no costa sul da ilha de Oahu, no Havaí. Eis que me liga o Brito, do Panamá: “Estou na estrada há um ano e um mês: Indonésia, Costa Rica, Filipinas, Havaí...”. “Você é meu ídolo!”, respondi, num misto de admiração e inveja. Começou assim o desafio de tentar separar o personagem desta matéria do amigo de 40 anos. Bem-vindo à saga desse cara que desliza entre a música, o surf, as viagens, o plantio, as amizades e a convicção inabalável de que a liberdade é o maior patrimônio.

BRITO VIABILIZOU FINANCEIRAMENTE SEU ESTILO DE VIDA DESCOBRINDO PICOS REMOTOS E COMPRANDO PAISAGENS PARADISÍACAS A PREÇOS MÓDICOS

Antonio Mendes Brito. Nascido em 30 de abril de 1954, em São Paulo, Brasil. 54 anos. Cavalo no horóscopo chinês. “Os cavalos se mantêm, só precisam de pasto novo”, diz. Não é difícil adivinhar qual é o pasto preferido dele. Brito, como é conhecido pelos amigos, foi inoculado pelo vírus do surf aos 13 anos. Considera o dia 6 de janeiro de 1968 um marco fundamental. Foi quando pegou onda pela primeira vez. O fato determinou quem ele seria e o que faria para o resto da vida. Entendeu e aceitou o destino do mar. A partir daí foi um dos brasileiros desbravadores do Havaí, em 1975; de Bali, em 1978; desvendou a praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, em 1980; e, finalmente, a cidade de Itacaré, no sul da Bahia, em 1988. Essa pacífica inquietude parece não se satisfazer enquanto houver fronteiras e sentimentos inexplorados.

Dentro da índole própria do surfista, de procurar sempre os picos mais remotos, estava contida a fórmula de viabilizar financeiramente esse tipo de vida: chegando antes aos lugares, encontrou as oportunidades para comprar paisagens paradisía­cas a preços módicos. Brito fez ótimos negócios para amigos e os melhores para si, como corretor de terrenos localizados em áreas desconhecidas, esquecidas ou desprezadas. Isso lhe deu ainda mais espaço para exercer o seu instinto de cavalo chinês: “Tem muro, o cavalo quer pular. Imprescindível é a minha liberdade”.

MÚSICA NA VEIA
1953. As primeiras notas musicais entraram na sua vida quando ainda respirava pelo cordão umbilical. Família de músicos. A mãe tocava piano para o bebê ainda na barriga. O pai dedilhava o banjo. O casal de irmãos gêmeos, 13 anos mais velhos, tocava piano e violão. Inescapável. Já nascido, Brito parava de chorar “no mesmo segundo” que ouvia música.

Aos 10 anos, ele enfrentava intermináveis aulas de escalas musicais com a severa professora germânica de piano, didática que quase abafou seu tesão musical. Mas Brito, numa manobra recorrente durante a sua trajetória, a de se ver livre de cobranças e incômodos desnecessários, escapou das suas garras migrando para o bongô. Depois vieram a bateria, o djambé, as congas e a flauta transversal.

Em 77, quando morava no Havaí, formou uma banda de surfistas com Pat Rawson, um dos melhores shapers das ilhas, no piano e Jimmy Irons, tio do campeão mundial de surf Andy Irons, no sax. Em 88, excursionou por Austrália, Indonésia e Japão, sem deixar de surfar, claro. Em 89, participou do Free Jazz Festival com a banda Aquilo Del Nisso. “Considero a minha missão fazer as pessoas se sentirem felizes e bem através da música”, diz, olhando para o mar do Guarujá, local desta entrevista, onde ele tem um apartamento.

Toda essa trajetória musical – incluindo o repertório materno intra-uterino de standards, Hendrix e Steve Wonder – iria se materializar em 2006, no CD Taken by the breeze, nome da canção que ele compôs para o disco, no qual canta, toca diversas percussões e é acompanhado de músicos de primeira linha.

Gilberto Gil e Tom Jobim continuam sendo seus músicos prediletos e rolaram soltos na jam que gravamos durante a entrevista. Como nos tempos do Haleiwa Road Group, nossa banda no Havaí, em 75. Brito no djambé , eu no violão, Roberto Teixeira na gaita e AD na lata de Coca-Cola com areia. Os bons novos tempos, com o ritmo controlado num metrônomo amadurecido.

O histórico escolar de Brito não é dos mais brilhantes, no sentido tradicional, já que não via motivos razoáveis para “ficar parado em sala de aula”. Estudou no Vila Brandão, no Dante Alighieri (de onde foi expulso por “formação de gangue”), no São Luís e no Bandeiras. Com 17 anos foi parar na Faculdade de Arquitetura de Mogi das Cruzes, em companhia dos amigos e surfistas Thyola, Carlos Motta e Marcelo Villardi. Mas aí já estava ganhando algum dinheiro com a fábrica de pranchas MOBY – que começou em São Paulo, em 1968, e que, ao se transferir para o Guarujá, em 1971, tornou-se a primeira da ilha. Nesse período acelerou a produção e, com 19 anos e financeiramente independente, abandonou a faculdade. “Melhor não ter me formado. Para mim foi até melhor financeiramente. Eu estava gastando meu tempo. Tem de ter a sensibilidade de saber qual a sua missão.”

PONTO DE VIRADA
Brito queria viajar e pegar ondas. Simples. A viagem para o Peru, em 1972, o colocou em contato, como ele diz, com “a atração indefinível pela estrada desconhecida”. Nunca mais seria o mesmo, ou melhor, finalmente passou a ser plenamente ele mesmo. Nessas primeiras viagens, algumas pessoas em sua volta pressionavam para que ele sentisse culpa, mas essa não parecia ser a vocação do nosso amigo. “As pessoas, inconscientemente, te cobram por você querer abandonar a doutrina básica que o sistema impõe. Elas querem que você se sinta culpado por buscar a sua própria liberdade. É mais egoísmo as pessoas quererem te castrar, te segurar, do que você viajar, crescer e voltar se relacionando melhor com todos. Quando você volta tem o triplo de amor para dar.”

Em 1974, com os amigos Zé Roberto Rangel, Thyola, Marché e eu, rumou para mais uma viagem de descobrimentos. Surfou pela primeira vez Equador, El Salvador, Costa Rica, México e invadiu a Califórnia, onde o estilo de vida de Santa Cruz o encantou. Pôde perceber a forma como os californianos da época respeitavam as pessoas pelo que elas eram e não pelo que possuíam. “O prefeito conhece e respeita o cara que entrega a pizza. Pensei: existem outras opções de vida!”. Resolveu morar na Califórnia por três anos. Estudou artes na Cabrillo College, especializando-se em joalheria. Foi uma concessão. Na verdade o diploma foi mais para o pai que para ele.

Num dado momento, no entanto, a saudade da família e dos amigos apertou. Balançou, pensou em voltar, mas algo lhe dizia que aquele era o caminho correto. Apesar da dor, decidiu ficar. Esse foi o turning point. O portal. A partir daí tudo rolou mais fácil. “O fato de eu ter ficado foi tudo.” A persistência e a coragem combinadas fizeram a diferença. Entrou numa banda na Califórnia, trabalhou com jóias, ganhou uma grana e foi morar no North Shore de Oahu, no Havaí.

Brito me contou uma história de que eu não lembrava: na sua primeira aterrissagem no Havaí, em 1975, foi direto para o North Shore e pediu que o desovassem em Pipeline. O primeiro cara que ele encontrou na praia, descansando de uma session, era eu. O que ele não sabia é que eu tinha acabado de sair da minha mais traumática experiência nas ilhas. Um quase afogamento em Pipe, quando fui envelopado por uma onda de uns 8/10 pés daquela ondulação danada de norte/oeste. Depois de perder quase todo o ar e ser arrastado pela correnteza até Rocky Point, consegui voltar para a praia e peguei minha prancha. Foi nesse exato momento que o Brito chegou.

Em 78 resolveu dar uma banda pela Austrália e, de quebra, abriu o cinto da castidade de bambu de uma Indonésia virtualmente intocada. Bali Paradise. Não satisfeito, voltou para o Havaí e morou em Kauai, uma das ilhas mais isoladas, o ano inteiro de 1979. Em 1980 resolveu fazer, de carro, a conexão Guarujá – Piauí, para ver se encontrava o melhor pico possível para se estabelecer. Foi parar na praia da Pipa e lá ficou durante seis anos. Foi nesse época que ele se casou com a guarujaense Rosana Marques e que nasceu seu filho, Kalani. Hoje, aos 26 anos, Kalani segue os passos parafinados do pai, numa aprovação mais que tácita, enfática, desse estilo de vida. É fotógrafo profissional de surf e roda o mundo atrás das ondas.

Em Pipa, uma vila de pescadores então isolada, Brito exerceu uma de suas paixões: o plantio. “Terra boa de plantar, proximidade com as ondas, descontração, mentalidade local diferenciada em relação ao tempo...” Foram essas as razões para ele sossegar o facho por algum tempo. “Quando eu tinha 4, 5 anos ficava fascinado de ver a semente que você colocou na terra crescer e se tornar uma planta. É um dos poucos milagres na Terra do qual nós podemos participar ativamente.” Essa inclinação agrária resultou, por exemplo, em pelo menos 200 cajueiros semeados por ele em 84 na praia da Conceição, em Fernando de Noronha. Brito ia andando, abrindo a terra, jogando um caju, fechando e seguindo em frente para o surf. “É importante plantar, seja para quem for colher.” Em 1988 descobriu Itacaré, no sul da Bahia. E está lá, entre viagens anuais para a Costa Rica, até hoje. “É a base.” Ufa! Peguei jet lag só de ouvir.

PEQUENA MORTE
Qual a receita da energia de Brito? “Reposição hormonal via oral”, brinca. “Não alimentar os maus pensamentos e maus sentimentos.” Ele parece praticar a calma e a parcimônia em todas as atividades: “Uma hora e meia na frente de um prato de comida, no relógio, comendo”. Que mais? “Quando você tem 20 anos dá duas, três em duas horas. Aos 50 pode fazer uma durar duas horas. Curtindo com calma cada flor do caminho...” Os hindus acreditam que cada orgasmo é uma “pequena morte”. Brito trabalha com afinco para adiar as pequenas e a grande.

O fato de, diferentemente de Tim Maia, Brito praticar zero droga, não beber, não fumar e não mentir sobre isso ajuda muito. Fora os amigos das antigas, Brito convive mais com pessoas na faixa dos 20, 30 anos. Por quê? “Têm mais disposição física e têm uma visão de futuro pela frente. Ainda não desistiram. Eu estou para dormir cedo, acordar cedo e pegar onda. Não me imagino tomando todas e fumando com uns caras bêbados num bar. Nem amarrado!”

“POSSO IR AONDE EU QUISER, A HORA QUE EU QUISER, E FICAR COM QUEM EU QUISER. ACORDAR VIVO E COM SAÚDE É UMA BÊNÇÃO MONSTRUOSA”

Todo esse gás tem alguma coisa a ver com o estilo de vida escolhido, com a opção pela liberdade? “Tudo”, garante. “Muitos dos que diziam que eu era maluco hoje dizem que eu fiz a coisa certa. Falam pra mim: ‘Eu fiquei por aqui. O que é que eu lucrei?’. Mas nunca é tarde demais. Esse negócio de ser velho está na cabeça. Hoje, aos 54 anos, cheguei à melhor parte da minha vida. Posso ir aonde eu quiser, a hora que eu quiser, e ficar com quem eu quiser o tempo que eu achar que está bom. Acordar vivo e com saúde é uma bênção monstruosa.”

PARA BRITO, “AS PESSOAS, INCONSCIENTEMENTE, TE COBRAM POR VOCÊ QUERER ABANDONAR A DOUTRINA BÁSICA QUE O SISTEMA IMPÕE. ELAS QUEREM QUE VOCÊ SE SINTA CULPADO POR BUSCAR A SUA PRÓPRIA LIBERDADE”

Não dá para discutir com um cavalo chinês que soube pular todos os muros e permanecer livre do cabresto e dos arreios sociais, enquanto a maioria está ralando na marginal do Tietê.

* Sidão Tenucci é jornalista, escritor, surfista, diretor de marketing da OP – Ocean Pacific e autor do livro O surfista peregrino

 

 

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