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Batendo Bem

A pelada terapêutico-recreativa do Instituto Pinel

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Duas vezes por semana, internos e ex-internos do Instituto Pinel do Rio de Janeiro reúnem-se para uma pelada terapêutico-recreativa. Ali, quando sai um gol, todos têm o direito de gritar com justa causa: Ah, eu tô maluco!
A bola rola no gramado. Em campo, dois times heterogêneos, formados por velhos, mulheres e garotões. Todos suam a camisa e dão o sangue. No meio do jogo, uma torcedora feliz cruza o campo sem se importar com a bola, desarmando um lance que prometia desfecho. O juiz manda seguir. Mais tarde, o goleiro, visivelmente fora do seu ambiente, resolve abandonar a partida deixando o gol livre para os adversários. É o futebol dos pacientes psiquiátricos do Instituto Pinel.
O técnico é uma lenda do futebol: Afonso Celso Garcia, médico, ex-meio-campo do Vasco da Gama, primeiro jogador a obter o passe livre no Brasil. Todas as terças e quintas, o Prezado amigo Afonsinho (como é cantado na música Meio de Campo, de Gilberto Gil) passa pelas enfermarias do Pinel escalando os atletas que estejam em condições de jogo. Os clássicos acontecem numa área de lazer ao lado do Instituto, dentro do campus da UFRJ na Praia Vermelha. Além de internos ? a maioria, proveniente de comunidades carentes do Rio ?, participam ex-internos, pacientes ocasionais, jovens da redondeza e outros doidos por bola que se aventuram pelas imediações.


Suar a camisa de fora
O programa existe há seis anos. É uma das alternativas de tratamento implementadas no hospital, depois da reforma psiquiátrica. Nas peladas, os avoados esportistas exercitam a convivência e interagem com a comunidade. Um jogo de futebol pressupõe disputa, que mobiliza, envolve e estimula situações de convívio, propõe Afonsinho. A atividade em grupo é importante para o paciente testar os limites. E do outro lado, os garotos que participam das partidas aprendem a não ter preconceito dos doentes.


Os jogos sempre atraem figuras divertidas. Certos maluquinhos chegam para assistir à partida e incorporam o papel de comentarista, narrando com entusiasmo cada movimento da pelota. Existem também jogadores que se empolgam de tal maneira com a atividade que insistem para serem lançados no futebol profissional. A tônica ali é a diversidade. Independentemente do sexo, idade, ou grau de extravagância, qualquer um pode participar.


Gilson Secundino, o Professor, é paciente do hospital e vende livros no Instituto. Formado em história e filosofia, também freqüenta as partidas e não é de economizar nas palavras. O futebol é uma catarse que elimina o mal dentro da gente. As coisas negativas vão se soltando naturalmente: em vez de você dar um tapa na cara de alguém, chuta a bola, ventila ele, que afirma ser a amizade o maior valor aprendido em campo. Aqui ninguém discrimina ninguém, conta o botafoguense.


A seleção do Pinel também busca desafios em outros gramados. O time já jogou contra o Hospital Pedro II, de Engenho de Dentro, e contra o time do Corpo de Bombeiros, em Paraty. O próximo clássico, ainda sem data marcada, será entre a seleção do Pinel e os craques do Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, em Niterói. Vai ser uma loucura.


(Marcelo Bortoloti)
 Foto Pedro Arruda

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