AVANTE CACHORRADA
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Faz um ano hoje que publiquei meu primeiro artigo nesse espaço. Desde fevereiro passado, toda sexta feira paro tudo, jogo a carcaça sobre meu velho sofá de couro e deixo a tensão do prazo sair em perseguição ao pensamento solto que flana pelo céu procurando um ‘overview’ interessante de alguma cena ou situação sobre a qual valha a pena falar.
A única condição para aceitar o convite e assumir este compromisso semanal, foi justamnente a liberdade absoluta. Não sei se há no Brasil, muitos outros veículos saudáveis e independentes o suficiente para bancar este tipo de exigencia. Acho que é esse inclusive, um dos principais motivos da arrancada feroz empreendida pelo JT nesses últimos meses.
Semana passada estive na redação pela primeira vez desde que comecei a escrever esta coluna. Havia muito tempo que não visitava o prédião da Marginal que abriga o JT e o Estadão. Notei muitas diferenças com relação a minha última visita, mais ou menos 4 anos atrás. Sempre houve muita gente jovem por lá, o que nem sempre é sinônimo de idéias arejadas e de sangue novo. Na verdade, na última vez que estive lá, tive a nítida impressão de passear pelos corredores de uma repartição pública onde um bando de gente infeliz espera angustiada pela hora de bater o ponto e deixar o cárcere.
Felizmente mudou tudo, Vi gente mais bonita, nítidamente mais feliz. Claro, a tensão continua no ar. O jornal cresceu, tem sido mais visto, reverbera forte em São Paulo, em Brasília, e outros Estados. A responsabilidade aumentou, os prazos são implacáveis. Produz-se muito, porém, me pareceu certo de que as pessoas daquela redação tem tempo para viver. Vi gente que conheço da praia, cruzei alguns orstos familiares, que já vi passando pela cidade, em alguma porta de cinema, em algumas bancas de frutas. Pareciam estar vivas.
Minha surpresa tem motivo. Já escrevi em outros jornais, até bem maiores em termos de veiculação. Quando era inacreditável ir à redação, sentia um incômodo seríssimo.
Antes mesmo de sair do elevador, já era atingido pelas ondas de ‘bad vibes’ soltas no ar. Era muito nítido o clima de competição hostil entre visinhos de cadeiras. Ninguém gostava de ninguém, não havia janelas, apenas a luz branca refletida ou narizes empinados e engordurados de cansaço. Cada editora travestia-se de um pequeno olimpo onde um Califa e cinco ou seis grão-vizires decidiam quem seria poupado e quem seria esgarçados pelas garras do leão.
A impressão era de que o único contato que aqueles seres, que se alimentam de faxes tinham com a vida real era nas visitas periódicas ao alfaiate quando orgulhosos, encomendavam novos jogos de blazers com ombreira copiados da última edição da QG.
Gostei do que vi por lá e, este clima tem se refletido nas páginas do jornal, muito mais arejadas, permeáveis, cheias de opinião e relatando sensações de verdade. O JT parece ter percebido que nos tempos atuais, a notícia como simples relato é mercadoria com excesso de oferta e demanda cada vez mais limitada. Opinião e estilo de outro lado, tem seu valor aumentado e são desesperadamente desejados na razão inversamente proporcional
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