As lições da Jive

por Alê Youssef
Trip #213

Youssef: a Jive e as dificuldades que os donos de clubes enfrentariam em SP

Criada na rua Caio Prado no começo dos anos 2000, a casa noturna dos irmãos Cecci foi uma espécie de laboratório sobre as dificuldades que os donos de clubes enfrentariam na cidade de São Paulo

No início dos anos 2000, a rua Caio Prado parecia um endereço bem ousado para um clube noturno tentar se estabelecer. O lado direito da rua da Consolação, em direção ao centro, estava ainda longe dos tempos da revitalização: a rua Augusta e arredores viviam um dos piores momentos, sem vida cultural ativa e repleta de bingos horrorosos. A dificuldade aumentava ainda mais para um projeto que tinha claramente a proposta de resgate musical de gêneros que andavam um pouco esquecidos: o samba rock e o swing brasileiros, os ritmos latinos e as experimentações da black music não estavam em voga e era um desafio mobilizar gente para fazer vingar o negócio. Mas, quando os irmãos Alex e Marcio Cecci abriram o Jive, todas as avaliações mais pessimistas caíram por terra. O clube, que ocupava a loja térrea de um edifício residencial, se transformou em pouco tempo em ponto de encontro de uma boa parte da cidade: DJs, MC’s, artistas plásticos, produtores e jornalistas batiam cartão no local.

Naquela época eu não era um assíduo frequentador da noite da cidade, mas sabia mais ou menos o que acontecia, tinha algumas referências das casas mais importantes. Com a Jive tive a primeira imersão no mundo da noite. As clássicas noites do DJ Don KB e MZK eram imperdíveis e, de certo modo, me fizeram compreender claramente a diferença entre a noite hedonista e a noite conceitual, compreensão que levei comigo nos projetos que fiz no futuro.

Máfia fiscal 
A Jive também foi para mim uma espécie de laboratório sobre as dificuldades que os donos de clubes enfrentavam na cidade. Naquela época, ao mesmo tempo em que eu frequentava as noitadas da casa, estava assumindo minhas funções na Coordenadoria da Juventude da Prefeitura de São Paulo e, como parte das minhas atribuições, tinha que me relacionar e zelar pela força da noite conceitual e criativa da cidade, onde muitas das expressões da cultura e do comportamento jovem surgiam e se consolidavam. Com isso, o frequentador que adorava tomar cerveja ouvindo Bebeto e Gerson King Combo das pickups de Don KB se deparou com demandas objetivas e justas vindas dos irmãos Cecci, que sofriam os tradicionais achaques dos fiscais e tinham sérios problemas com os moradores do edifício onde o clube estava, principalmente por causa do burburinho que a porta da concorrida casa gerava.

Sabendo da importância da Jive para a cultura da cidade, me joguei numa verdadeira cruzada interna na burocracia municipal, na tentativa de defender o espaço, e fui compreendendo pouco a pouco a histórica e completa falta de conexão entra a noite e a prefeitura da cidade. Foram longos meses de articulação que envolveram subprefeitos e secretários municipais, mas que, infelizmente, resultaram no fechamento da casa pela intransigência dos vizinhos. Mal sabiam eles o quanto clubes como aquele valorizariam o bairro e, consequentemente, seus próprios imóveis, alguns anos mais tarde.

Depois do episódio Jive, a defesa da vida noturna da cidade acabou se transformando em uma função fundamental do meu trabalho naqueles anos de Coordenadoria de Juventude. A falta de articulação da cultura alternativa demandava uma ação de apoio e suporte para enfrentar a máfia da fiscalização e a caretice cultural que espantavam os pequenos empresários da noite. Infelizmente, nesses aspectos, apesar dos muitos anos, dos diferentes partidos políticos e dos novos governos, pouca coisa mudou.

*Ale Youssef, 37, é criador do Studio SP e do Studio RJ, um dos fundadores do site Overmundo e apresentador do programa Cartas na mesa no canal GNT. Foi coordenador de Juventude da Prefeitura de SP (2001-04). E-mail: alexandreyoussef@gmail.com/Twitter: @aleyoussef

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