Trip
As Dores do Mundo
em 28 de junho de 2013
A Dor e o Trauma
Hoje um filme (“O Substituto”) me emocionou profundamente e depois me remeteu a reflexões acerca de minha relação com a dor. A dor física sempre me apavorou. E, desde pequeno, tive uma dose excessiva disso. Fui obrigado que me fazer forte para vencer o pavor e suportar o que viesse, mesmo porque não havia como evitar. Não havia saídas ou quem tomasse minhas dores e me defendesse. Era apanhar, sofrer e chorar. Depois desenvolvi algumas “técnicas” pessoais de apanhar. Fingia que estava doendo mais do que estava realmente doendo. Gritava, fazia escândalo a cada pancada para que o algoz se sentisse satisfeito (sempre há sadismo), ou avançava cheio de ódio. Apanhava mais, mas parece que a raiva fazia doer menos.
Já a dor, tortura psicológica, tormento, angústia, depressão, eu tiro de letra. Fomos presos em 4 adolescentes, eu era o mais velho e tinha 19 anos. Um, depois de cerca de uns 10 anos de prisão, não aguentou mais a pressão e se enforcou. Outro tirou metade da pena que cumpri e saiu sem conhecer ninguém. Foi viver junto com os mendigos, nunca mais soubemos notícias. O ultimo enlouqueceu depois de uns 20 anos na prisão. Esteve em tratamento já enquanto preso e saiu cumprindo 30 anos de pena, meio abobado. A família diz que ele some e eles encontrá-lo tempos depois sujo, imundo e vivendo com o pessoal que mora na rua. Eu sai depois de 31 anos e 10 meses de prisão e creio que estou incontáveis vezes mais lúcido e consciente do que quando fui preso.
Para aprender a suportar o sofrimento, tive que mergulhar a fundo em suas raízes. O que me trouxe um problema dos mais sérios. Desenvolvi compaixão (se é esse o nome do que sinto) exacerbada e que me desequilibra. Prefiro sofrer a ver sofrer. Eu tomaria as dores dos que amo sobre os ombros com a maior tranquilidade do mundo. Tenho certeza que sofreria muito mais se os visse sofrendo. Sei que vou suportar, que vou gemer, xingar, espernear, mas vou aguentar sem sofrer tanto quanto os outros. A dor não vai me enlouquecer, mas estou traumatizado: tenho medo que os que amo não suportem.
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Luiz Mendes
19/06/2013.
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