Trip
Arrependimento
em 11 de março de 2015
ARREPENDIMENTO
O que se ganha com tudo isso de dor e tristeza na vida? Assisti um filme que me responde: tudo o que pudermos aprender. A história versa sobre um jovem que, por razões políticas, na Espanha, mata três pessoas e vai preso. A sua terceira vítima, um policial já baleado e indefeso, pede que não o mate. Tem filhos e esposa para sustentar. Ele o mata, implacavelmente.
Vai sofrer agruras da prisão especial destinada aos “CEs” (Condenados Especiais). O jovem esta fechado em suas convicções e ama a dor de sofrer pelo que considera verdadeiro. Os guardas da prisão o torturam. Ele se fecha e acumula ódio para sobreviver.
Uma enfermeira faz os curativos diários em suas costas açoitadas, cheias de feridas. Ela apaixona-se pela coragem com que o sujeito encara o massacre a que esta sendo submetido. Alguns fazem o que mandam, outros o que podem, mas somente os que têm coragem fazem o que devem. Ela denuncia a prática desumana dos guardas e o preso é removido para uma instituição menos opressiva. Nesse processo, ele fica conhecendo os três filhos dela. Naturalmente eles se apaixonam e querem virar família.
O preso ganha novo alento. Começa a pintar e seus quadros têm muito boa aceitação. A vida parece caminhar para a pacificação. Um de seus amigos em busca de fuga, esconde arma dentro de uma de suas latas de tinta. Há uma denúncia e os guardas encontram. Em castigo, é removido novamente para prisão de regime duro, onde seu sonho de família se desfaz.
O sofrimento é aterrador. É então que ele começa a pensar que não tem direito de formar família. Remete-se ao policial que pedia pela vida em nome de sua família, e ele o matou. Arrepende-se dolorosamente ao perceber na carne, o quanto significava a família para sua vítima.
Eu, nesse momento, também entrei em parafuso. Também eu matei um guarda em um tiroteio, depois de um assalto. Não havia intenção de matar; ele, a vítima, viu o assalto e entrou de arma na mão, atirando em nós. Sei que não justifica, mas eu era uma besta então; tinha apenas 19 anos de idade e vivera toda adolescência nas instituições do governo para menores infratores. Não sei se ele tinha família. Não acredito que os 31 anos e 10 meses de prisão que cumpri, pagasse a estupidez de meu ato. Sei de minha responsabilidade e a assumo inteiramente. Já me ocorreu que posso ter impedido esse homem de continuar sua família, se é que ele tinha. Depois de haver assistido este filme, o arrependimento se abateu sobre mim com violência absoluta.
Construir uma família dentro da prisão. Casei e tenho dois filhos. Mas já me separei há mais de uma dezena de anos. Sai cheio de vontade de encontrar alguém para amar, ser feliz e construir família. Agora, depois de 11 anos, tenho uma companheira há dois anos. Não fiquei sozinho, será que fiz por onde? Diante das circunstâncias, dá até para pensar que sim.
**
Luiz Mendes
05/02/2015.
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