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Ana Paula e o padrão

Sobrancelhas franzidas e voz alterada

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Não é fácil. Há a culpa de ter sido parcial no passado para expiar. Há um país inteiro, e uma parte do mundo fiscalizando. As câmeras representam milhões de olhos inquisitórios. O patrão, a mãe, os colegas, as revistas de fofocas, o Vídeo Show, a cabeleireira, a CNN, a tia do Romário, o FMI…
Mesmo assim, é difícil justificar o tom arrogante tangendo a grosseria, adotado pelos âncoras da TV Globo, nos inquéritos, digo, entrevistas perpetrados aos candidatos à presidência da república.
Numa discussão sobre o tema, lançada pelo site Blue Bus semana passada, mais de cem usuários manifestaram indignação, em maior ou menor grau, pelo tom quase furioso de algumas entrevistas.
Não consegui ver todas. Nas que assisti porém, a falta de jeito dos entrevistadores era gritante.
Qual a solução para quem tem a missão de fazer entrevistas como essas? Como não ser grosso e mal-educado, sem cair na armadilha do favorecimento ou mesmo da simples suspeição?

E o quilo do alcatra, candidato?

Basta ligar na Record. É lá, por incrível que possa parecer, que há anos Boris Casoy dá aulas gratuitas de jornalismo. Não precisa gritar com ninguém, não apela a recursos questionáveis, repetindo à exaustão ‘Quanto custa o quilo do feijão, candidato? Quanto custa o quilo? Hein? Vou contar até dez… um, dois…’
Ao contrário, alternando afagos e ferroadas, desarma na manha o mais sabatinado dos falcões malteses, sem perder a ternura jamais. Décadas e décadas de redação nas costas, leituras infinitas, discussões de todos os matizes acumuladas no velho ‘hard disc’, anos de televisão ao vivo, sem medo do patrão, amarrado atrás do estúdio por um contrato bem costurado…
Parece muito claro que conseguir remover de políticos experientes, capazes das mais improváveis coligações, assessorados por verdadeiras milícias de raposas marqueteiras, um pouco do cascolac que recobre suas verdadeiras histórias e imperfeições requer experiência em igual medida.

O padrão do patrão

Não se pode ignorar que os profissionais da Globo destacados para a tarefa estejam longe de ser despreparados, ou simples locutores, como eram seus antecessores no passado não muito distante. Nem que a emissora tenha mudado radicalmente de postura nos últimos tempos. É porém difícil de negar que o modelo global de jornalismo, que ainda insiste em buscar um suposto ‘padrão’ – que finge desconhecer a imperfeição como condição humana, que abomina o erro, onde cada fio de cabelo tem de estar em seu prumo, onde não há espaço para improviso ou reflexão que não tenha passado por doze níveis de poder e aprovação -, pouco ajuda para desenvolver seus profissionais, num dos quesitos mais caros à profissão, a capacidade de reagir de forma inteligente, rápida e criativa, às necessidades de conteúdo e contundência que a série de entrevistas em questão demanda.
Assim, resta a via mais fácil: parecer agressivo, franzindo sobrancelhas bem desenhadas e levantando as vozes, lendo as perguntas cozidas e refogadas nas exaustivas reuniões de pauta, para que pelo menos não restem dúvidas sobre a isenção e a eqüidistância do canal, exorcizando a culpa pelo malfadado debate que ajudou a nos enfiar Collor goela abaixo.
Importante ressaltar, que mesmo gritonas e às vezes desconfortáveis, as entrevistas globais tem sido de extrema utilidade, se mais não fosse, por que tem servido para mostrar que ao menos nesse quesito nossos candidatos de hoje são bem melhores que os do passado. Nenhum deles pelo menos se destemperou diante das provocações ou brandiu a coloração de seus testículos em rede nacional. Até agora.

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