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Amor

Por Luiz Alberto Mendes

em 15 de junho de 2015

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Na prisão alguns manifestam uma apatia, uma indiferença e um desleixo que são os grandes assassinos das atividades emocionais do indivíduo aprisionado. Reduz a percepção da realidade e toda a existência se concentra em continuar vivo. Retrai-se a uma posição existencial primitiva, a se preservar.

Para outros, quando viver se torna um martírio; o pensamento de morrer não assusta e tem um sentido de descanso, de alívio. Aqueles que têm alguém para amar (e quase todos têm: mulher, mãe, irmã, filho ou mesmo um amigo querido) são privilegiados pela lembrança. E é ai que nasce a poesia, a parte sublime de existir. O amor se torna, então, o ultimo bem da existência que a vida do homem pode alcançar. Quando nada mais resta ao sobrevivente, ainda existe a lembrança das pessoas amadas a salva-lo da loucura. Ele pode se entregar interiormente às imagens que há em sua memória daqueles que ama. Nada mais importa; o olhar brilha a intensidade do sol nascente. Pode conversar com seus entes queridos dentro de si mesmo e até supor suas respostas. Reconstruir um sorriso, um olhar amoroso pousado em si, a abençoá-lo. É a sabedoria da alma; a fé humana. No pior momento, quando não há mais saídas, ele ainda pode se realizar na visão dos seres amados que porta dentro de si.

Compreendemos então que o amor é a única salvação possível, embora o amor não tenha nada a ver com a existência física. Amamos até quem possa ter morrido; quem nem sabemos se existe mais. Carreguei a imagem de minha sobrinha Carla, que vi apenas quando era um bebê com menos de um ano de idade, por mais de 31 anos preso. Estive com ela poucas vezes, mas brinquei, amei e senti o quanto aquele ser encantado podia me amar. Eu a amei para sempre, mas nunca mais tive notícias. Durante todo meu tempo de prisão, aquele nenê foi o ser mais lindo que vi em toda minha vida. Jamais cresceu em minha memória. Esteve presente dentro de mim o tempo todo, a me salvar dos tormentos prisionais. A vida é imprevisível; eu a reencontrei 32 anos depois e não conseguimos mais nos separar. Moramos na mesma casa e fazemos quase tudo juntos.

Amamos o que existe em nós dos seres exteriores a nós. O amor esta além do tempo e do espaço; é mais forte que a vida, que a morte…

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Luiz Mendes

12/06/2015.                     

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