por Eugênio Bucci
Trip #190

No Brasil, ela não é e nunca foi, mas se tornou algo parecido: um oráculo

Alguém me pergunta se a televisão funciona como guru. Então eu paro. Acho que não. Penso nessa palavra, “guru”. Lembro de Carlito Maia, um homem de televisão, ou melhor, um homem que gostava de ser chamado de homem de comunicação (publicitário jamais) e que trabalhava num escritório de uma grande rede de TV – ele era responsável pela função de representação da Globo, em São Paulo, num posto que lhe tinha sido providenciado por Otto Lara Resende, acho que ali pelos anos 70.

Carlito era famoso por mandar flores para todo mundo da esquerda, e isso com dinheiro do Roberto Marinho. As flores sempre seguiam com uns bilhetinhos que, no alto, traziam o logo da emissora, impresso em um azul-clarinho, quase calcinha. Lembro do Carlito porque, de vez em quando, eu era chamado por ele, nesses bilhetes, de “amiguru querídolo”. Eu e muitos outros. É a primeira lembrança que me ocorre quando escrevo o termo “guru”. A verdade é que ele, sim, era o meu guru. Eu queria ser como o Carlito quando crescesse, mas aí o Otto Lara morreu, o Roberto Marinho também, eles nunca me chamaram para trabalhar na Globo, a esquerda foi se desmilinguindo sob a força da grana e eu dificilmente encontraria alguém para mandar flores pagas pelo dinheiro de Roberto Marinho. Mesmo assim, sigo pensando nessa palavra, “guru”, e tento relacioná-la com esse tema vasto, o da “televisão”. Eu diria que não, que a televisão não é, nem nunca foi, guru de ninguém. Absolutamente ninguém. Mas que tem alguma coisa aí, isso tem.

A televisão não é guru, mas é algo próximo. É oráculo. Guru, essa designação honorífica e espiritual, eu a atribuo a pessoas como o Carlito. Ou a entidades metafísicas, digamos, deixe-me ver, como Sigmund Freud, cuja fotografia está presente em todo consultório de psicanálise. Já andei frequentando alguns, já andei me deitando em divãs, inclusive para fins de ser analisado, e lá estava Sigmund barbudo olhando pra mim, sem explicar nada. Guru é o Osho. Guru é invariavelmente um indivíduo, geralmente desencarnado. A televisão é mais ampla do que isso: é uma esfera luminescente em que os gurus podem ou não podem aparecer.

A visão de uma esfera luminescente nos aproxima um pouco mais do conceito de “oráculo”, ou, pelo menos, de uma das acepções dessa palavra. O oráculo pode ser o nome de uma profecia em particular, mas também pode designar o local onde podemos ter acesso a essa previsão. Foi o oráculo quem disse a Sócrates que ele era o mais sábio dos gregos. Foi também o oráculo que alertou Laio de que seu filho, Édipo, iria matá-lo para tomar-lhe a mulher, Jocasta. O Templo de Apolo, em Delfos, foi o mais célebre dos oráculos. Suas pitonisas tinham o dom da profecia.

Uma bola de cristal pode funcionar como um oráculo. Um mapa astral. As cartas do Tarô. Os búzios. Um grande livro – o I Ching, o Claro Enigma, de Drummond, e muitos mais. A televisão também.


MANTRAS DA TV
Na segunda metade do século 20, os humanos adquiriram o hábito de se aglomerar diante de aparelhos de TV, como que em oração. Eles não procuravam saber o que a TV lhes diria sobre seus próprios destinos, não exatamente isso, mas enquanto estavam ali, em seu gozo escópico ininterrupto, refletiam distraidamente sobre seus amores, seu trabalho, o assado no forno, a dívida do aluguel, os joelhos da Inezita Barroso. Isso, esse “pensar sobre”, essa antimeditação transcendental, fazia da televisão o grande oráculo da humanidade. Não que ela emitisse ordens ou juízos definitivos: ela nos servia de interlocutora nas decisões que tomávamos. E decidíamos enquanto víamos e ouvíamos os mantras da TV. Se é verdade que os índios tomam suas decisões enquanto sonham, pois nos sonhos consultam os antepassados – foi o que me disse uma vez, numa entrevista, Aílton Krenake –, nós fomos a civilização que resolvia a vida enquanto via TV.

O mais intrigante é que, até hoje, ainda somos essa civilização. E aqui eu entro com uma notícia que parece contrariar as tendências do futuro: a televisão não está morrendo. Não morreu e não está morrendo. Ela vai bem, está saudável e cresce. Cresce para além daquele aparelho a que aprendemos chamar de televisão, mas cresce com solidez. É por isso que afirmo: ainda somos a civilização que se posta diante da imagem eletrônica todos os dias, em devoção. Essa imagem ou a presença potencial dessa imagem continua sendo a manifestação do oráculo do nosso tempo.

A instância da imagem ao vivo, que substituiu há tempos a instância da palavra impressa como o centro de gravidade do espaço público (até o início do século 20, a palavra impressa era a morada dos temas dos grandes debates nacionais), ainda não foi superada. E não será superada tão rapidamente: é por meio dela, ou com o lastro de realidade dado por ela, pela imagem que retrata o acontecimento, que tomamos contato com os assuntos cruciais dos nossos dias.

A era digital e a internet não revogaram a imagem ao vivo como um critério de verdade factual e como padrão de instantaneidade, de velocidade máxima da informação. Se o sujeito vê algo que acontece – no instante em que acontece –, aquilo ganha o estatuto de verdadeiro. Eis aqui uma das crenças mais profundas da nossa era: para nós, o que é visível só pode ser verdadeiro. A imagem é, para nós, a prova dos nove entre a mentira e a verdade. Assim, a era digital não matou, mas expandiu o que tenho chamado de instância da imagem ao vivo. Com a internet, essa instância ganhou arquivos imensos (como o YouTube), que permitiram que um registro factual possa ser visto e revisto a posteriori, sem perder aquele sabor de prova definitiva de um fato.

SENNA E GERÚNDIO

A internet nos deu o “videotape” da era digital. Com isso, os acontecimentos não cessam de estar acontecendo. Eles não morrem. Ficam reverberando indefinidamente. Agora, a imagem eletrônica não é mais como nos tempos do programa do Chacrinha – “O programa que acaba quando termina”. Agora, ela vai ficando no ar, vai perdurando, vai persistindo. Os acontecimentos mais marcantes são reprisados indefinidamente, inesgotavelmente, para olhos insaciáveis, amortecidos, em êxtase: a morte de Ayrton Senna, o derretimento das torres do World Trade Center, o velório de Lady Di, o sujeito que guardou dinheiro na meia lá em Brasília. Tudo se alonga num “em acontecendo” que não tem fim.

O tempo verbal que sintetiza o nosso período histórico é o gerúndio. As pessoas falam que vão estar sentando para estar conversando e estar resolvendo isso e aquilo. Já virou até piada. Mas há mais mistérios nessa presença do gerúndio. Isso é muito mais do que cacoete das moças de telemarketing. O presente contínuo que veio do inglês não se refestelou no português apenas por modismo ou por afetação. O gerúndio se alastra porque retém, de modo único, o modo particular como lidamos com o tempo. O gerúndio é o nosso sintoma linguístico, não temos muito como escapar a isso. Ele nos representa. Ele nos resume.

Ainda somos a civilização que se posta diante da televisão todos os dias, em devoção

O nosso ideal de existência tem mais a ver com a impermanência em movimento do que com pontos fixos, em que passado e futuro ficam delimitados de modo definitivo. De um lado, o nosso imaginário pode supor que a Segunda Guerra seja um fato tão antigo quanto a Revolução Francesa. De outro, e aí mora sua particularidade mais fascinante, tem o passado como fluxos em contínuo andamento, como se não houvesse capítulos encerrados na história. A indústria do entretenimento grita que Elvis não morreu e que os Beatles são forever. Os místicos se sentem confortáveis em acreditar que as vidas passadas retornam. Há um quê de budismo e, ao mesmo tempo, um toque de espetáculo nisso tudo. Para o bem e para o mal. O passado e o futuro deixam de ser quartos separados e ganham certa consistência líquida – e, na nossa concepção de tempo, pesam menos do que aquilo que está acontecendo – um presente-presentificado-presentificante-presentificando.

É assim que nós nos dissolvemos no gerúndio. Nós nos deliciamos no gerúndio. E, para esse gerúndio histórico, nada parece ser mais expressivo e mais vital que a imagem eletrônica, gerada ao vivo, e que fica ao nosso lado, conosco, a imagem pulsante que se mexe sem sair do lugar. Também por isso a instância da imagem ao vivo é o nosso centro. O centro do nosso imaginário. O centro da nossa arquitetura espiritual. Pensamos em nós como imagens. Ou você vai dizer que não?

Que ninguém se iluda. A TV está aí e está com tudo.

É raro que eu leia a Economist. Pega bem dizer que a gente lê e de vez em quando eu também digo. Recentemente, um amigo me contou de uma reportagem que ela publicou: 14 páginas sobre a televisão, que a revista chama de “a grande sobrevivente da mídia” (edição de 1 a 7 de maio de 2010). A matéria traz dados, uma profusão deles, demonstrando com cifras de faturamento e audiência, índices de tecnologia e recortes populacionais que a televisão gera dinheiro, prospera como negócio e segue em frente como um meio pujante.

Outra vez, a razão é simples. Tenhamos em conta que, contrariando o senso comum, a internet não é um meio de comunicação e, portanto, não substitui outros meios de comunicação. A internet não representa apenas uma nova onda nas possibilidades de comunicação, mas principalmente uma brutal ampliação e transformação do próprio espaço dentro do qual os humanos – e alguns animais – se movem. As pessoas pagam imposto de renda pela internet, o que não é comunicação mas uma interação jurídica, econômica e política. O sujeito vai até a Receita Federal e entrega a sua declaração sem sair do lugar. Com a internet a pessoa pode, efetivamente, estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Em tempo: alguns animais também se movem pelas redes interconectadas, como aqueles macacos do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis que, plugados a eletrodos, moviam objetos que estavam a milhares de quilômetros de distância. Compram-se bichos de estimação em sites especializados, e as pessoas podem se filiar a movimentos que protegem pandas e baleias da extinção. Além da vida virtual, que é real (lembre-se: tempo real significa exatamente o tempo virtual), há a comunicação propriamente dita: é possível ler jornal, revista e livro pela internet, assim como ouvir rádio e ver TV.

A TV saiu de sua velha caixa habitual. Ganhou muitas páginas (os canais por assinatura), ganhou interatividade e, mais surpreendente ainda (para alguns que não eu), os canais abertos continuam presentes e fortes: eles são os responsáveis pelos grandes fóruns comuns, pelos eventos que congregam multidões (campeonatos, eleições, cultos religiosos, Carnaval, noticiários sobre guerras) sem os quais a sociedade perderia suas referências de pertencimento. Sem os canais abertos, é possível que nos esquecêssemos com mais facilidade de que todos pertencemos a um conjunto, seja um país, uma etnia ou a humanidade.

A internet nos deu o videotape da era digital. Com isso, os acontecimentos não cessam de acontecer

A Economist mostrou ainda que os consumidores dedicam mais horas à TV do que costumavam dedicar. Às vezes vendo filmes na TV por assinatura, outras vezes na TV aberta, outras vezes vendo vídeos na internet – o Jornal Nacional que foi ao ar há poucas horas ou o ataque de Israel a um barco na faixa de Gaza. A TV, como o rádio, os jornais e o imposto de renda, ganhou novas vidas dentro da rede. Um suporte não revoga o outro. Nem era para revogar. Ainda somos a civilização da imagem. A civilização que crê em seus olhos.

Claro que, agora, a imagem se combina com a palavra, com o som, brevemente com os aromas eletrônicos, mas ainda somos a civilização que tem no visual da tela eletrônica o oráculo essencial. Sim, a imagem é agora mais “interativa” do que antes, como gostam de apregoar. Mas é a imagem eletrônica, é a TV que se emancipou do televisor para ganhar a rede – e para capturar a rede no televisor. Os gurus estão por ali, dentro da luminescência. Mas os gurus que contam de verdade sabem olhar esse grande movimento pelo lado de fora.

*Eugênio Bucci é professor doutor da ECA-USP e colunista do O Estado de S. Paulo e do site Observatório da Imprensa. Foi secretário editorial da Abril e presidente da Radiobrás no primeiro mandato de Lula

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