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A REVOLTA DOS SEM-RÁDIO

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Contra minha vontade, fui jantar outra noite numa dessas churrascarias supostamente classe A. Na recepção, havia algumas mesinhas baixas para quem aguarda ir acalmando o próprio estômago e afiando os caninos. Próximo a estas mesinhas, havia dois balcões de promoção. Um oferecia doses de degustação de um certo vinho espanhol, ao qual os comensais teriam direito se consumissem acima de um certo valor. Sobre o outro balcão, repousava um abaixo-assinado com cabeçalho pomposo exigindo o fim da ‘Hora do Brasil’. Algumas assinaturas logo abaixo e uma caneta deitada solitária sobre a folha, amarrada pela cabeça à lombada do livro. No dia seguinte fui bombardeado por anúncios em várias emissoras, matérias em jornais e revistas, um verdadeiro movimento democrático exigindo a degola incondicional do programa oficial que ocupa o horário nobre de todas as emissoras de AM e FM do país.
O programa é antes de mais nada, muito ruim. Qualquer estagiário de comunicação não teria grandes dificuldades para dar um ‘upgrade’ no alto-falante do Congresso. Os redatores são ruins, os repórteres são ruins, os locutores são ruins, o som é ruim, as vinhetas são ruins e, o principal, os deputados e os senadores são péssimos. Não há dúvida que a única e melhor solução é extirpar este furúnculo sonoro que ainda insiste em purgar nos ouvidos de um corpo já refeito de boa parte das feridas da doença da ditadura.
Só o que não podemos porém, é terminar a análise por aí, rubricando o abaixo-assinado e devorando a picanha com a sensação de dever cívico cumprido.
Não questiono as intenções democráticas daqueles que iniciaram o movimento pelo fim da ‘Hora do Brasil’, antes de mais nada, um espólio do autoritarismo, ainda por cima anti-constitucional.
Desconfio, porém, da adesão rápida e incondicional de todas as emissoras do dial. Será que espírito democrático seria o catalisador que faltava para unir uma classe tão desunida como a dos donos de rádio num passe de mágica?
Um comercial de 30 segundos numa rádio FM bem posicionada no dial paulistano vale cerca de 300 reais. São dez reais por segundo, valor que supera inclusive o cobrado por várias emissoras deTV por assinatura. O faturamento de que são privados os donos de rádios pela obrigatoriedade de transmissão da ‘Hora do Brasil’ foi sem qualquer dúvida o dado responsável por transformar a maioria deles em verdadeiros caras-pintadas empunhando a bandeira da liberdade de expressão. Basta ouvir a maioria das vinte e tantas emissoras de FM e das dezenas de AM para perceber que qualidade de programação não é exatamente o objetivo principal destes concessionários.
Já que o espírito democrático está tão aceso e que a união nunca esteve tão forte em favor da liberdade de expressão, por que não acoplar à campanha pelo fim da ‘Hora do Brasil’, uma outra pela democratização do sistema de rádio e teledifusão no país. Se o ingênuo leitor ainda não sabe, canais de rádio e TV são concessões dadas pelo poder público a meia dúzia de ungidos, geralmente afilhados de peixes graúdos de Brasília, quase todos politicos de segundo escalão cuja intimidade com jornalismo e entretenimento é tão grande quanto a pata de uma Tanajura.
Recentemente, a Justiça Federal em São Paulo sentenciou que não é crime instalar uma rádio de bairro com fins culturais. Há um projeto tramitando no Congresso que cria a Lei da Informação Democrática, que acaba com o monopólio das grandes famílias, libera as ondas de ar para as emissoras de rádio e TV de baixa potência e manda todas as emissoras se dedicarem à educação, à cultura, às artes e ao jornalismo em primeiro lugar. Alguns dados fornecidos pelo professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e coordenados do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação: nos Estados Unidos há 11 mil canais de TV e 17 mil emissoras de rádio. No Brasil são 266 canais de TV e 2.900 de rádio. Nos EUA há rádios e Tvs para todos os segmentos sociais inclusive minorias como lésbicas, sapateiros, estudantes… Há rádios de quarteirão e TV’s de bairro. No Brasil, a lei 4.117 diz que a concessão de rádio ou TV cabe ao Presidente da República. A Constituição de 88 acrescenta que a concessão tem de ter o aval do Congresso.
O que aconteceria se no Brasil, fossem dadas concessões de emissoras a Sindicatos, Universidades, clubes, associações esportivas? As ‘College Radios’ nos EUA ( rádios operados por estudantes ) fizeram mais pela música jovem que qualquer emissora ‘tradicional’. Há uma campanha no ar em emissoras de FM em São Paulo incitando os ouvintes a denunciar rádios piratas. Segundo a campanha, o Ministério da Aeronáutica e o órgão que coordena a aviação civil estariam reclamando da interferência destas rádios nos sistemas de comunicação das aeronaves.
Em plena era da hiper democratização da comunicação que se dá pela rede internacional (Internet) a solução deste problema parece mais do que clara. Abrir, liberar, democratizar. Não há quem não reconheça a melhora do panorama geral com a abertura da importação de carros ou a criação das dezenas de novos canais de TV por assinatura.
Convido as emissoras sérias de AM e FM a provarem suas verdadeiras convicções democráticas pela liberdade de expressão, lançando imediatamente uma campanha nacional pelo fim da política de concessões de emissoras de rádios pelo executivo e pelo legislativo. Democratização da comunicação já! Rádios para os nordestinos de São Paulo, para os surfistas de Camburi, para os ecologistas da Juréia, para os playboys da Moóca, rádios para os sem-terra. Rádios para os Sem-Rádios!

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