por Sérgio Rodrigues
Trip #183

Com vocês, o primeiro e aguardadíssimo ensaio sensual da estrela Cléo Pires, musa exótica

Cléo Pires, Cleópatra, Cleonice... Numa página, ela é a musa exótica e inatingível. Na outra, a amiga da escola, a encarnação brasileira da girl next door. Com vocês, o primeiro - e aguardadíssimo - ensaio sensual da estrela

Cléo é Cleópatra e Cleonice ao mesmo tempo. Ou alternadamente. Tudo depende de como se veste – ou se despe, o que ela faz aqui pela primeira vez, num cenário convenientemente amazônico – diante de nossas retinas tão fatigadas. O resultado é o mesmo num papel e no outro, e é espantoso: nossas retinas ficam logo acesas, subitamente desfatigadas. Como se vissem o mundo pela primeira vez.

Convém explicar a ambivalência de Cléo Pires. Sua beleza pode ser tão exótica quanto a de qualquer musa inatingível da tela prateada: sobrancelhas grossas, cabelão preto escorrendo até a cintura, boca rasgada, mandíbula esculpida num triângulo impossivelmente perfeito. No filme da imaginação, esses traços fazem dela a melhor opção de casting para o papel de uma dessas criaturas perigosas de tão sexy – metade mulher, metade delírio. É só vê-la sair da água com o cabelo pingando, o desafio que seus olhos negros lançam à câmera sobre um pescoço altivo de Modigliani. Ou encontrá-la pousada feito ave pernalta nos galhos da magnífica árvore seca que emerge do rio, fundindo os reinos animal e vegetal – a escultura que Franz Krajcberg não ousou assinar.

Nos dois casos, Cléo tem alguma coisa de esfinge: “Decifra-me ou te devoro!” [OK, você venceu: pode devorar]. Está feita a mágica. Eis Cleópatra, a mitológica, não a real, que andam dizendo por aí que era feia. Mais soberana do Egito do que Elizabeth Taylor um dia sonhou ser. Rainha, deusa, ser maior que a vida.

Aí piscamos, viramos a página e pronto: numa simples mudança de enquadramento ou luz, Cléo de repente vira Cleo­nice, amiga da escola, priminha sacana que veio do interior, a melhor encarnação brasileira da tal girl next door – por que não? (Não se engane: se isso acontecer, você está morando muito bem.) Acontece que Cléo não tem altura para reinar nas passarelas nem, digamos, largura para preencher poster de borracharia. Suas medidas de gata mignon são econômicas, funcionais, naturalmente mais inclinadas a despertar ternura olho no olho do que a fazer desabar o queixo das multidões.
Nada do proverbial bundão que seria a preferência nacional, nada de peitão americanizado – silicone nem pensar. O sorriso aberto, quando nos concede a graça de aparecer, tem um milhão de volts, mas é desarmado e franco. Essa Cleonice, garota quase comum, é aquela que se deita de barriga num tapete de folhas em sua malha arrastão e, entreabrindo os lábios, olha meio oblíqua para nós. Ou a que se embrenha na mata de lingerie cavada, trança no cabelão, sem se esquecer de virar o pescoço na última hora. Nos dois casos, podemos ouvi-la dizer: “Você não vem?” [OK, você venceu: fui!].

Viva e deixe morrer
Quando é Cleonice, Cléo tem estrelinhas tatuadas no dorso do pé. No papel de Cleópatra exibe, acariciando o ilíaco, o desafio cínico de um velho James Bond musicado por Paul McCartney: “Viva e deixe morrer”.

Cléo tem sido mais Cleonice que Cleópatra na dramaturgia nacional. Era Cleonice pura na pele da Lurdinha da novela América, de 2005, embora naquele mesmo ano tenha desempenhado o papel de – isso! – Cleópatra num especial infantil da Globo chamado Clara e o chuveiro do tempo. Foi ainda a premiada Ariela/Castana do filme Benjamin, baseado no livro de Chico Buarque, a Sofia de Meu nome não é Johnny e a Surya Ananda de Caminho das Índias. O que é tudo muito bom, mas ainda pouco para a polivalência de sua beleza.

Enquanto filmes e novelas nos devem uma Cléo à altura de seu brilho, uma saída pode ser a dica que ela mesma dá na entrevista a seguir, quando se declara fã de literatura erótica. Traduzida em palavras, Cleonice, Cleópatra, Cléo pode ser tudo o que quisermos que ela seja.

*Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista, titular do blog Todoprosa, sobre literatura, e autor do romance histórico Elza, a garota (Nova Fronteira), entre outros livros.

Cléo Pires é filha da realeza pop nacional – a mãe, Glória, estrela de novela; o pai, Fábio Júnior, cantor romântico. Mas é também a mais perfeita encarnação brasileira do conceito plebeu da “girl next door” - a garota do lado, sem medidas de modelo, sem marras de celebridade, com uma sensualidade natural e a doce promessa de nunca ser inatingível.

Nos quatro dias de ensaio para a Trip na Amazônia, mostrou que conjuga perfeitamente essas duas facetas. Sucesso na TV como a Lurdinha de América e a Surya de Caminho das Índias, e no cinema com Meu nome não é Johnny (sem falar no aguardado Lula, filho do Brasil), Cléo tem perfeita noção de que, aos 27 anos, está no auge da beleza. E isso a deixa confiante para conversar com todos olhando nos olhos e para não se sentir intimidada pelo fotógrafo nem pela figurinista quando opina sobre as roupas que quer tirar e poses que prefere fazer.

Por outro lado, enquanto várias pessoas da equipe reclamavam do calor – 40 graus na sombra –, ela estava sempre sorrindo, contando histórias, admirando o visual, dando frutas para os bichos. Sucesso, Cléo ria e deixava rolar. Afinal, “Live and let die”, frase que ela tatuou no corpo, tem sido o seu lema.
(Adriana Verani)

Por que só agora um ensaio sensual?
Acho que é o momento, as coisas têm hora certa. Se não for com vontade vira obrigação e eu não sou muito fã de coisa obrigatória, tenho tendência a ser um pouco do contra. Se alguém me fala “você tem que fazer isso”, já era, não faço. Tem que ser do meu jeito, pra mim isso é autonomia. Quando falam “ah, mas as pessoas fazem”, penso “dane-se”. Nunca vou fazer porque tenho que fazer, e sim porque eu quero fazer.

O que seu namorado achou da ideia de um ensaio sensual?
Não perguntei. Falei que ia fazer a Trip e ele disse que adora as Páginas Negras, que gosta de alguns ensaios...

E o que sua mãe achou? E seu pai?
Eles não gostaram da ideia, não. Eles não gostam que eu faça nada que tenha conotação sensual ou sexual...

Mas teve a ver com sua relação com o corpo agora que está mais magra? Você está se sentindo mais à vontade com ele?
Na verdade eu já me sentia à vontade, sempre fui muito bem resolvida com minha sensualidade e sexualidade. Acho que isso faz parte de todo ser humano e tem que ter um equilíbrio com isso. Na época em que fiz a Lurdinha, o foco foi era muito nesse lado [sensual]. E eu estava no começo da carreira, desacostumada com a vida pública e com a imagem que as pessoas faziam. Decidi que não queria nada disso, era aquela coisa do contra. Aí dei um tempo nessa onda, o que foi bom, pude resgatar minha sensua­lidade depois...

Para você foi fácil tirar a roupa?
Foi muito fácil, viu? Realmente não tenho problemas com isso. Achei que eu tivesse, mas não tenho não... [Risos.]

Como se sentiu na Amazônia? Qual a relação com esse lugar?
Você me viu atolada de micos, aventura total. Gosto de mato e água doce, mais do que praia e mar. Tenho uma relação muito forte com o verde, a selva... amo mesmo. Me sinto em casa, fora aquele calor louco que a gente passou, gosto daquilo. Os bichos não têm medo da gente, é uma relação natural, dá segurança.

Do que você mais gosta no seu corpo?
Gosto do todo, na verdade. Acho bonito corpo natural, mas tava muito sedentária, estou voltando agora a fazer exercícios. Passei uma fase de muita ioga, ashtanga, aí depois fiquei uma fase megabicho-preguiça. Mas gosto de tudo, gosto muito do meu peito, acho lindo. E gosto dos meus olhos também.

Você se considera uma representante da beleza brasileira?
Não. Acho que tenho uma cara bem universal, porque não sou bundudona, com quadrilzão, que é a coisa bem brasileira. Sou magrinha, pequena. Que também é uma característica brasileira, mas não quer dizer muito.

Qual a importância do sexo pra você?
Acho sexo muito importante, mas a libido é uma energia de vida que podemos direcionar pra várias coisas. Gosto de sexo, mas não sou viciada, tipo “ah, tô sem namorado, preciso dar”.

Já teve alguma experiência com mulheres?
[Risos] Olha, não tive, mas já tive curiosidade na adolescência, normal, mas nunca tive tesão em mulher, ou vontade de ter alguma coisa com mulher. Não tenho nada contra, mas comigo não pegou.

Você comentou comigo lá no ensaio que gosta de literatura erótica. Isso te excita, dá ideias?
Sou curiosa, gosto, sempre gostei. Eu era precoce, lia coisas, entrava em sites... é um “exercício”. Às vezes você quer, mas tem preguiça se não está namorando. Não tem uma pílula que faz a pessoa sumir depois. Todo aquele antes e depois é um saco, e aí é um bom refúgio... [Risos.]

 Agradecimentos


Ribamar, Bello, Levir e Noel Ariaú Amazon Towers www.ariautowers.com

Tropical Hotel Manaus www.tropicalhotel.com.br

Créditos

Coordenação Geral Adiana Verani Produção Flavia Fraccaroli Estilo Patricia Zuffa Colaboração Kali Leuzzi e Tica Bertani Make/Hair Silvio Giorgio (CAPA mgt) Assistente de foto Érico Cavallete Créditos de Moda Calvin Klein - Brechó Juicy by Licquor - Wolford - Brechó Minha Avó Tinha - Cristian Dior para Fogal - Studio TMLS - Brechó Spazio

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