Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Flamingo, Monduba, Tejereba, Vila Pinhal, Esmeralda, Pavuna, Conde, Biarritz. Os nomes dos prédios, de frente para o mar, supervalorizados nos anos 70, semi-esquecidos nos 90, dizem muito sobre o Guarujá…
Meio Miami, meio Cape Town, bem São Paulo, a tal Ilha de Sto. Amaro resistiu como pôde à sina de se tornar, à revelia, o refúgio mais fácil e conveniente da neurose paulistana. Um charme na tangência do brega sempre rondou a cidade, desde a época do Cassino, do clube da Orla, do Tortuga, do auge do Samambaia, dos tempos em que a praia de Pernambuco era o que hoje se mudou para Maresias (e aos poucos começa a procurar outro endereço), um encontro da playboyzada com a cultura de praia, com direito a ilha dos Rockefeller e tudo…
Balada certa era sair da festa em São Paulo na sexta e ir direto para o Guaru, deixando na serra todos os gatos angorás que durante a semana vão cravando suas garras no cérebro do infeliz que habita a velha Sampa.
As ruas com os canais no meio, como veias abertas, as calçadas de lajotas pretas e brancas, as árvores chapéu de sol, as ruas de paralelepípedos, os despachos de macumba boiando na beira d’água, a galeria do centrinho com a sorveteria Caramba, as brigas históricas no Fliperama. O Shéo, Preto, Boi, Moisés, Bruxa, Néco, Róllei, Ramiro, a raça local, espécie de próto-Racionais de calção, travando contato, interagindo com a boyzada numa quebra de appartheid sempre tensa.
Guarujacó, Guarujafet
Judeus e árabes com seus jogos de gamão sob barracas com empregados servindo uísque escocês na praia…
O Sobre as Ondas, cuja arquitetura faz jus à beleza do nome, com a marquise à tarde debruçada sobre o pico de ondas longas e intermináveis, a ilha, dividindo as Pitangueiras, a esquecida praia do Guaiuba, o Ferrareto Hotel, a boate Mustache, O Casa Grande Hotel, com Antônio Fagundes jovem, relaxando na piscina, o Strand Hotel no Tombo, O Gávea com os pescadores no mirante do morro do Maluf, as pizzas do Dom Pasquale, o Vila Souza Atlético Clube, o frei Dom Domenico desfilando sua cabeleira branca que provocava desejos proibidos nas jovens senhoras deixadas de férias pelos maridos, o Nêgo, dono da ‘Guarú Modas’, em seu charmosíssimo Volks Porsche prata conversível, os salva-vidas apitando, com a pele curtida pelo sol numa era em que não havia Sundown, só Noskote e Hipoglós, a livraria pequena, na entrada do prédio residencial, sempre com o livro ‘A Terceira Visão’, de Lobsang Rampa, na vitrine, assustando a criançada, a casa de Germano Mariutti, o restaurante Âncora, o Il Faro, o Delphin Hotel na calma Enseada, a mesma das ruas de areia do Jardim Virgínia, a misteriosa Itapema, versão guarujaense de Acari, a fila da Balsa, o biscoito Praiano, as pipas de pano em forma de águia, os vendedores de amendoim torrado com casca em saquinhos de papel rosa ou verdes, os dias cinzas com frio e chuva fina que não parava e punha as mulheres loucas, o cisne de massa para tirar fotos que vinham em binoclinhos, o trailer de churros, o Monte Carlo com seus croissants, a feijoada do botequim que atendia madames descendo de carrões com a panela de pressão na mão, a farmácia que atendia pessoas doentes, em vez de vender produtos diet como as de hoje, a arquitetura dos 50 e 60, tempo em que se pensava na vivência do espaço, e não na valorização do imóvel, as luzes acendendo nos prédios, vistas do mar no começo da noite, a lua nascendo atrás dos barcos das Astúrias… Talvez nenhum desses fragmentos tenha resistido ao tempo, mas o Guarujá ainda está lá, perto e longe o suficiente para valer a pena.
Tão chique que é quase brega. Tão brega que é quase chique.
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