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A pequena para as grandes

Gerry Lopez relata a Trip a história das pranchinhas

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Se você já teve algum contato com as pranchas, sabe da existência de três entidades: os longboards, as mini-models e Gerry Lopez. Considerado o maior surfista de todos os tempos, Lopez relata para a TRIP como os longs viraram as pranchinhas ? e de que maneira um shaper da Califórnia revolucionaria o esporte, criando o que até hoje serve como base para domar as ondas do planeta


por Gerry Lopez*


Dick Brewer visitou o Havaí no início dos anos 60. Interessou-se pelo surf, especialmente nas ondas grandes da costa norte de Oahu. Tinha alguma experiência em mecânica e interesse em construir carros velozes, mas optou por abrir a Surfboards Hawaii ? loja na Califórnia onde projetava big wave guns, pranchas para os especialistas em ondas grandes da época.


A loja quebrou, mas Brewer se associou a outros shapers. Com um deles, Bing Copeland, começou a fazer a Bing Pipeliner ? na minha opinião, a prancha que representou o apogeu da evolução dos longboards. Elas eram finas, laminadas com muito capricho e tinham o rocker mais progressivo que qualquer outra daqueles tempos. Em 1967, Brewer teve uma discussão com Bing, serrou todo o rack da parede da loja dele e se mudou definitivamente para o Havaí. Eu o conheci um pouco depois disso, no North Shore.


RB me viu surfando um certo dia em Velzyland e se ofereceu para fazer uma prancha para mim. Foi o começo de nosso relacionamento.


Brewer entrou em um acordo com Buddy Boy Kahoe, um dos melhores surfistas da época. Este lhe cedeu a sala de shape e o colocou para trabalhar. Reno Abellira teve sua prancha shapeada primeiro, uma magnífica 9?-6 moldada no estilo Pipeliner, adaptada para sua baixa estatura. Eu nem imaginava, mas, naquele momento, estava para testemunhar a habilidade de RB, que me marcaria para sempre. Ele pegou sua serra e, rapidamente, cortou o bloco em uma prancha que acabou ficando um pé menor do que a de Reno. Mas RB estava ligado e desenhou um modelo de um jeito que nenhum de nós jamais havia visto. Enquanto Reno ria baixo, RB começou a juntar um bico de prancha hotdog larga com uma rabeta de prancha grande e fina tipo 8?-6. Ele misturou idéias, incorporou algumas das noções da rabeta das pranchas de Mac Tavish, só que com um v-bottom pouco acentuado que, mais uma vez, nenhum de nós tinha visto antes. Em poucos dias, a nova prancha estava pronta, assim como a de Reno e Buddy Boy.


O mar estava grande aquele dia. Fomos para Honolua Bay, que estava com 10 pés e cavado. Honolua é uma onda destruidora de pranchas. Aliás, ali, ondas daquele tamanho podiam significar pulverização instantânea, mas era tentador. A princípio Reno e eu surfamos umas poucas e pegamos leve. Mas um tempo depois vi Reno tomando uma vaca e perdendo sua prancha. Não havia como reavê-la com ondas daquele tamanho. Buddy Boy, como sempre, estava detonando ? não é à toa que todos costumavam chamar aquele lugar de Buddy?s Bay. Só que naquele dia ele também teve sua prancha feita em pedaços. A discrição foi meu melhor aliado naquela hora, e remei de volta para o barco.


Alguns dias depois, quando o swell voltou a tamanhos mais razoáveis e os ventos ficaram mais amenos, Nat Young [um dos mais importantes nomes do surf australiano em todos os tempos] ? que também caiu na água aquele dia ? veio com sua prancha consertada e roubou a cena. As paredes límpidas de Honolua eram a tela ideal para as linhas que aquela rabeta v-bottom queria desenhar. Nat mostrou virtuosidade no surf e aquele tipo de rabeta se tornou parte integrante do design das pranchas daquele dia em diante.


RB, Reno e eu fomos falar com Tom Stone, que nos disse que tinha descoberto um pico do outro lado da ilha. Fomos checar as belas esquerdas de Paukukalo. Minha nova prancha funcionou como que por encanto. Todos estavam ansiosos para testá-la, mas eu não saía de perto dela. Mais tarde, todo o mundo que subia nela percebia o que eu já tinha descoberto: RB tinha criado uma nova geração de pranchas. Nós a chamamos mini-gun, sem perceber que seria o início da revolução das pranchinhas.


Um pouco depois, quando ficou difícil conseguir uma prancha com RB, comecei a construir as minhas próprias. Ele pediu que eu o ajudasse na Hanapepe Surfboards. Aí, vi o gênio trabalhando de perto. Era ótimo ser um surfista e melhor ainda ser um fabricante de pranchas e trabalhar com o mais inovador designer da época. A maior lição que aprendi com RB foi que fazer uma prancha que funcione melhor do que as anteriores é uma satisfação passageira. A alegria verdadeira é de dar mais um passo na progressão infinita do design. Eu ainda faço parte disso, assim como RB.


*Gerry Lopez, 54, é o maior surfista de todos os tempos. Está para as ondas assim como Hendrix para as guitarras ou Pelé para o futebol.


Colaboraram Marcelo Loureiro e Eduardo Grimberg


Réplicas das primeiras guns de Pipeline são feitas hoje na oficina de Gerry Lopez, no Estado do Oregon, bem longe do North Shore havaiano. Colecionadores do mundo inteiro e aficionados pelo surf são o alvo da pequena produção. O exemplar da foto pertence ao acervo da Mandi, marca de roupas masculinas lançada em março em São Paulo.

 

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