por Luiz Alberto Mendes

 

            Ontem assisti cena de extrema pungência, cujo desenlace, ocorrido hoje, chocou-me profundamente. A força de seu impacto ainda vibra em mim. Parto da premissa de que o objetivo primeiro e ultimo de nossa existência é aprender. O homem é um ser que aprende. Acredito que todo fenômeno possui alguma riqueza cuja finalidade é engrandecer a vida. Não há como negar: quando se esta estressado, nervoso, fumar um cigarro produz algum alívio. Ajuda a parar e organizar os pensamentos, por mais os médicos digam que não. Há poucos prazeres iguais aos primeiros tragos após o café matinal. Às vezes é tudo o que precisamos para começar o dia. Minha reclamação é que não dá barato, é mal cheiroso e nocivo à saúde.

            Claro, não vai aqui qualquer censura. O que não é nocivo à saúde? Carne, açúcar, sal, café (até o leite e o ovo estão sendo mal falados), verdura? Mas, em ultima análise, somos donos de nossas vidas. Fazemos dela o que queremos. Sou a favor da liberdade. Liberdade de existir, de fumar, comer tudo isso e até de me matar. É óbvio que em tudo há consequências. Mas somos constituídos de tal maneira que sempre podemos retomar e reiniciar. Parar para pensar pode até ser estrategicamente interessante.

Somos o que fizemos de nós. Até os fracassos e as derrotas nos construíram, nos ensinaram. O vício quem sabe seja um descanso quando a realidade que se tornou excessiva, quiçá insuportável. Não há como julgar. De uma coisa tenho certeza: é dever respeitar.

            Estive ontem visitando um amigo hospitalizado. Vivia suas ultimas horas tomado pôr uma tuberculose galopante, com crateras de cinco mm nos pulmões. Irreversível. Já não falava e respirava com extrema dificuldade. Seu rosto era caveira com enormes olhos lá no fundo do rosto, boiando, assustados. Durante toda evolução da doença, ele fumara. Era tão viciado que parecia amar mais a fumaça do cigarro do que a própria vida. O médico o proibira de fumar desde o princípio. Ele só fizera aumentar o vício. E ali estava o resultado.

            Morrer, todos morrem. Morreremos nós também. Acho morrer tão elegante quanto viver. Não se anuncia nascimentos. A morte tem seu espaço nobre reservado em todos os jornais. Mas morrer porque não se consegue vencer um vício me parece bastante deselegante. 

            Parei a beira de seu leito, olhando-o compungido. Não havia palavras nem gestos possíveis. Procurava apenas estar presente com minha amizade. O amigo olhava-me. Senti que lá pôr dentro do lago escuro de seus olhos, tudo era angústia e medo. O sol lá fora parecia perfurar crânios e pedras.

            De repente, suas mãos, como que adquirissem vida própria, lentamente, iniciaram movimento dirigido até um maço de cigarros à cabeceira da cama. Com imensa dificuldade retirou um e riscou o isqueiro para acendê-lo. Demorou-se queimando o cigarro, com toda alma concentrada naquele ritual. Quando percebeu que o cigarro já fumegava, uma luz riscou seu rosto de esperança. Era a magia negra do vício a emitir estímulos.

            Pôr um instante, seu corpo inerte ganhou energia, saída sei lá de que fonte. Trouxe o cigarro ao rosto. Já não havia forças para puxar a fumaça. Doía em mim sua frustração. Dava vontade fumar por ele. O que lhe restava de vida estava ali convertido no ato de inalar aquela fumaça.

            Havia uma avidez, uma espécie de loucura cega. Seus olhos se arregalavam no esforço desesperado que fazia. Quando a fumaça atingiu o pulmão, houve uma satisfação. Um brilho se esboçou em seu olhar. Houve um intervalo de tempo em que a vida foi suspendida de sua miséria e dor.

            Não demorou e sobreveio convulsão. Algo parecido com tosse, mas sem som, acometeu-o violentamente. Seu rosto denunciava uma dor tão profundamente sentida, que julguei, fosse morrer naquele instante. Demorou uma eternidade para se acalmar. E eu ali olhando sentindo-me culpado nem sei de que.

            Morria e não se dava conta, preocupado que estava na busca da satisfação de seu vício. A fumaça do cigarro se tornara a única realidade. Ele conseguira sucesso, fugira de vez.  A morte era a alternativa. Acredito seja esse o ultimo estágio do vício: a loucura.

            Telefonaram a pouco do hospital; meu amigo morreu na madrugada. Que descanse em paz.

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              Luiz Mendes

               09/12/2011.

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