por Jamie Brisick
Trip #238

O que fez do brasileiro o favorito ao título de campeão mundial de surf este ano?

Qual é a mágica de Gabriel Medina? Por que ele dominou o circuito de 2014? Por que é diferente de outros surfistas brasileiros? Eis o que vejo quando ele está surfando: tremenda concentração, confiança em ebulição, competitividade inteligente e talento descomunal. Eu vejo um corpo que parece feito sob medida para o circuito: grande e forte o bastante para estar alto em ondas gigantes como Teahupo’o; magro e flexível o bastante para caber em toda sorte de posições ridículas em ondas menores. Vejo uma sensibilidade sobrenatural para a onda e um jogo aéreo que é quase mais pássaro do que humano. E vejo um grande apoio familiar, um padrasto que está sempre lá, sussurrando apoio e encorajamento, lembrando-o de sua missão. Conversei com três renomados críticos do surf profissional – Nick Carroll, Matt Warshaw e Lewis Samuels – e eles enxergam mais ou menos a mesma coisa. 

Samuels, jornalista americano que escreve os Power Rankings do site Surfline (onde analisa, sempre em tom ácido, as performances dos melhores surfistas do mundo), diz: “No segundo em que entrou na água no torneio King of the Groms [2009], Medina mostrou ser melhor do que os outros. No surf, na confiança, na estratégia, na capacidade de encontrar diferentes maneiras de vencer baterias, de marcar 18 pontos no quadro em uma bateria, e depois na próxima, e na seguinte também. Poucos caras na história do esporte tiveram esse nível. E é também uma questão de estar no lugar certo, na hora certa. O domínio de Slater está em queda, Mick Fanning talvez esteja saturado, Parko já ganhou o título. Medina tem um talento natural, meio maluco, maior do que qualquer brasileiro. E este é o momento ideal”.

Para Warshaw, autor de The Encyclopedia of Surfing, Medina é “um discípulo de Damien Hardman [campeão de 1987 e 1991] e de Kelly Slater. Tem a mesma concentração meio esquisita de Damien, aquela cara de matador, um grau diferente de atenção e determinação. Parece ter mais vontade de surfar do que todos os outros”. Ele não é “o próximo Kelly Slater”. Não está no mesmo grau bizarro de Kelly, ninguém esteve. Mas Gabriel foi injustiçado na final contra Julian Wilson em Portugal, em 2012. E deveria ter ganhado o prêmio Rookie of the Year [Novato do Ano]. Por isso este ano ele chegou cheio de fome.” 

"Poucos caras na história do esporte tiveram esse nível. Medina tem um talento natural, meio maluco, maior do que qualquer brasileiro"

Carroll, ex-editor da Surfing (e entrevistado das Páginas Negras da Trip em fevereiro deste ano), lembra de Gabriel em Bells Beach, na Austrália, em 2010. “Era um menino de 16 anos, tinha acabado de entrar para a equipe Rip Curl e participava de uma promoção para saber como funcionava o WCT. No último dia transferiram o evento para a praia de Johanna, e as baterias aconteceram num mar instável, quebrando de direita. Kelly venceu Mick na final, com um grande alley oop. Mas a apresentação de Gabriel foi mais eletrizante. Ele deu um show de 2 horas. Pegava tubos, voava e aterrissava, remava de volta para o fundo, pegava uma onda a cada 3 ou 4 minutos. Qualquer um que o tenha visto naquele dia saiu de lá dizendo: ‘Esse cara vai ser campeão do mundo!’.”

Existe a crença de que os superatletas vêm de famílias conturbadas – divórcio, pais alcoólatras, esse tipo de coisa. Não conheço bem a história pessoal de Medina. Mas basta vê-lo se preparar para as baterias das competições para perceber que ele surfa num patamar mais elevado de concentração. Ele dá a impressão de ser uns 60 centímetros mais alto que os adversários, porque observa tudo por cima da cabeça dos outros. 

Nick Carroll menciona sua capacidade de confiar no próprio taco, mesmo diante de situações difíceis. “No primeiro evento do ano, o Quiksilver Pro, Parko estava liderando a final, surfando muito, pegando tubos pertinho das rochas. Gabriel sentiu que o line-up estava mudando. Fez uma manobra mais aberta, confiou no próprio instinto, assumiu a liderança e venceu. Fez a mesma coisa em Teahupo’o: surfou cada bateria de um jeito diferente. Seu segredo é a autoconfiança.”

"Qualquer um que o tenha visto saiu dizendo: esse cara vai ser o campeão do mundo!"

Medina ainda não garantiu o título mundial – decisão que ficou para dezembro, no Havaí. Mas tudo indica que vai conseguir. Se esse momento chegar, ele vai atravessar a praia embrulhado numa bandeira do Brasil, com a Magnum de champanhe aberta e despejada sobre sua cabeça reluzente, e vai erguer os braços para o alto e dar um grito. Haverá muito a comemorar. Em primeiro lugar, Medina será um campeão mundial espetacular, honrado, digno do orgulho do surf. Além disso, vai garantir o espaço do Brasil na arena do esporte profissional, de um jeito que o país vem merecendo há tempos. E, finalmente, vai escancarar as portas para os novos garotos – quem sabe até para um menino que ainda nem nasceu. Nick Carroll já imagina: “Daqui a dez anos, por aí, o Brasil vai produzir um Kelly Slater. Alguém que talvez ainda nem tenha idade para subir numa prancha vai colher os frutos do trabalho de Gabriel. Esse menino vai ser uma força da natureza, e não terá que enfrentar preconceitos nacionalistas. Ele será campeão mundial em 2022, e será insuperável”.

*Jamie Brisick é escritor, fotógrafo e cineasta baseado em Nova York. Surfou no circuito da ASP entre 1986 e 1991 e, desde então, vem documentando a cultura do surf.

Vai lá www.jamiebrisick.com

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