por Arthur Veríssimo
Trip #224

Um troca-troca improvável entre Arthur Veríssimo e a esfuziante Brunete Fraccarolli

Um troca-troca improvável entre nosso repórter excepcional e a esfuziante Brunete Fraccarolli. Entre caviar e ioga, os opostos, por fim, se atraíram

Em minha extensa cauda histórica na Trip, tive o privilégio de compartilhar momentos e páginas com musas, beldades, anarquistas, pitonisas... Da cantora Rosana, de “Como uma deusa”, à Narcisa “Ai, que loucura!” Tamborindeguy. Da Gisele Bündchen, ainda em início de carreira, à papisa do universo fashion Costanza Pascolato. Nesta edição, a redação me convidou para passar um dia ao lado da arquiteta, decoradora e personagem coruscante da série Mulheres ricas: Brunete Fraccarolli.

Combinamos uma troca de experiências sensoriais e vivenciais que fazem parte de nossa rotina. Brunete, tal qual uma imperatriz, me convidou para conhecer seu feudo – seu escritório, no caso –, suas coleções, fazer uma degustação de caviar e champanhe. De minha parte, decidi oferecer uma manhã de prática de ashtanga ioga e um café da manhã orgânico e suculento em um lugar paradisíaco, nos arredores de São Paulo.

Marcamos nosso encontro às seis da manhã na subida da Serra da Cantareira. O caminho é um conto de fadas urbano. Como num passe de mágica, estávamos na densa floresta respirando ar puro, prontos para iniciar os primeiros asanas no Centro Vidya, encravado nas bordas da serra. A sala pulsava energia. Um grupo de mais de 20 praticantes bombava e suava por todos os poros. Brunete se mostrava disponível e seguia as orientações do professor Cristovão de Oliveira. A pequena imperatriz se esticava, puxava e pedia explicações ao focado instrutor. No entanto, na hora de uma postura um tanto intrincada, coitada, acabou caindo em cima do mestre. O revés talvez tenha reduzido seu ânimo. Depois de cerca de 20 minutos conosco, Brunete abandonou a sala. Eu fiquei na minha e concluí a prática.

Encontro-a tagarelando com algumas das yoginis. Estão todas devorando uma imensidão de iguarias divinas e orgânicas. Tapiocas, sucos, pães, geleias, chás, cafezinho, queijos e frutas enchiam a mesa central. Comi e bebi de tudo. Brunete borbulhava de felicidade por ter saído da sua rotina e ter se permitido experimentar um momento de tranquilidade e muito tônus logo pela manhã.

Nossa descida para São Paulo foi outro passe de mágica. Todos os caminhos e faróis se abriam ao longo das encruzilhadas. Chegamos nos Jardins, zona nobre paulistana onde ela mora, rapidinho. Na portaria, fomos recebidos pelos funcionários com extrema educação e garbo. Brunete havia chegado antes de nós e permaneceu alguns minutos no quarto, onde era arrumada por Thiago, seu valet, maquiador, cabeleireiro e amigo, que nos acompanhou durante todo o dia. Ela desfaz a escova que havia feito para a aula de ioga e enrola as madeixas com um Baby Liss. Sai do quarto vestida como uma perfeita Barbie, com a inseparável Sissi, uma maltês que está com ela há mais de 14 anos, a tiracolo. Sissi tem uma vida classuda. Vai ao acupunturista e é habituée de pet-shops. Brunete é loira, linda e tem pés de princesa. Calça 33, o que faz com que muitos de seus sapatos fiquem sobrando. Diz que não é muito chegada em sapatos nem em roupa. Que, sempre que compra uma peça nova, retira uma velha do armário e faz uma doação.

Champa & caviar

Não sou nenhuma grande autoridade em design, mas impossível não notar a cadeira Banquete, criação dos irmãos Campana, em sua sala de visitas. Na casa, há ainda o modelo Cone, também dos designers paulistas, além de uma cadeira de papelão (!) desenhada por Frank Gehry e outra transparente, de policarbonato, obra de Phillip Starck. Como um magneto, a Banquete me acolhe com seus bichinhos de pelúcia. Na sala envidraçada, Brunete nos oferece uma geladíssima champanhe Moët & Chandon Reserva Rose Brut. Brunete convoca Thiago para registrar o momento que se seguiria. De fato, merece o clique: como uma samurai, ela pega um sabre, dá um golpe preciso no gargalo e abre a garrafa.

Brunete abre as cortinas, revelando sua imensa coleção de Barbies. Perfiladas como os soldados de terracota de Xian do imperador Qin (tudo bem, pode dar um Google nisso), as Barbies exalam os sonhos da colecionadora. Vestuário, visual, coloração e adereços das bonecas têm significados particulares. O santo graal da coleção é uma Barbie feita exclusivamente para ela, igualzinha à imperatriz.

Como uma estrela, ela fugazmente entra em outra dependência de seu apê. Espero um longo período. Com muita desenvoltura, Thiago me abre alguns armários e mostra agora a coleção de garrafas d’água de sua patroa. São mais de mil. Tem água de geleiras, água de chuva, todas com um design diferente.

Tudo muito bonito. Mas a fome rondava meu aparelho. Eis que Brunete retorna com o terceiro look do dia, exibindo um coque à la Grace Kelly. Iluminada, diz: “Arthur, quero que você conheça meu escritório do outro lado da rua. Na sequência, iremos ao hotel Emiliano fazer uma degustação de caviar e bebericar outros champanhes. Que tal?”. Brunete é assim, gosta de celebrar a vida. Pergunto a ela se seu dia a dia é sempre assim. Ela desbarata e, com um vestido assinado por Ronaldo Fraga e um anel de tanzanita, entra no elevador.

Seu escritório é rosa translúcido, com tons pastel. Ela me apresenta os aromas das essências que ela desenvolve. Aromas naturais de abacaxi, limão frumelo, framboesa e uva. Tudo bem doce, como a pequena Brunete.

No Emiliano, requintado restaurante localizado em um hotel homônimo, uma imensa mesa nos aguardava com algumas porções de acepipes. Nossa conversa espumava champanhe e histórias de viagens. Degustávamos um delicioso caviar russo Petrossian, acompanhado de creme azedo e blinis (uma espécie de crepe). Num átimo de segundo, duas garrafas de Perrier Jouet são abertas. Outra bandeja com diversos canapés é servida. Nela, pesto de nozes, tomate confit com queijo Grana Padano, tapenade de azeitonas e salmão defumado nos aguardam.

Num dado momento, começamos a falar sobre animais. Gargalhando, Brunete contou que no primeiro casamento, aos 18 anos, foi morar perto de Conceição de Araguaia, entre os estados de Goiás e Pará. Em um passeio, viu um pequeno gatinho solitário e se encantou pelo felino. O gatinho foi crescendo, crescendo até que ela percebeu que se tratava de... uma onça. Com muito pesar, doou a fera para um zoológico.

Na hora da despedida, não me contive: fiz como ela fez com o gato que não era gato e a peguei no colo. Brunete não esperava por essa. Mas que gostou, gostou.

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