12 vícios da imprensa cultural brasileira
O mercado editorial brasileiro passa por uma de suas mais graves crises
Créditos: Murillo Meirelles
Os vícios estão por aí, se espalhando e nos governando inconscientemente. Agem nos indivíduos e nas coletividades. Das drogas aos comportamentos, os diversos tipos de vícios nos confortam e transmitem certa segurança. Mas sempre cobram caro e têm prazo de validade.
Você acha que a indústria cultural brasileira seria uma exceção?
Então conheça os 12 vícios mais quentes da temporada, aqueles que você vê quando abre alguns cadernos culturais de jornais e algumas revistas e fanzines.
1) Profundidade superficial
É como se o redator dissesse: “Olha, conheço muito bem o assunto, mas vou falar pouco. Escrevo um texto superficial porque você e eu sabemos que o assunto não merece nada mais profundo. Ou não há espaço”.
2) Uso de clichês
“Tal disco é um petardo”, “Woody Allen já teve dias melhores”, “o filme é uma crítica ao vazio dos valores” etc. etc. etc. Não nos damos ao trabalho nem de reciclar, construímos nossos textos a partir de detritos.
3) Cultura no vácuo
Ao ler determinados textos, parece que a cultura pop nasce e cresce no vácuo, que não questiona nem se enquadra numa sociedade complexa, situada num tempo e espaço. E dá-lhe listas de melhores e piores, comparações sem contextualizações, entre outras práticas da preguiça cotidiana.
4) Idéias preconcebidas que não são questionadas
Servem apenas de mote para a construção de textos. Exemplo: endeusam o primeiro disco, livro ou filme e no segundo dizem que “não atendeu às expectativas”, “que fulano estava sobre a pressão da segunda obra”.
5) Ausência de perguntas
Os textos só querem “provar” coisas e nunca questioná-las. Precisamos fazer novas perguntas – só assim obteremos novas respostas. Precisamos questionar as atuais perguntas. Até que ponto elas nos impedem de sair da mesmice?
6) Poucas informações
Todos querem opinar, mas poucos tentam (ou podem) pesquisar. Muito menos tirar a bunda da cadeira, fazer matéria na rua e insistir naquilo que a reportagem tem de mais vivo e humano. O principal prejudicado nisso é o repórter, que se burocratiza e perde a chance de alargar seus horizontes.
7) Texto descole
A defunta revista Bizz popularizou certo tipo de texto cujo ritmo e estilo foram diluídos por muitos seguidores (ou viúvas). É um tom meio descolado e espertinho, mas quase sem força e desafio.
8) Underground que aspira ao mainstream
As pessoas querem escrever em fanzines e revistas alternativas para arranjar emprego na mídia instituída (e cambaleante). Zine é para ser diferente. O ideal seria que a mídia nos odiasse, que nem sequer nos entendesse. Mas hoje corremos atrás de ser citados em colunas, de dar entrevistas para jornais, de “aparecer”. Se a mídia nos quiser, que seja por aquilo que somos. Não podemos ser xiitas, mas também não capachos.
9) O deus-leitor
Um dos motivos pelos quais grande parte da indústria cultural no Brasil está falindo é porque todo mundo sabe o que “o leitor quer”. Muitos especialistas para pouca produção. Assim, quase não existe mais uma relação de desafio saudável ao leitor. Por isso não causamos paixão: vivemos um casamento tedioso, à beira do divórcio.
10) O “alternativismo”
O sujeito quer falar sobre música “alternativa”. Vai à revista New Musical Express e encontra aquela banda da Finlândia cujos integrantes vestem a cueca por cima das calças.
Pergunto:
- Alternativo é igual a desconhecido?
- Para que você quer tanta novidade?
Perdeu a capacidade de fruir daquilo que você PENSA que conhece? Ninguém mais sabe ruminar? Isso tem um nome: consumismo, a lógica de autodestruição do “mainstream” aplicada ao “underground”. Alternativo tem que ser o enfoque. Por que quase ninguém nota o que há de radical, inovador e desafiante na música erudita, por exemplo? Por que não falar sobre Britney Spears como quem fala de Napalm Death?
11) Entrevistas de comadre
Vamos acabar com os entrevistados amestrados. Publiquem o release de uma vez. Não quero saber o que a orelha do livro pode me contar. Não quero saber quem a celebridade está comendo – se é para falar disso, me convidem para a orgia ou pelo menos me descrevam a situação de uma maneira que me faça gozar também. O entrevistado tem que ficar em apuros. Ou, pelo menos, me colocar em apuros, como leitor ou jornalista.
12) Medo da narrativa
Por que tanta vontade de opinar? Suas opiniões conscientes não me interessam. Quero o que escapa ao seu controle. Às vezes é preciso se perder na narrativa e deixar que ela fale por nós. Uma reportagem bem-feita pode questionar muito mais que um ensaio.
Vai lá: FRAUDE
E-mail: eduf@fraude.org
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