por Gustavo Angimahtz

Regina Tchelly e Ernst Götsch são homenageados do Trip Transformadores

Fazer do mundo um lugar melhor para viver é o objetivo do movimento Trip Transformadores, que, todos os anos, premia iniciativas para uma sociedade mais justa e equilibrada. Apresentamos mais dois homenageados da nona edição do prêmio, que será celebrada em outubro de 2015: a paraibana Regina Tchelly, ex-empregada doméstica que realiza oficinas de reaproveitamento de alimentos pelo mundo, e o suíço Ernst Götsch, que aprendeu o idioma da floresta e recuperou um microclima de 460 hectares no sertão da Bahia, tão fértil e diversificado quanto a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica.

O Prêmio Trip Transformadores é apoiado por marcas com princípios alinhados à iniciativa e a seus homenageados. Este ano o prêmio tem o patrocínio do Grupo Boticário, nosso parceiro desde 2008, copatrocínio de Ambev, Apex e Hyundai i30 além do apoio de Suzano Papel e Celulose, Gol Linhas Aéreas Inteligentes, Academia de Filmes, Almap BBDO e Update or Die.

Regina Tchelly: Fome de viver

O mundo da paraibana Regina Tchelly se expandiu progressivamente na geografia e nas experiências de vida. Aos 15 anos, ela saiu de sua terra natal, Serraria, interior da Paraíba, para viver na capital, João Pessoa. Aos 19, já com uma filha nos braços, resolveu tentar a vida no Sudeste. Mudou-se para o Morro da Babilônia, no Rio de Janeiro, e trabalhou como empregada doméstica. Foi nessa época que começou a tomar consciência da importância de uma alimentação saudável não só na vida e no bem-estar das pessoas como na construção de um país.

A residência em que Regina trabalhou no Rio tinha hábitos alimentares distintos dos que ela estava habituada. "Lá tudo era integral e inicialmente eu não curti", conta ela. "Como era obrigada a comer brócolis, por exemplo, tive que aprender como fazer gostoso. Então comecei a brincar com ele." Hoje, a paraibana diz ser capaz de extrair até cinco receitas de qualquer alimento e não possui lixeiras em casa – já que tudo o que ela não consegue aproveitar nas receitas é transformado em matéria orgânica para o solo por meio de compostagem.

Favela Orgânica
A Favela Orgânica nasceu como um projeto local de Tchelly no Morro da Babilônia. "Sou uma pessoa atenta às oportunidades, e tinha chegado um curso para jovens desenvolverem projetos que trouxessem benefícios à cidade", explica a cozinheira. Apesar de ter seu projeto, que propunha trabalhar com o ciclo do alimento, selecionado para participar do curso em agosto de 2011, a banca avaliadora não o aprovou para implantação. "Foi o melhor ‘não’ da minha vida. A banca disse que minha ideia era complexa demais e que precisava melhorar", conta.

Menos de um mês depois, no dia 24 de setembro, Regina montou, por conta própria, em sua casa uma oficina sobre a importância de "devolver para a terra o que a terra nos dá". A iniciativa foi bem recebida pela comunidade: "Foram seis mães de família e domésticas na primeira oficina, dez na segunda, 15 na terceira e, na quarta, já eram 40 pessoas, vindas de quatro comunidades diferentes da zona sul do Rio, além de pessoas do Japão, da França e da Itália", relembra.

Hoje, o Favela Orgânica planta suas sementes em diversos países do mundo, sem deixar para trás as favelas cariocas onde o projeto germinou. "Também trabalhamos com crianças da comunidade, com análise sensorial, pedindo que elas cheirem, degustem, andem pela comunidade e peguem alimentos espontâneos. Além de incentivá-las para que cozinhem na prática", explica Regina. Para ela, porém, a cozinha criativa ensinada pelo Favela Orgânica transcende a mera alimentação física. "É uma das maiores trocas de amor que existe", diz.

Cozinha criativa da Tchelly
Regina gosta de trabalhar com o que tem. Se em casa não tem champinhon, cascas de banana substituem o cogumelo; cascas de melancia fazem as vezes de frango desfiado em seu risoto; ramas de cenoura viram molho de pesto; e casca de abóbora em sua quiche, jura a chef, lembra o sabor do camarão. "Às vezes vem uma chef bem metida e diz que minha quiche de carne-seca está maravilhosa. Aí eu falo: ‘Não, abestalhada, isso é casca de banana, de abóbora, e tome-lhe talo e casca’", diverte-se Regina. Só um ingrediente não entra nos alimentos que a cozinheira prepara: carne. E justifica: "É porque na minha terra natal todo fim de semana tinha que ter carne e refrigerante".

Alimento do espírito
A transformação proposta por Regina é a capacidade de enxergar o alimento não como um combustível, mas como um recurso limitado que merece cuidado, carinho e que funciona como uma ferramenta de aproximação. Todas as semanas, ela recolhe sobras nas feiras livres para usar cascas, sementes e talos. "Gosto de olhar com amor e respeito para o alimento", ensina a cozinheira. "Faço parte do mundo, então eu transformo o mundo", completa. A valorização da produção local de alimentos é um vetor do trabalho de Regina. "Hoje, em todo canto, só tem churrasco e lasanha. Se não nos conscientizarmos para resgatar os alimentos locais, vai ficar tudo igual em todas as cidades."

O aprendizado de Regina com o Favela Orgânica, que em setembro comemora quatro anos de existência, trouxe mudanças também em sua vida pessoal. "Eu já tive 165 sapatos, hoje consigo ter só três", conta a chef, sobre sua nova política de desapego. Para ela, comer bem e sentir-se bem é a melhor alternativa à voracidade consumista dos nossos tempos.


Creme de casca de abóbora

Regina Tchelly preparou uma receita especialmente para a Trip para você começar a aproveitar melhor seus alimentos e se inspirar na cozinha criativa:
Ingredientes:
• 2 kg de casca de abóbora
em cubos
• talos de salsinha a gosto,
alho-poró, manjericão, sal
e azeite a gosto
• 1 pimentão inteiro
Modo de preparo
Higienize os alimentos em água corrente e deixe em recipientes com 1 colher de sobremesa de bicarbonato de sódio para cada litro de água por 15 minutos. Reserve o manjericão e o azeite para o final, pique tudo e misture, acrescentando um copo de água e deixando cozinhar até amolecer. Bata tudo no liquidificador com o manjericão e tempere com azeite a gosto. Serve até 5 pessoas.

Ernst Götsch: Em se podando, tudo dá

Ernst Götsch, 67 anos, geneticista suíço que, em 1984, fez de uma modesta porção de terra no sertão da Bahia o solo mais fértil do país – sem utilizar agrotóxicos ou irrigação – é, por definição, um transformador. O cacau que produz hoje em dia é matéria-prima dos melhores chocolates suíços e o fazendeiro atua como consultor em projetos que pretendem expandir suas técnicas para abastecer cidades inteiras.

Densa e robusta, a propriedade de Ernst é uma mistura de Floresta Amazônica com Mata Atlântica, com mais de 1 milhão de espécies de fauna e flora convivendo em harmonia. Essas condições perfeitas foram obtidas apenas com sementes e podas regulares.

Idas e vindas
"O Brasil é o país mais rico do mundo", diz Ernst, sem ligar muito para o climão de crise atual. Ele trabalhava em projetos de genética em Londres quando visitou o país pela primeira vez, em 1976. A impressão não foi das melhores. "Era um suicídio e um assassinato ao mesmo tempo", lembra o suíço, sobre a situação que encontrou no campo. "Voltei precipitadamente, e o Brasil não era mais o lugar dos meus sonhos. Mas pensei que voltaria um dia, no futuro, para melhorar e plantar", prometeu.

Arrendou uma porção de terra na Suíça e comprovou, com experimentos, que o cultivo de diversas espécies em uma mesma área era muito mais produtivo que a monocultura. Foi quando surgiu a oportunidade de ensinar agricultura sustentável em uma comunidade de refugiados nicaraguenses na Costa Rica, que o tornou famoso em seu país. "Chegaram pilhas de cartas me convidando para conhecer fazendas", conta ele, que então aceitou o convite para melhorar a qualidade das terras de um suíço em Ilhéus, na Bahia.

Técnica e contemplação
Com a remuneração que recebeu, Ernst decidiu comprar uma porção de terra. A fazenda Fugidos da Terra Seca, no interior do estado, foi a opção. Ela fazia jus ao nome: "Quando passei de avião, a vegetação era fraca, degradada". Mas o suíço confiou em seu know-how: "Escolhi o lugar, plantei 350 hectares de florestas e 111 hectares de cacau em um ano". Uma década depois, o Ibama registraria os mais altos índices de melhora do país vindos das terras de Ernst. E pensar que, como ele mesmo conta, tudo o que o suíço fez foi acordar diariamente as 5 da manhã, tomar 1 litro de suco de laranja, escrever e desenhar por 1 hora, e sair para o mato para espalhar sementes e cortar copas de árvores.

"Estou convencido de que todos os seres nascem equipados para entender os outros e se comunicar com eles", explica o suíço – que, no entanto, confessa se dar melhor com o reino vegetal do que com o ser humano. Em 2004, a fazenda mudou de nome para Olhos D’Água, em homenagem à recuperação das nascentes que um dia constaram nos primeiros registros das terras.

Todo solo é rico
Para Ernst, agrofloresta "tem só dois momentos: o de plantar e o de cortar e plantar de novo" e a vida desconhece o conceito de acumulação. De acordo com o fazendeiro, quando o sistema chega a um estado ótimo, alguns mecanismos afloram e criam condições para animais de grande porte, que têm a função de escoar o alimento. "Os animais de grande porte são o meio que a vida tem para escoar excedente. Eles comem, vão para o rio tomar água e defecam. Não é pecado escoar, pecado é retirar o que não deve", defende Ernst. "Não é inteligente arrancar uma planta com raiz e caule. Já o fruto, é previsto dentro do funcionamento do organismo", arremata. "Nossa tarefa como animal de grande porte não é nos preocuparmos com o adubo, e sim nos comportarmos de modo a ser úteis e queridos", finaliza.

Outra abordagem interessante da filosofia do suíço é sua visão sobre a riqueza do solo. "Todos os solos são ricos. A interferência desarmoniosa de partes é que conduze modificações que resultam na presença inoportuna, e se diz que a terra é pobre", atesta. A riqueza, portanto, vem da sabedoria para interagir com aquele ecossistema.

O Sertão vai virar mar?
Atualmente, Ernst Götsch aperfeiçoa a sua fluência no idioma da natureza para concretizar seu próximo sonho: reflorestar um deserto ou uma região semiárida. "Mas só depois de traduzir a aplicação de meus princípios para a produção em larga escala. Os desertos deste planeta foram criados pelo ser humano moderno nos últimos 12 mil anos e caberia a nós tentar uma reconciliação com o planeta. Não vejo dificuldade, mas ainda não tenho o aval da querida [como chama sua esposa, Cimara Goulart]. Com crianças pequenas, ainda não posso levá-las para um mundo tão diferente", coloca. Enquanto Ernst viver no Brasil, pelo menos, o que se sabe é que um pedacinho do país estará em boas mãos. E que, quem sabe, a natureza e os brasileiros possam aprender a conviver com um pouco mais de harmonia.

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